Existe supostamente apenas uma igreja?
A palavra “igreja” no Novo Testamento traduz o termo ekklesia, que literalmente significa “aqueles que são chamados para fora”. Em um sentido, a igreja é o grupo de pessoas que Deus chamou para Si de todos os lugares e de todas as épocas. Dessa forma, existe apenas uma igreja – um único corpo de crentes que Deus reuniu – com crentes vivos e mortos em qualquer parte do mundo.
No Novo Testamento, o termo também é usado no plural, como quando se diz “as igrejas da província da Ásia vos saúdam. Aquila e Priscila vos saúdam de todo o coração no Senhor, assim como a igreja que se reúne na casa deles” (1 Coríntios 16:19) e “ele percorreu a Síria e a Cilícia, fortalecendo as igrejas” (Atos 15:17). Nesses casos, o termo refere-se a congregações locais de crentes que se reúnem em um local específico. Assim, existem muitas igrejas.
Uma forma de compreender os dois sentidos do termo “igreja” é reconhecer que há, de um lado, apenas uma igreja – o único corpo de pessoas chamadas por Deus – e, de outro, suas manifestações locais em diferentes lugares, as quais chamamos de “igrejas”. Podemos comparar essa ideia ao modelo de franquia de uma grande empresa: por um lado, existe apenas uma corporação, mas, em outro, há diversos estabelecimentos espalhados pelo mundo. Quando se fala da igreja, muitas vezes diferencia-se a igreja universal da igreja local, ou, às vezes, a igreja invisível da visível. (A igreja universal é considerada “invisível” por não se reunir de forma completa e ser observada como uma igreja local.)
De um lado, há apenas uma igreja, o Corpo de Cristo. Do outro lado, há muitas manifestações locais desse corpo, cada qual com características únicas de acordo com a região ou as pessoas que a compõem, assim como cada restaurante de determinada rede pode ter um layout ou um cardápio específico para aquela localidade. Esse conceito é fácil de entender e, em si, não gera controvérsia. Se todas as igrejas locais concordassem absolutamente, com variações apenas no estilo ou ênfases, provavelmente não haveria confusão – mas, na prática, há muita disparidade nas práticas e ensinamentos entre elas. Surge, assim, a pergunta: não deveria haver apenas uma igreja?
Algumas igrejas locais são independentes, sem uma diretoria ou organização humana que determine suas práticas. Elas seguem o Novo Testamento conforme o entendem e respondem diretamente a Cristo. Outras, entretanto, fazem parte de uma igreja ou denominação maior que exerce controle sobre as comunidades locais. O problema surge quando uma igreja ou denominação acredita e pratica algo completamente diferente de outra, embora ambas afirmem seguir os ensinamentos do Novo Testamento e o senhorio de Cristo. Esse dilema já existia desde os primórdios do cristianismo.
Quando Jesus ascendeu ao céu, deixou os apóstolos com autoridade sobre a igreja. Esses homens falavam em nome de Deus e foram fundamentais na produção do Novo Testamento. Contudo, mesmo nos primeiros dias, alguns contestavam a autoridade dos apóstolos. Paulo, por exemplo, enfrentava pessoas que o seguiam e tentavam perturbar seu trabalho. Após estabelecer uma igreja em uma cidade e partir para outra, esses indivíduos chegavam e diziam que seus ensinamentos estavam incorretos ou incompletos, ou que o próprio Paulo não era suficiente. Em alguns casos, os novos ensinamentos contrariavam tanto o evangelho que Paulo precisou condená-los veementemente (veja Gálatas 1:6–9). Em outros, quando as pessoas começaram a se identificar com um líder em detrimento de outro, Paulo exortava à união, questionando: “Apelo a vós, irmãos, pelo nome de nosso Senhor Jesus Cristo para que todos concordem e não haja divisões entre vocês…” (1 Coríntios 1:10–13). Assim, mesmo nos dias dos apóstolos, surgiam divisões na igreja.
Após a passagem dos apóstolos, os líderes da igreja ficaram responsáveis por ensinar a Bíblia e manter a integridade da comunidade. Porém, como nos tempos apostólicos, sempre haverá aqueles que distorcem ou pervertem o evangelho, reunindo seguidores e alegando transmitir a verdade. Outros podem ensinar a verdade, mas de forma a atrair seguidores com base em suas personalidades e métodos de liderança. As distorções do evangelho não são as únicas razões para a existência de diferentes denominações ou igrejas locais. Questões estilísticas, culturais e não doutrinárias também influenciam. Todos esses fatores contribuíram para o surgimento da diversidade de igrejas e denominações que conhecemos hoje. Muitas afirmam seguir Jesus e os ensinamentos do Novo Testamento, mas nem todas estão em plena sintonia. Infelizmente, algumas hoje mantêm apenas a aparência de seguir a Cristo ou de se conformar com o Novo Testamento.
As igrejas são formadas por pessoas imperfeitas que mudam com o tempo. Muitas vezes, os membros ou até mesmo a igreja como um todo podem alterar suas convicções e decidir se separar para formar uma nova congregação que reflita melhor suas novas crenças. Em certos momentos, uma igreja ou denominação modifica seus ensinamentos, levando seus membros a saírem e se unirem a outras comunidades. Isso ocorreu, por exemplo, no início do século XX, quando muitas denominações se afastaram da autoridade da Bíblia e surgiram igrejas “fundamentalistas”. Mais recentemente, diante da normalização de comportamentos ou ordens que divergem de uma leitura mais tradicional da Escritura, novas igrejas têm surgido ou antigos membros se transferido para outras comunidades.
Devido à variedade de crenças e interpretações do Novo Testamento, a formação de diferentes igrejas e denominações é inevitável. Pode ser difícil para um indivíduo encontrar uma igreja que se alinhe perfeitamente com suas convicções, assim como uma igreja pode pertencer a uma denominação cuja visão nem sempre reflete a opinião de todos os seus membros. Cada cristão e cada comunidade devem decidir, a partir de seus próprios estudos da Palavra de Deus, quais pontos são cruciais e em quais questões é possível haver concessões em nome da comunhão.
Em muitas ocasiões, igrejas e até denominações cooparam quando há consenso sobre os pontos essenciais da doutrina. Por exemplo, pastores conceituados como John MacArthur e R.C. Sproul, apesar de suas diferenças em questões secundárias – como batismo e escatologia – já se uniram em conferências e projetos, lutando conjuntamente pela autoridade da Palavra de Deus e pela integridade do evangelho. Embora jamais tenham imaginado combinar suas igrejas, demonstraram que é possível conviver e cooperar em meio à diversidade, evidenciando a unidade que deve prevalecer entre os verdadeiros crentes.
Todos os cristãos evangélicos concordam em certos pontos fundamentais, como a doutrina da Trindade, a autoridade das Escrituras e a justificação pela graça mediante a fé. Muitas igrejas evangélicas – sejam elas batistas, independentes ou presbiterianas – colaboram em diversas iniciativas ministeriais. Entretanto, dificilmente se reuniriam como uma única igreja, pois seria impossível harmonizar crenças secundárias divergentes. Por exemplo, as igrejas batistas tendem a adotar o sistema de governo congregacional, enquanto as presbiterianas delegam as decisões finais aos anciãos. Assim, não se pode aplicar ambos os sistemas na mesma igreja. Da mesma forma, as práticas de batismo divergem: enquanto os batistas batizam apenas os crentes que escolheram expressamente a fé em Cristo, os presbiterianos praticam o batismo infantil como sinal da fé dos pais. Portanto, a existência de diferentes igrejas é não só inevitável, mas, em certo sentido, necessária para preservar a paz.
Idealmente, haveria apenas uma igreja; contudo, não vivemos num mundo ideal. Vivemos em um mundo caído, onde as pessoas são imperfeitas. Alguns distorcem intencionalmente a Palavra de Deus para enganar os outros, mas ainda assim intitulam suas organizações de “igreja”. Outros abandonaram a autoridade da Palavra em favor de ideias modernas, mantendo apenas o nome “igreja” em suas instituições. Há aqueles que, mesmo sinceros, equivocam-se na interpretação de questões secundárias. Nenhuma igreja é perfeita. Porém, todas as igrejas que pregam a Palavra de Deus e vivem o evangelho fazem parte da igreja universal. Deus utiliza a diversidade das igrejas locais para refletir Seu caráter e transmitir o evangelho ao mundo. Para os cristãos, é fundamental escolher congregações onde a Bíblia seja a autoridade. Ao mesmo tempo, a cooperação entre as igrejas evangélicas é essencial para que as divergências em assuntos secundários permaneçam realmente secundárias. O que une os verdadeiros crentes em Jesus Cristo é muito maior do que quaisquer diferenças que possam existir.






