O que é o livro de Eclesiástico?

O que é o livro de Eclesiástico?

Existem vários livros incluídos em algumas Bíblias, conhecidos como livros apócrifos ou deuterocanônicos, mas, por não aparecerem em todas as Bíblias, costumam gerar confusão. Esses livros extras são geralmente referidos como extracanonicos pelos protestantes, pois não foram incluídos nas primeiras listas de Escrituras aceitas pelos pais da igreja. Também são chamados de deuterocanônicos (“segundo cânon”) ou apócrifos (“ocultos”). O Eclesiástico, também conhecido como A Sabedoria de Sirac ou simplesmente Sirac, é um desses livros. Embora fosse muito conhecido e amplamente lido nos tempos do Novo Testamento, nem sempre foi considerado no mesmo patamar dos livros do Antigo Testamento.

O Eclesiástico foi aparentemente escrito por Jesus, neto de Sirac, entre 190 e 170 a.C. Ele também é referido como Yeshua Ben Sirac ou, de forma abreviada, Ben Sirac. Observador filosófico da vida, viveu em Jerusalém e demonstrava profundo conhecimento das Escrituras e tradições hebraicas. O livro originalmente foi escrito em hebraico, e uma tradução para o grego foi produzida pelo neto do autor por volta de 132 a.C. No prólogo da edição grega, o escritor identifica o cânon hebraico aceito como composto “pela Lei, os profetas e os que o sucederam.” Com essa categorização tripartida, ele indica que o cânon do Antigo Testamento já era considerado fechado, não incluindo seu próprio livro. Essa visão é corroborada por outros escritos antigos que listam os livros do Antigo Testamento sem mencionar os livros deuterocanônicos ou apócrifos.

O título comum do livro deve-se ao fato de ter sido utilizado nos serviços das antigas sinagogas, bem como em reuniões das primeiras igrejas. O Livro de Eclesiástico foi incluído na Septuaginta, tradução grega do Antigo Testamento elaborada por volta de 250 a.C., além de constar no Códice Vaticano e no Códice Sinaítico, ambos do século IV d.C. Apesar de sua presença na Septuaginta e do uso disseminado nos primeiros séculos, ele não foi integrado ao cânon hebraico; nenhum pai da igreja o incluiu oficialmente no cânon até Agostinho, em 397 d.C. Epifânio, em 385 d.C., chegou a comentar que a canonicidade do livro era contestada entre os judeus de sua época, e o Concílio de Laodiceia (363 d.C.) omitiu-o de sua lista de Escrituras aceitas. Melito, bispo de Sardes, em 170 d.C., fez questão de excluir os livros em disputa do cânon, contando inclusive com a recomendação de Eusébio de Cesareia. Já a Igreja Católica, com a decisão do Concílio de Trento, em 1546, ofereceu apoio oficial aos livros deuterocanônicos, solidificando o cânon católico como distinto daquele anteriormente aceito. A maioria dos protestantes, entretanto, mantém-se fiel ao cânon antigo, rejeitando os livros deuterocanônicos.

O conteúdo do Eclesiástico assemelha-se bastante aos demais livros de sabedoria do Antigo Testamento. A obra reúne conselhos sobre uma vasta gama de temas, dispostos sem uma ordem sistemática, e poemas que exaltam a sabedoria e reconhecem o Senhor como sua fonte. Uma diferença marcante em relação às Escrituras diz respeito ao tratamento da retribuição pelo pecado. É possível que Ben Sirac, identificado com os saduceus – que não acreditavam na vida após a morte –, tenha reforçado essa ideia. Na versão hebraica, nega-se qualquer retribuição no além, ensinando que Deus punirá os pecados durante a própria vida. Por exemplo, Daniel 12:2 afirma claramente que uns despertarão para a vida eterna, enquanto “outros para a vergonha e o desprezo eterno.” Da mesma forma, o Salmo 9:17 declara que os ímpios serão enviados ao inferno, e Jesus repreendeu os saduceus (Mateus 22:29-32) por negarem a existência de uma vida após a morte.

No geral, o restante do livro serve como um valioso comentário e guia instrucional, fundamentado nas Escrituras. Grande parte de seu conteúdo reflete os ensinamentos de livros bíblicos anteriores, mantendo uma teologia judaica conservadora tradicional. Deus é retratado como imutável, onisciente e misericordioso. Mesmo que o pecado resulte da escolha humana, há esperança para os pecadores, pois estes podem abandonar o erro e se arrepender. A essência do Eclesiástico reside na ideia de que a sabedoria – identificada com a Lei – é concedida apenas àquele que teme o Senhor (cf. Provérbios 9:10).

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