O que é o Livro de Jasher e ele deveria estar na Bíblia?
Também conhecido como “Livro do Justo” na Septuaginta grega e “Livro dos Justos” na Vulgata Latina, o Livro de Jasher provavelmente era uma coletânea de antigos cânticos e poemas hebraicos que enalteciam os heróis de Israel e suas façanhas em batalha. Esse livro é mencionado em Josué 10:12-13, quando o Senhor parou o sol em pleno dia durante a batalha de Bet Horon, e também em 2 Samuel 1:18-27, na qual se encontra o Lamento do Arco – a canção fúnebre composta por Davi após as mortes de Saul e Jônatas.
A questão que se impõe é: se o Livro de Jasher é citado na Bíblia, por que ele foi excluído do cânon das Escrituras? É importante lembrar que Deus orientou os autores bíblicos a utilizarem trechos de diversas fontes extrabíblicas durante a composição da Sua Palavra. No relato da batalha em Josué 10:13, por exemplo, o próprio Josué indica que, caso alguém duvide do que foi narrado, basta consultar o Livro de Jasher, pois esse registro também constava nessa obra.
Outros escritos hebraicos também são mencionados na Bíblia, sendo que Deus indicou a utilização de várias fontes. Entre eles estão o Livro das Guerras do Senhor (Números 21:14), o Livro de Samuel, o Livro de Natã e o Livro de Gad (1 Crônicas 29:29), as Atas de Roboão e as Crônicas dos Reis de Judá (1 Reis 14:29). Além disso, sabe-se que Salomão compôs mais de mil cânticos (1 Reis 4:32), embora apenas dois tenham sido preservados no livro dos Salmos (72 e 127). No Novo Testamento, Paulo, inspirado pelo Espírito Santo, incluiu uma citação do poeta cretense Epimenides (Tito 1:12) e fez referências aos poetas Epimenides e Arato em seu discurso em Atenas (Atos 17:28).
O ponto a ser destacado é que o Autor divino da Bíblia escolheu materiais oriundos de diversas fontes, encaixando-os no grande designo das Escrituras. A história narrada na Bíblia não ocorreu de forma isolada; os personagens interagiram com outras culturas e povos. Por exemplo, embora a Bíblia afirme que há um único Deus, ela também menciona vários deuses adorados tanto em Israel quanto entre as nações vizinhas. De maneira semelhante, às vezes encontramos citações de escritores seculares, como em Atos 17:28 e Tito 1:12, não porque esses autores fossem inspirados, mas porque suas palavras serviam para reforçar um determinado ponto.
Hoje em dia, existe um livro intitulado “O Livro de Jasher”, mas ele não é o mesmo mencionado no Antigo Testamento. Trata-se de uma falsificação do século XVIII que alega ser uma tradução do “perdido” Livro de Jasher realizada por Alcuin, um estudioso inglês do século VIII. Há também um livro mais recente, intitulado “The Book of Jashar”, do escritor de ficção científica e fantasia Benjamin Rosenbaum, que é uma obra completa de ficção.
Outra obra com o mesmo nome, popularmente chamada de “Pseudo-Jasher”, foi escrita em hebraico, mas também não corresponde ao Livro de Jasher citado nas Escrituras. Esse livro reúne lendas judaicas desde a criação até a conquista de Canaã sob a liderança de Josué, embora os estudiosos considerem que ele não existia antes do ano 1625. Além disso, há diversos outros tratados teológicos de rabinos e estudiosos judeus denominados Sefer ha Yashar, mas nenhum deles reivindica ser o Livro de Jasher original.
Em suma, devemos concluir que o Livro de Jasher mencionado na Bíblia se perdeu ao longo do tempo e não sobreviveu até os dias modernos. Tudo o que realmente sabemos sobre ele se encontra nas duas citações bíblicas anteriormente referidas. Os demais livros que levam esse título são fictions ou tratados morais judaicos.





