Pergunta
O que é o amiraldismo / calvinismo de quatro pontos?
Resposta
O amiraldismo (às vezes grafado como amiraldianismo) é um desdobramento do calvinismo que adere a quatro dos cinco pontos do calvinismo – a expiação limitada sendo o único ponto rejeitado. Por isso, o amiraldismo é por vezes denominado “calvinismo de quatro pontos” ou “calvinismo moderado”. Esse movimento recebe o nome de Moses Amyraut (Moisés Amyraldus), um teólogo francês do século XVI que foi influente no desenvolvimento da doutrina da “redenção hipotética” ou “universalismo hipotético”. Alguns calvinistas veem o amiraldismo como uma forma “liberal” de calvinismo; outros o consideram um compromisso desnecessário com o arminianismo; e há aqueles que o julgam inconsistente e, por conseguinte, ilógico.
Para compreender melhor o amiraldismo, é útil recapitular o que é o calvinismo. O calvinismo clássico centra-se nos chamados cinco pontos do calvinismo, que se resumem a seguir:
- Depravação Total – O ser humano, em seu estado caído, é completamente incapaz de realizar qualquer bem que seja aceitável a Deus.
- Eleição Incondicional – Como resultado da depravação total, o homem é incapaz (e relutante) de buscar a Deus para a salvação. Assim, Deus deve escolher soberanamente aqueles que serão salvos. Sua decisão de eleger indivíduos para a salvação é incondicional, não se baseando em nada do que o homem é ou faz, mas unicamente na graça de Deus.
- Expiação Limitada – Para salvar aqueles que Deus escolheu incondicionalmente, era necessário que a expiação dos seus pecados fosse realizada. Deus, Pai, enviou Seu Filho, Jesus Cristo, para expiar os pecados dos eleitos e garantir o perdão mediante Sua morte na cruz.
- Graça Irresistível – O Espírito Santo aplica a obra consumada da salvação aos eleitos, atraindo-os de maneira irresistível para a fé e o arrependimento. Esse chamado salvífico do Espírito não pode ser resistido e é denominado chamado eficaz.
- Perseverança dos Santos – Aqueles que Deus escolheu, para os quais a expiação foi realizada e que foram chamados eficazmente, são preservados na fé até o fim. Eles jamais se afastarão, pois Deus os selou com o Espírito Santo. Os santos perseveram porque Deus os sustenta.
Conforme mencionado, o ponto que o amiraldismo rejeita é o terceiro, a expiação limitada. Em seu lugar, o amiraldismo defende a expiação ilimitada, ou o conceito de “universalismo hipotético”, que sustenta que Cristo morreu pelos pecados de todas as pessoas, e não apenas dos eleitos. Essa posição preserva a doutrina da eleição incondicional mesmo ao ensinar a expiação ilimitada: como Deus sabia que nem todos responderiam com fé à expiação de Cristo (em decorrência da total depravação do homem), Ele escolheu alguns aos quais concederia a fé salvadora.
O amiraldismo situa-se entre o calvinismo e o arminianismo no que diz respeito à extensão da expiação. Enquanto o calvinismo defende que a expiação se restringe aos eleitos – tornando a salvação uma realidade apenas para eles –, o arminianismo explica que a expiação é ilimitada e disponível para todos, sendo que a morte de Cristo na cruz torna a salvação possível, cabendo ao homem exercer fé para que ela se efetive. O amiraldismo ensina que Cristo morreu por todos, mas que Deus aplica essa salvação somente àqueles que Ele escolheu, posição também conhecida em alguns círculos calvinistas como “expiação ilimitada/limitada”.
Esse sistema teológico parece resolver a dificuldade apresentada pela expiação limitada, em conciliar o calvinismo com passagens bíblicas que afirmam que Cristo morreu por todos (por exemplo, João 3:16; 2 Pedro 3:9; 1 João 2:2). Contudo, o amiraldismo também enfrenta um desafio: se Cristo morreu por todos, logicamente existem pessoas no inferno cujos pecados foram expiados. Segundo essa doutrina, tais indivíduos não fazem parte dos eleitos, o que levanta a questão de se Deus teria deixado de lado aqueles por quem Cristo morreu. Os defensores do amiraldismo respondem que a salvação de Deus – operada pelo sacrifício ilimitado de Cristo – é oferecida igualmente a todos, embora com uma condição: a fé. De certo modo, a graça de Deus é universal – pois Ele deseja que todos sejam salvos – mas, em outro sentido, essa graça é aplicada (através da eleição) somente àqueles que não rejeitam a salvação.
O amiraldismo, ou calvinismo de quatro pontos, é atualmente popular entre muitos evangélicos, incluindo igrejas bíblicas independentes, batistas e alguns presbiterianos. Essa perspectiva é, fundamentalmente, também a posição adotada por alguns ministérios que defendem a ideia de que a extensão da expiação era ilimitada.






