Pergunta
Às vezes, as pessoas usam a expressão sétimo céu para se referir a uma experiência de grande alegria, êxtase ou um contentamento prazeroso. A própria expressão implica que existem sete céus ou sete níveis do céu, uma doutrina encontrada em várias religiões não cristãs.
Resposta
Duas religiões muito antigas ensinam a existência de sete céus: o hinduísmo e o antigo culto babilônico. No hinduísmo, existem sete mundos superiores e sete mundos inferiores; a terra é o menor dos mundos superiores. Os seis mundos superiores são locais de maravilhas e deleites crescentes para onde as pessoas que acumularam bom karma vão após a morte. O sétimo céu é, naturalmente, o melhor. Quando os mortos esgotam o tempo que suas boas ações lhes renderam, eles reencarnam e retornam à terra. Quem leva uma vida extraordinariamente piedosa pode romper com esse ciclo e alcançar o nirvana, um estado de existência eterna.
Os antigos babilônios, por sua vez, não ensinavam que os sete céus eram destinados aos seres humanos; em vez disso, dividiam o espaço celeste em sete níveis entre a atmosfera da terra e o que chamavam de espírito dos céus. Além desses níveis, havia o zodíaco. Cada um dos sete céus estava associado a um deus específico e a um corpo celeste: a lua, Mercúrio, Vênus, Marte, o sol, Júpiter e Saturno.
Os historiadores não têm certeza de quando os judeus tiveram conhecimento dos sete céus babilônios; pode ser que Abraão tenha sido exposto a essa crença antes de deixar Ur, ou que estudiosos hebreus tenham aprendido sobre ela durante o exílio na Babilônia. De qualquer forma, os rabinos adaptaram o mito, integrando-o em seus escritos extrabíblicos, como o Talmud. Os “céus” judaicos, associados aos diversos corpos celestes, abrigavam uma mistura de pessoas, anjos, demônios, nefilins e fenômenos naturais. Com os avanços das ciências astronômicas e meteorológicas, os judeus passaram a encarar a ideia de sete céus de forma metafórica, reconhecendo que, afinal, não há como o granizo vir de Júpiter.
O islamismo combinou a concepção dos sete céus do judaísmo com uma narrativa oriunda do zoroastrismo. Textos tradicionais islâmicos relatam que Muhammad foi levado em uma jornada por todos os sete céus, onde encontrou personagens bíblicos ou outros profetas do islamismo. Séculos antes de Muhammad, o sacerdote zoroastriano Arta Viraf teria realizado uma viagem similar aos céus. Tanto no islamismo quanto no zoroastrismo, os sete céus representam níveis de paraíso reservados aos adoradores cada vez mais devotos.
O poeta italiano Dante Alighieri mesclou a mitologia babilônica com a metáfora cristã em sua obra A Divina Comédia. No épico de Dante, os sete corpos celestes simbolizam naturezas cada vez mais virtuosas. Acima desses céus, onde os justos são recompensados após a morte, existem mais quatro níveis. O último deles é o empíreo, o verdadeiro paraíso e morada imaterial de Deus.
A Bíblia nada diz que valide a crença em sete céus, embora o termo céu possa ter múltiplos significados. O hebraico para “céu”, shamayim, aparece apenas no plural e pode significar “firmamento” (Gênesis 1:8–9), “espaço” (Gênesis 22:17) ou “o lugar onde Deus habita” (Josué 2:11). No Novo Testamento, o grego ouranos pode significar tanto “a morada de Deus” (Mateus 12:50) quanto “o céu” como vemos na referência ao que está acima de nós (Atos 10:11). E paradeisos (“paraíso” ou “jardim”) pode se referir ao local onde os crentes mortos aguardam a ressurreição, ao lugar onde Deus habita atualmente ou ao nosso lar eterno, conforme descrito em passagens como Lucas 23:43, 2 Coríntios 12:4 e Apocalipse 2:7.
Em 2 Coríntios 12:2, Paulo relata conhecer um homem – presumivelmente ele mesmo, embora se refira a si na terceira pessoa – que foi levado ao “terceiro céu”. Aqui, o “terceiro céu” refere-se simplesmente à morada espiritual de Deus, distinto dos outros dois “céus”: a atmosfera e o espaço sideral. Assim, os três “céus” mencionados em 2 Coríntios 12:2 correspondem às três esferas que chamamos de “firmamento”, “espaço” e “céu espiritual”.
No uso cotidiano, sétimo céu passou a significar “o melhor, o lugar mais feliz”, mas a Bíblia não indica que exista um sétimo céu literal. Deus promete que não habitará eternamente acima de nós, mas conviverá conosco na Nova Jerusalém. Embora recebamos recompensas conforme nossas obras, a Bíblia jamais sugere que seremos segregados em diferentes níveis de céu.






