Discernimento é definido como “a qualidade de ser capaz de captar e compreender o que é obscuro; um ato de perceber algo; um poder de ver o que não é evidente para a mente comum.” A definição também enfatiza a exatidão, como em “a capacidade de ver a verdade.” O discernimento espiritual é a habilidade de diferenciar entre a verdade e o erro – algo fundamental para quem deseja ter sabedoria.
Debates e discussões cercam a verdade espiritual, pois ela é de natureza obscura. Jesus, ao falar com Seus discípulos sobre os fariseus, disse: “A vocês foi dado conhecer os segredos do reino dos céus, mas a eles não lhes foi concedido.” Satanás “cegou as mentes dos incrédulos”, por isso, Deus deve iluminar a mente humana para que possamos compreender a verdade. É impossível alcançar a sabedoria sem Ele, que concede ou retira o discernimento.
Algumas pessoas definem erroneamente o discernimento espiritual como uma percepção concedida por Deus para detectar a presença de influências espirituais, como identificar se um demônio está presente em um ambiente. Embora alguns possam possuir essa capacidade, esse não é o significado bíblico de discernimento. Em última análise, o discernimento espiritual está relacionado à sabedoria e à capacidade de distinguir a verdade do erro.
A sabedoria é personificada em Provérbios 1 e descrita como alguém que podemos “conhecer” (vv. 20-33). A Bíblia afirma que Jesus Cristo é “sabedoria de Deus” (1 Coríntios 1:30). Portanto, a sabedoria – ou discernimento espiritual – provém do conhecimento de Jesus Cristo. O modo de adquirir sabedoria no mundo difere daquele de Deus. Os eruditos do mundo acumulam conhecimento e aplicam a razão para resolver problemas, construir edificações e formular filosofias; porém, Deus não revela o conhecimento de Si mesmo por esses meios. Conforme 1 Coríntios 1:18-31, a “sabedoria dos sábios” é frustrada, pois Deus entrega Sua sabedoria aos “tolos” e aos “fracos” através do relacionamento com Jesus Cristo, de modo que “nenhum ser humano pode se gloriar diante dele”. Assim, aprendemos a ser espiritualmente discernentes ao conhecê-Lo.
Não há nada de errado em buscar conhecimento, ter uma boa educação ou utilizar a razão e a lógica para resolver problemas. No entanto, o discernimento espiritual não é alcançado apenas por esses meios. Ele é concedido através da revelação de Jesus Cristo ao crente, sendo desenvolvido por meio do treinamento na justiça (Hebreus 5:14) e da oração (Filipenses 1:9). Hebreus 5:11-14 ilustra como o discernimento espiritual se desenvolve: o autor adverte aqueles que se tornaram “insensíveis ao ouvir”, ou seja, que deixaram de praticar o discernimento espiritual. Enquanto aqueles que se alimentam somente de “leite” – em contraste com o “alimento sólido” desejado pelos maduros – não estão aptos na palavra da justiça, o verdadeiro cristão maduro é “treinado pela prática constante para distinguir o bem do mal”. Para isso, é fundamental tornar-se habilidoso na Palavra de Deus e praticar continuamente para ganhar experiência.
Então, como aumentar o discernimento espiritual? Primeiro, reconhecendo que somente Deus pode aumentar a sabedoria, ore por ela (Tiago 1:5; Filipenses 1:9). Depois, sabendo que a habilidade para distinguir o bem do mal vem por meio do treinamento e da prática, aprofunde-se na Bíblia para aprender a verdade e, por meio da meditação na Palavra, fixe essa verdade em seu coração.
Um exemplo prático pode ser visto nos bancos, onde os funcionários são treinados para identificar notas falsificadas. Poder-se-ia pensar que a melhor forma de reconhecer uma falsificação seria estudar diversos exemplos de notas falsas; contudo, como novas falsificações surgem a cada dia, o mais eficaz é ter um conhecimento íntimo da verdadeira moeda. Ao estudarem as notas autênticas, os caixas não se confundem quando deparados com uma falsificação. O conhecimento do verdadeiro os capacita a identificar o falso.
Da mesma forma, os cristãos devem buscar conhecer profundamente o que é autêntico para, quando o falso aparecer, possam reconhecê-lo. Ao conhecer e obedecer à Palavra de Deus, seremos “treinados pela prática constante para distinguir o bem do mal”, aprendendo a reconhecer o caráter e a vontade de Deus. Esse é o cerne do discernimento espiritual: a capacidade de diferenciar a voz do mundo da voz de Deus, percebendo intuitivamente o que é certo ou errado. O discernimento espiritual nos ajuda a resistir à tentação, permitindo-nos “odiar o que é mau e apegarmo-nos ao que é bom” (Romanos 12:9).






