Pergunta
Será que Mateus 7:21-23 significa que os crentes podem perder a salvação?
Resposta
As duas questões mais frequentemente levantadas sobre Mateus 7:21-23 surgem porque os versículos parecem contradizer duas crenças firmemente estabelecidas — a de que um crente não pode perder a salvação e a de que qualquer pessoa que realiza milagres deve ser de Deus. Como veremos, uma dessas crenças está fundamentada na verdade das Escrituras, enquanto a outra não. Embora o verdadeiro crente não possa perder sua salvação, nem todos os milagres são realizados por quem realmente O pertence.
Jesus fala aqui, próximo ao final do Seu Sermão da Montanha (capítulos 5 a 7). A partir do versículo 13, Ele discorre longamente sobre a diferença entre a fé verdadeira e as falsas declarações, utilizando a técnica do contraste e da comparação. Nos versículos 13 e 14, Ele descreve dois caminhos pelos quais as pessoas caminham na vida: a estrada larga que conduz à destruição eterna e o caminho estreito que leva à vida eterna. Nesse contexto, Ele introduz o conceito dos “muitos” e dos “poucos”, ao qual se referirá nos versículos 21-23.
Em passagens anteriores, Jesus contrasta os dois tipos de pessoas utilizando imagens familiares a uma cultura agrária — como ovelhas contra lobos, uvas contra figos, arbustos de espinhos contra issopor, árvores boas contra árvores ruins e frutos bons contra frutos ruins. Após estabelecer essa dicotomia na mente dos que O ouviam, Ele aplica essas verdades ao estado espiritual de todos. Jesus apresenta os dois tipos de pessoas que se apresentarão diante d’Ele “naquele dia” — o dia final, o dia do juízo, um dia determinado por Deus, oculto tanto para anjos quanto para homens, e que será motivo de temor para alguns e de júbilo para outros. Todos buscarão entrar no reino dos céus, mas alguns serão rejeitados e se encontrarão em profunda confusão e desapontamento ao verem que aquilo que pensavam ser seu “bilhete” para o céu não tem nenhum valor. Esses são aqueles que profetizaram em nome de Jesus, seja prevendo acontecimentos futuros ou proclamando a Palavra em Seu nome. Embora tenham realizado milagres, como expulsar demônios, curas e outros sinais, suas obras foram realizadas para a própria glória e não para a glória de Cristo – sendo, em última análise, “trapos imundos”, conforme descrito em Isaías 64:6.
Em contraste, aqueles que entrarão no céu não o farão com base em conquistas milagrosas ou em qualquer obra, mas unicamente na obediência à vontade de Deus, que consiste em crer no Filho de Deus.
Mas quem são essas pessoas infelizes e como podem realizar milagres, se não estão agindo pelo poder de Deus? Do texto, podemos extrair duas informações importantes. Primeiro, sabemos que são muitas, pois há muitos que seguem pela estrada larga rumo à morte eterna, em comparação com os relativamente poucos que encontram o caminho estreito para a vida eterna. Segundo, elas reivindicam o nome de Cristo. Não se trata de muçulmanos, budistas ou ateus, mas de pessoas que afirmam com convicção: “Eu sou cristão”. Elas realizam obras em nome de Jesus, oram, curam, ensinam e constroem grandes igrejas e ministérios, além de declararem um relacionamento com Ele. Contudo, tais atos não os qualificam como Seus, pois Jesus os rejeita – não por reconhecer as suas boas obras (muitas das quais são feitas em nome de Jesus por falsos profetas), mas por desqualificar todos os seus atos e palavras. Ele afirma que jamais os conheceu, assim como eles nunca O conheceram verdadeiramente. Esses indivíduos não foram verdadeiros cristãos que perderam a salvação; eles nunca fizeram parte dos eleitos de Deus, escolhidos antes da fundação do mundo, separados e santificados pelo Espírito e justificados pela fé. Aqueles que Cristo afasta com severas palavras de condenação – chamando-os de praticantes do mal – não O buscaram com fé, mesmo apresentando sinais exteriores e realizando milagres.
Se essas pessoas não pertencem a Deus e nunca pertenceram, como se explica sua capacidade de realizar milagres? Seria possível que aqueles que não possuem o Espírito consigam, de fato, expulsar demônios, realizar curas milagrosas e operar sinais e maravilhas espetaculares? Existem duas hipóteses para essa capacidade dos ímpios.
A primeira hipótese é que alguns milagres são realizados pelo poder de Satanás e de sua hoste demoníaca. Sabemos que Satanás é extremamente astuto. Poderia haver momentos em que ele orquestra um exorcismo, em que um incrédulo ordena a um demônio que se retire, e o demônio finge obedecer, com o objetivo de semear o medo nos presentes e conduzi-los a confiar em ervas, encantamentos, talismãs, água benta e relíquias, em vez de confiarem em Deus? Talvez aqueles condenados descritos em Mateus 7 tenham se convencido de que estavam servindo a Cristo com base nesses “sucessos” satânicos, considerando que o demônio sobre o qual achavam ter autoridade estivesse, na verdade, apenas brincando com eles – fazendo-os se ver como caçadores de demônios, quando eram, na realidade, vítimas de engano. Nem todos os milagres provêm de Deus, e nem todos os que operam milagres em nome de Jesus O fazem verdadeiramente. Jesus chama esses homens de “praticantes do mal” porque os milagres que realizaram tiveram o mal como origem, e eles foram incapazes de perceber essa verdade. Ele ainda adverte que devemos estar vigilantes para não sermos enganados à medida que os últimos dias se aproximam (conforme Mateus 24:24).
A segunda hipótese é que Deus, em Sua soberana vontade e para cumprir os Seus propósitos, pode capacitar incrédulos a praticar feitos de caráter milagroso. Um exemplo disso é Judas Iscariotes, que, junto com os demais discípulos, pregava o evangelho e, presumivelmente, também realizava curas e outros milagres. Não há evidência de que Judas não possuísse o mesmo poder dos outros onze, embora ele nunca tenha sido um verdadeiro discípulo de Cristo – sendo, na verdade, um enganador e o “filho da perdição” (conforme João 17:12). Se Judas chegou a realizar milagres, foi somente porque Deus achou conveniente usá-lo para manifestar a Sua glória, independentemente do estado do seu coração.
Jesus conclui descrevendo aqueles que serão capazes de invocar o Seu nome no dia do juízo. Serão aqueles que ouvirem a Sua palavra e a aplicarem em suas vidas, exatamente como mencionado no versículo 21, referindo-se àqueles que obedecem à vontade do Pai nos céus. Os verdadeiros crentes são comparados a boas árvores que produzem frutos bons, as verdadeiras ovelhas que se voltam para Cristo, dependem Dele, se comprometem com Ele, confiam Nele e O creem para alcançar a justiça, a salvação e a vida eterna. Esses serão os que entrarão no reino dos céus.






