O que é hipergraça?

Pergunta

O que é hipergraça?

Resposta

O termo hipergraça tem sido usado para descrever uma nova onda de ensinamentos que enfatizam a graça de Deus, deixando de lado outros ensinamentos fundamentais, como o arrependimento e a confissão de pecado. Os defensores da hipergraça afirmam que todo pecado — passado, presente e futuro — já foi perdoado, de modo que não haveria necessidade de um crente confessá-lo. Segundo esse ensino, quando Deus nos contempla, Ele vê apenas um povo santo e justo. A conclusão desse pensamento é que não estamos obrigados a seguir os ensinamentos de Jesus, assim como não estamos submetidos à Lei; os crentes não seriam responsáveis por seus pecados, e qualquer discordância seria rotulada como legalismo farisaico. Em suma, os proponentes da hipergraça “distorcem a graça do nosso Deus em uma licença para a imoralidade” e flertam com o antinomianismo.

As palavras de Jesus dirigidas às sete igrejas no livro de Apocalipse contradizem fortemente a ideia de que os cristãos jamais precisam se arrepender. À igreja de Éfeso, Jesus exclamou: “Lembra-te, pois, de onde caíste; arrepende-te e pratica as primeiras obras” (Apocalipse 2:5). Jesus repreende cinco das sete igrejas e exige arrependimento delas (Apocalipse 2:4, 2:6, 2:20; 3:3 e 3:15‑19). Longe de os crentes serem isentos da responsabilidade por seus pecados, eles terão que prestar contas a Jesus por sua desobediência (veja também 2 Coríntios 5:10).

Os pregadores da doutrina da hipergraça menosprezam o Antigo Testamento e os Dez Mandamentos, considerando-os irrelevantes para os crentes do Novo Testamento. Alguns chegam a ensinar que as palavras de Jesus proferidas antes de Sua ressurreição fazem parte do Antigo Pacto e não são mais aplicáveis aos nascidos de novo. Mas será essa a verdade?

Em Marcos 13:31, Jesus afirmou: “O céu e a terra passarão, mas as minhas palavras jamais passarão.” Antes de ascender ao céu, Ele prometeu que o Pai enviaria o Espírito Santo, que “vos ensinará todas as coisas e vos fará lembrar tudo o que vos tenho dito” (João 14:26). Se as palavras de Jesus não fossem mais aplicáveis ao crente, por que precisaríamos que elas nos fossem lembradas?

O ensino da hipergraça é um exemplo de como se pode misturar a verdade com o erro. Valorizar a beleza e o poder da graça de Deus é algo positivo, entretanto alguns pregadores negligenciam o que Paulo chamou de “conselho completo de Deus” (Atos 20:27). Por exemplo, é verdade que os cristãos foram perdoados por Deus, mas isso não significa que jamais precisaremos confessar nossos pecados. Tiago 5:16 nos instrui: “Confessai, pois, os vossos pecados uns aos outros e orai uns pelos outros para serdes curados.” Se devemos confessar nossos pecados uns aos outros, por que não confessá-los a Deus, visto que, em última análise, todo pecado é também ofensa contra Ele (Salmos 51:4)?

Da mesma forma, 1 João 1:9 deixa uma instrução clara aos crentes acerca da confissão: “Se confessarmos os nossos pecados, ele é fiel e justo para nos perdoar os pecados e nos purificar de toda injustiça.” Trata-se de uma relação de causa e efeito, que implica que não podemos dispensar a confissão sem perder o benefício do perdão de Deus. Embora sejamos “posicionalmente justos” por meio da graça, continuamos a pecar na prática e, por isso, devemos confessar e nos arrepender para restabelecer uma relação íntima com o Pai.

Alguns defensores da hipergraça afirmam, ainda, que as cartas de João não foram dirigidas aos crentes. Contudo, 1 João 2:1 começa dizendo: “Filhinhos, escrevo-vos estas coisas, para que não pequeis; mas, se alguém pecar, temos um Advogado para com o Pai, Jesus Cristo, o Justo.” João deixa claro que escrevia para seus amigos crentes, reconhecendo que, mesmo crentes, eles poderiam pecar e, ao fazê-lo, precisariam confessar seus pecados.

Outros defensores da hipergraça alegam que o Espírito Santo jamais convencerá os cristãos de seus pecados. Contudo, todo discípulo de Cristo já sentiu a profunda convicção do Espírito Santo ao pecar. Jesus chama o Espírito Santo de “Espírito da Verdade” (João 15:26), e a própria natureza da verdade não tolera o que é falso. Assim que o Espírito da Verdade habita em um coração crente (1 Coríntios 6:19), Ele traz convicção sobre tudo o que foge da verdade.

Em resumo, muito do que os pregadores da hipergraça ensinam é válido. De fato, somos salvos pela graça, e não por obras (Efésios 2:8‑9), e a graça de Deus é maravilhosa, poderosa e gratuita (1 Timóteo 1:14). No entanto, o ensino da hipergraça está desproporcional em relação ao restante das Escrituras. Sempre que uma doutrina é enfatizada à margem do todo, corremos o risco de cairmos em erro, pois deixamos de “tratar corretamente” a Palavra de Deus (2 Timóteo 2:15).

Jesus foi cheio tanto de “graça quanto de verdade” (João 1:14). As duas se encontram em delicado equilíbrio, e pender demasiadamente para um lado pode resultar em um evangelho distorcido. Portanto, devemos sempre comparar qualquer novo ensino com o “conselho completo de Deus” e rejeitar tudo aquilo que se desvie, mesmo que minimamente, da verdade (1 João 4:1).

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