Pergunta
O monismo é uma cosmovisão filosófica na qual toda a realidade pode ser reduzida a uma única “coisa” ou “substância.” Essa visão se opõe ao dualismo (em que toda a realidade pode ser reduzida a duas substâncias, por exemplo, bem e mal; luz e escuridão; forma e matéria; corpo e alma) e ao pluralismo (em que a realidade é composta por múltiplas substâncias). Neste artigo, o termo substância é usado em um sentido técnico para designar “essência”, ou aquilo que confere “coisidade” – a base à qual as propriedades se aderem.
Resposta
Muitos dos primeiros filósofos pré-socráticos buscaram entender a natureza subjacente da realidade ao seu redor, tentando identificar o que poderia servir de fundamento para tudo. Para Tales (624–546 a.C.), o primeiro princípio de tudo – de onde tudo se origina – era a água. Já para Anaxímenes (585–528 a.C.), esse princípio era o ar. Outros dois monistas famosos, Heráclito (535–475 a.C.) e Parmênides (início do século V a.C.), procuraram fundamentar a realidade no devir e no ser, respectivamente. Heráclito observava que tudo ao seu redor estava em constante fluxo, o que o levou a concluir que a realidade está sempre em processo de transformação – algo que ilustrou ao afirmar que não se pode entrar duas vezes no mesmo rio, pois suas águas estão em constante movimento. Em contrapartida, Parmênides sustentava que a realidade última reside naquilo que é imutável, defendendo a ideia de um ser absoluto.
Na transição de uma análise metafísica para uma perspectiva mais espiritual, o monismo passa a ser a base para aqueles que adotam uma forma de panteísmo. Essa visão sustenta que Deus (não necessariamente o Deus cristão) é a fonte última do ser e que toda a realidade é uma manifestação dessa divindade, sem distinção real entre Deus e o universo. Plotino (204–270 d.C.), considerado o pai do neoplatonismo, foi um panteísta bastante influente. Sua metafísica ensinava que o ser supremo residia no Uno. Por meio de uma série de emanações necessárias, do Uno emanava a Mente Divina (Nous), seguida pela Alma do Mundo (Psyche) e, por fim, o mundo material (Cosmos). Outro pensador famoso que defendeu ideias panteístas foi o filósofo racionalista Baruch Spinoza, do século XVII.
O monismo também se manifesta no campo científico entre aqueles que defendem o materialismo naturalista. Segundo essa perspectiva, toda a realidade se restringe ao mundo material e nada existe além disso – nem espírito, nem alma, nem Deus. Apenas o que pode ser percebido pelos cinco sentidos é considerado real. Essa posição, comum entre muitos ateus, leva a implicações interessantes: se tudo é essencialmente matéria regida por leis físicas, conceitos como amor, moral e justiça podem perder seu sentido, tornando-se meras tentativas de se atribuir significado a um universo frio e determinístico.
Essas diferentes abordagens – seja o monismo, o dualismo ou o pluralismo – buscam solucionar o problema dos universais, ou o dilema entre o “um” e os “muitos.” Para ilustrar, pense no exemplo de uma cadeira: todos nós somos capazes de conceitualizar uma cadeira e reconhecê-la em diferentes formas. Ainda que existam muitas variações – como uma simples cadeira de madeira em comparação com uma sofisticada cadeira de escritório com almofadas e mecanismos ajustáveis – todas elas compartilham as características essenciais que definem o que é uma “cadeira”. Assim, surge a pergunta: o conceito de “cadeira” é mais real que as cadeiras concretas que vemos no cotidiano?
A resposta clássica da perspectiva cristã para esse dilema está na Trindade ontológica. Deus é o único ser verdadeiramente existente, sendo o único ser independente e autoexistente (característica técnica conhecida como aseidade). Todas as outras coisas – incluindo o universo – derivam sua existência de Deus, que criou tudo ex nihilo (do nada). Dessa forma, a realidade não é estritamente monista, pois existe uma distinção entre o Criador e a criação. Ao mesmo tempo, tampouco é dualista ou pluralista, já que o universo não possui uma existência eterna e independente como a de Deus, mas sim uma existência derivada. Em última análise, embora haja distinção, ela não implica independência, e a realidade reflete a unidade na diversidade presente em Deus, que se manifesta como uma Trindade – uma essência divina subsistente em três Pessoas divinas.






