O que é graça barata?
O termo “graça barata” remonta ao livro escrito pelo teólogo alemão Dietrich Bonhoeffer, intitulado O Custo do Discipulado, publicado em 1937. Nele, Bonhoeffer definiu “graça barata” como “o pregar do perdão sem exigir arrependimento, o batismo sem a disciplina da igreja, a comunhão sem confissão. Graça barata é graça sem discipulado, sem a cruz, sem Jesus Cristo.” Nota-se que, em sua definição, enfatiza-se os benefícios do cristianismo sem os custos envolvidos, daí o adjetivo barata para descrever essa graça.
Um debate semelhante sobre graça barata surgiu nas décadas de 1980 e 1990 na controvérsia conhecida como “Salvação pelo Senhor”. Essa polêmica ganhou força quando o pastor e teólogo John MacArthur se opôs a um ensino que se popularizava em círculos evangélicos, chamado “cristianismo carnal”. Essa expressão remete a uma declaração do apóstolo Paulo à igreja de Corinto, onde ele diz que não podia tratá-los como pessoas espirituais, mas sim como “infantes em Cristo”. O termo “carnal” deriva da palavra latina para “carne” e, no Novo Testamento, embora “carne” possa significar simplesmente “corpo”, muitas vezes Paulo o utiliza para se referir à nossa natureza pecaminosa – aquela parte não redimida do homem com a qual o novo homem em Cristo deve lutar diariamente.
A ideia do “cristianismo carnal” ensina, basicamente, que basta fazer uma profissão de fé em Cristo para ser salvo, mesmo sem uma obediência imediata aos comandos de Jesus e dos apóstolos para viver uma vida de santidade. Em outras palavras, defende-se que podemos ter Jesus como Salvador sem necessariamente reconhecê-Lo como Senhor. Os defensores desse conceito, muitas vezes chamados de “graça livre”, não negam a necessidade de boas obras para a santificação, mas distinguem o chamado para a salvação daquele para a santificação e o discipulado.
Textos bíblicos são frequentemente utilizados para sustentar essa posição, tendo como base passagens conhecidas como João 3:16 e Romanos 10:9, que afirmam que aquele que crê em Jesus possui a vida eterna e será salvo. Ainda que essas passagens ensinem que a fé em Jesus garante a salvação, a questão levantada por John MacArthur e outros não é sobre o fato de que a salvação e a vida eterna são presentes gratuitos da graça de Deus, mas sobre o ensino de que o chamado para a salvação não incluiria também um chamado para o arrependimento e a vida de santidade.
Os defensores da “Salvação pelo Senhor” afirmam que a salvação é um chamado ao discipulado, ou seja, não é possível ter Jesus apenas como Salvador sem também reconhecê-Lo como Senhor. O Novo Testamento utiliza, por exemplo, a palavra “Senhor” centenas de vezes – a grande maioria dessas vezes, referindo-se a Deus ou a Jesus, enquanto o termo “Salvador” aparece com muito menos frequência. Embora o trabalho redentor de Jesus na cruz seja inegável e maravilhoso, não se pode separar o fato de que Ele é também Senhor, cuja autoridade se reflete em Seus mandamentos aos quais devemos obedecer.
Na Grande Comissão, Jesus instruiu os discípulos a irem ao mundo inteiro, fazendo discípulos de todas as nações, batizando-os e ensinando-os a obedecer a tudo o que Ele ordenou. Assim, evangelismo e discipulado caminham lado a lado. Ser discípulo significa observar e cumprir todos os ensinamentos de Jesus. Não há um processo em duas etapas – primeiro ser salvo e depois se tornar discípulo. Essa distinção arbitrária não encontra respaldo no Novo Testamento e, portanto, não pertence à essência do cristianismo.
Em um trecho do Evangelho de Lucas, Jesus fala sobre o custo do discipulado. Ele deixa claro que ninguém pode ser seu discípulo sem, primeiramente, estar disposto a renunciar à família, e aquele que não carrega sua própria cruz também não pode segui-Lo. Jesus apresenta dois exemplos que ilustram a importância de “contar o custo”: o primeiro, de um homem que deseja erguer uma torre sem calcular os gastos necessários, e o segundo, de um rei que se prepara para a batalha, certificando-se de estar pronto para enfrentar um inimigo superior. A mensagem é evidente: o discipulado tem um custo.
Além disso, ser discípulo exige arrependimento e obediência. No início de Seu ministério, Jesus pregou uma mensagem de arrependimento, tema que continuou a ser enfatizado pelos apóstolos após Sua ressurreição e ascensão. Jesus chegou a perguntar à multidão: “Por que me chamam ‘Senhor, Senhor’, se não praticam o que eu digo?” Ele diferenciou aquele que constrói sua casa sobre a areia daquele que a edifica sobre a rocha – isto é, aquele que não só ouve os ensinamentos de Jesus, mas também os pratica.
A graça barata tenta ocultar o custo do discipulado, afirmando que bastaria fazer uma profissão de fé para ser salvo, e que a graça de Deus cobre todos os nossos pecados. Embora seja uma verdade maravilhosa que a graça de Deus abunde mesmo diante do pecado, o apóstolo Paulo deixa claro que não devemos continuar pecando para que a graça se manifeste ainda mais. Ele questiona: “Porventura, continuaremos no pecado, para que a graça abunde? De maneira nenhuma! Nós, que morremos para o pecado, como viveremos ainda nele?” Assim, a salvação pela graça, por si só, é muito mais do que simplesmente proferir palavras vazias – é uma fé viva e ativa que se manifesta em arrependimento, obediência e amor a Deus e ao próximo. A salvação não é uma transação, mas uma transformação, fazendo de nós novas criaturas em Cristo. Não há nada de “barato” na graça de Deus!





