O Livro dos Jubileus: Sua Origem e Por Que Não Faz Parte do Cânon Bíblico?
O Livro dos Jubileus, às vezes denominado “Pequena Gênesis” ou “Testamento de Moisés”, é uma obra pseudepigráfica da literatura apocalíptica judaica. Provavelmente escrito entre 135 e 105 a.C., o livro apresenta um relato da história bíblica desde a criação do mundo até a época de Moisés, conforme transmitido a Moisés por um anjo no Sinai. A narrativa é organizada em períodos ou “jubileus” de 49 anos. Em geral, o relato segue a criação como registrada no Livro de Gênesis, porém insere detalhes interessantes, como os nomes das filhas de Adão e a criação dos anjos. Alguns estudiosos consideram o Livro dos Jubileus uma expansão do midrash sobre Gênesis e a primeira parte do Êxodo.
O único texto completo atualmente existente é um manuscrito etíope do século VI d.C., contendo 1.307 versos. Acredita-se que o livro foi originalmente escrito em hebraico ou aramaico, teoria esta reforçada pela descoberta, entre os Manuscritos do Mar Morto, de fragmentos em hebraico contendo partes do Livro dos Jubileus. Até o momento, pelo menos quinze manuscritos separados foram identificados em Qumran, tendo todos sido reduzidos a fragmentos, os quais correspondem a apenas cerca de 3% do conteúdo total do livro. Existem também alguns fragmentos em grego e latim, mas nenhum desses idiomas apresenta o livro de forma completa.
Segundo o Livro dos Jubileus, no Monte Sinai “o anjo da presença falou a Moisés, de acordo com a palavra do Senhor, dizendo: Escreva a história completa da criação” (Jubileus 2:1). Neste relato, o anjo informa a Moisés que Deus criou várias categorias de anjos no primeiro dia de criação, dando especial ênfase ao sábado (Jubileus 2:17–32). No capítulo 3, Adão e Eva permanecem no Éden por sete anos; somente após “exatamente sete anos” é que a serpente tenta Eva (Jubileus 3:17), e foi somente depois da queda que Adão teve relações com sua esposa (Jubileus 3:34).
No capítulo 4, são apresentados Noé e sua esposa, que recebe o nome de Emzara, e o capítulo 5 narra o dilúvio. Em seguida, no capítulo 6, após o dilúvio, Deus instrui Noé: “Ordena aos filhos de Israel que observem os anos de acordo com esta contagem — trezentos e sessenta e quatro dias, os quais constituirão um ano completo” (Jubileus 6:32). O ano solar de 364 dias, em vez de um ano lunar de 360 dias, é um dos pilares centrais do Livro dos Jubileus.
Alguns estudiosos apontam que o texto teria sido escrito com o intuito específico de promover um calendário baseado no ciclo solar, evitando que as estações e os anos se desalinhassem e que os dias sagrados fossem negligenciados (Jubileus 6:33). Sob esse sistema, como o número 7 é divisor de 364, a mesma data cai no mesmo dia da semana a cada ano, permitindo uma regularidade na observância dos dias santos.
O comando sobre o calendário reflete outra ênfase importante no livro: as leis concernentes ao sábado, à Páscoa, às primícias e a outras festas sagradas. O autor do Livro dos Jubileus afirma que as celebrações do Senhor eram observadas pelos patriarcas muito antes da época de Moisés. A circuncisão, por exemplo, é destacada no texto, que adverte sobre a “grande ira do Senhor” contra os israelitas não circuncidados (Jubileus 15:40).
O autor do Livro dos Jubileus possivelmente era um membro essênio da comunidade de Qumran, os responsáveis por copiar e preservar os Manuscritos do Mar Morto. Detalhes teológicos e culturais presentes no livro diferem dos ensinamentos dos fariseus e saduceus, estando em consonância com outros escritos essênios, inclusive no que tange ao sistema de calendário.
A única comunidade que, atualmente, aceita o Livro dos Jubileus como canônico é a Igreja Ortodoxa Etíope. Entretanto, diversos problemas surgem quanto à inclusão desta obra na Bíblia como Escritura inspirada. O principal deles reside no fato de que o autor, ao recontar a história de Gênesis, altera diversos aspectos do registro bíblico. De maneira geral, os patriarcas são enaltecidos como homens santos, zelosos em observar a lei — inclusive os aspectos cerimoniais — muito antes de Moisés subir ao Sinai. Por exemplo, no Livro dos Jubileus, Jacó não mente para seu pai; Isaque, por sua vez, declara que Jacó é seu legítimo herdeiro; um Jacó idoso escolhe Lia como esposa; e o episódio da artimanha de Abrão com o Faraó sequer é mencionado. Em contraste com o registro sincero das falhas desses heróis da fé presente na Escritura, o autor de Jubileus os apresenta de forma excessivamente enaltecida.
Além disso, o Livro dos Jubileus expande a Lei de Moisés e enfatiza punições que ultrapassam os limites do texto bíblico. Por exemplo, quem consumir sangue “será eliminado juntamente com sua descendência” (Jubileus 6:18). Um pai que casar sua filha com um gentio “com certeza morrerá; ele será apedrejado com pedras… e a mulher será queimada com fogo” (Jubileus 30:11–12). O livro inclui ainda rituais adicionais, como o uso de guirlandas que devem ser colocadas sobre as cabeças de israelitas durante a Festa dos Tabernáculos — celebração iniciada por Abraão — e a obrigatoriedade de carregar ramos ao redor do altar sete vezes a cada manhã (Jubileus 16:39, 41), além de especificar o tipo de madeira para o fogo do holocausto (Jubileus 21:16–19).
Em síntese, o Livro dos Jubileus amplia a Lei Mosaica, adota uma abordagem hagiográfica, introduz ensinamentos sectários quanto ao calendário e carece de evidência suficiente em manuscritos. Por essas razões, a obra não atende aos padrões necessários para ser considerada canônica nas Escrituras.






