Diferenças entre o Islamismo Xiita e Sunita
A principal diferença entre sunitas e xiitas reside na interpretação da sucessão legítima da liderança após a morte do profeta Maomé. A profissão de fé, à qual todos os muçulmanos aderem, afirma: “Não há deus senão Alá, e Maomé é Seu profeta.” Entretanto, os xiitas acrescentam uma frase extra: “e Ali é o amigo de Deus.” Essa convicção de que Ali foi o sucessor legítimo de Maomé causou grandes disputas e divisões no mundo islâmico, de forma semelhante às divergências que ocorreram entre protestantes e católicos na Europa durante a Reforma. No entanto, a cisão que originou as principais seitas do Islã não decorre de diferenças doutrinárias, mas sim da identidade do “verdadeiro sucessor” de Maomé.
Entre os discípulos mais próximos de Maomé estava Ali, seu genro, que possuía um conhecimento profundo dos ensinamentos do profeta. Contudo, após a morte de Maomé, em 632 d.C., os seguidores deixaram de lado Ali – considerado pelos xiitas como o sucessor legítimo – e deram espaço para que um primo do terceiro sucessor de Maomé, Uthman (644-656 d.C.), chamado Mu’awiya, se autoproclamasse califa. Com a morte de Mu’awiya, em 680 d.C., seu filho Yazid usurpou o califado, em detrimento do filho mais novo de Ali, Hussein. A disputa entre os sucessores culminou na batalha de Karbala, onde Hussein foi morto, mas seu único filho sobreviveu e deu continuidade à linhagem sucessória. Por sua vez, Yazid inaugurou a dinastia omíada, a partir da qual surgiu o sunnismo moderno.
No que diz respeito às crenças, tanto os muçulmanos sunitas quanto os xiitas concordam com os cinco pilares do Islã. Contudo, embora os sunitas honrem Ali, eles não veneram seus imames como possuidores do dom da intercessão divina. Em contraste, os xiitas veneram seus imames, acreditando que estes são infalíveis na interpretação do Alcorão, o que espelha, em certa medida, a veneração concedida ao Papa em Roma. Os sunitas realizam orações comunitárias e defendem a possibilidade de um relacionamento direto com Deus.
Ambos os grupos estão associados a atividades terroristas, embora de maneiras diferentes. Entre os grupos xiitas destacam-se organizações como o Hezbollah, no Líbano, e a Guarda Revolucionária Iraniana/Força Quds. Já entre os grupos sunitas, encontram-se organizações como a Al-Qaeda, ISIS/ISIL, os Talibãs no Afeganistão e Boko Haram.
Na prática religiosa, os muçulmanos sunitas realizam cinco orações diárias – fajr, zohr, asar, maghrib e isha –, enquanto os xiitas realizam suas orações três vezes ao dia: de manhã, ao meio-dia e ao entardecer. Outra importante diferença é que os xiitas permitem o casamento temporário, conhecido como muttah. Essa prática, que originalmente era permitida na época do Profeta, vem sendo promovida no Irã por uma aliança inusitada entre clérigos conservadores e feministas, esses últimos buscando atenuar a obsessão com a virgindade feminina, evidenciando que apenas uma das treze esposas do Profeta era virgem no momento do casamento.
Geograficamente, o Irã é majoritariamente xiita, com 89% da população. Os muçulmanos xiitas também compõem a maioria da população no Iêmen, Azerbaijão, Bahrein e representam 60% da população do Iraque. Além disso, há comunidades xiitas significativas na costa leste da Arábia Saudita e no Líbano. A conhecida organização guerrilheira Hezbollah, que expulsou os israelenses do sul do Líbano em 2000, é de orientação xiita. Em escala global, os xiitas constituem entre 10% e 15% da população muçulmana, embora representem a maioria do elemento radical e violento do Islã.





