O que a Bíblia diz sobre ler ou escrever ficção?

Pergunta

O que a Bíblia diz sobre ler ou escrever ficção?

Resposta

A Bíblia é o Livro da Verdade. Deus nos exorta a falar a verdade e a rejeitar as mentiras. Dada a ênfase bíblica na verdade, onde se encaixa a ficção? Será que escrever ficção — ou seja, uma história inventada — é mentir? É pecaminoso criar e distribuir algo que não é verdadeiro? Devemos ler ficção? Afinal, as Escrituras nos advertem a evitar mitos e fábulas.

Na realidade, esse aviso tem o objetivo de prevenir que a igreja se envolva em controvérsias sobre especulações extra-bíblicas. O ministério de ensino deve se fundamentar na Palavra de Deus e não nas ideias, filosofias e imaginações dos homens. Debater sobre a existência de certos anjos ou detalhes insignificantes, como a cor do cabelo de Sansão, é inútil; o dogmatismo em assuntos assim é ainda pior. Contudo, a Bíblia não proíbe ler ou escrever ficção.

De fato, a própria Bíblia utiliza recursos de contação de histórias que se enquadram no gênero ficcional para transmitir verdades. Por exemplo, o profeta Natã conta a Davi uma narrativa fictícia sobre um homem cujo único cordeiro foi roubado e sacrificado; quando a ira de Davi se revela, Natã expõe que a história era uma alegoria do caso de Davi com Bate-Seba. Outras narrativas, como a fábula de Jotão e a alegoria apresentada por Ezequiel, ilustram essa utilização da ficção. O maior contador de histórias é Jesus, que usava parábolas — histórias fictícias — para transmitir verdades espirituais.

Escrever ficção para revelar verdades espirituais segue o exemplo de Jesus. Obras como “O Progresso do Peregrino”, de John Bunyan, embora sejam ficcionais, estão profundamente enraizadas nos ensinamentos bíblicos. Muitas histórias de C. S. Lewis são alegorias que expõem verdades espirituais. Bunyan sabia que sua obra poderia ser criticada por empregar palavras “fingidas” (ou seja, ficcionais), mas defendia que a ficção pode ser um veículo de verdade: “Alguns homens, com palavras fingidas tão obscuras quanto as minhas, fazem a verdade cintilar e seus raios brilhar!” Assim, não há conflito entre a Bíblia e a ficção como gênero literário.

Isso significa que toda história ficcional escrita, lida ou assistida por um cristão deve, em seu cerne, transmitir uma mensagem cristã? Não necessariamente. Uma narrativa de valor não precisa ser explicitamente cristã, embora haja princípios bíblicos a considerar. As Escrituras nos lembram de direcionar nossos pensamentos para as coisas do alto e para aquilo que é verdadeiro, honesto, correto, puro e amável. Um exemplo frequentemente citado é “O Senhor dos Anéis”, obra de um autor cristão que, mesmo não sendo uma alegoria cristã direta, transborda valores como coragem, unidade de propósito e abnegação.

A Bíblia permite o uso da ficção. Entretanto, seja uma alegoria espiritual, ficção histórica ou mero entretenimento, autores cristãos devem aplicar as diretrizes bíblicas, e os leitores exercer o discernimento conforme os ensinamentos das Escrituras. As Escrituras ensinam que nenhuma palavra imprópria deve sair de nossa boca, mas sim palavras que edifiquem de acordo com a necessidade do momento. Além disso, Paulo admoesta contra obscenidades e conversas tolas. Os escritores de ficção precisam lembrar que, mesmo quando a intenção é entreter, toda narrativa contém um componente de ensinamento, e a transmissão da verdade é uma tarefa espiritualmente séria.

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