O que é teologia cruzada / teologia da cruz?

O que é a teologia da cruz?

A teologia da cruz, ou theologia crucis, é um termo cunhado pelo teólogo alemão Martim Lutero para se referir à crença de que a cruz é a única fonte de conhecimento espiritual acerca de quem Deus é e de como Ele salva. Somente na cruz o ser humano caído obtém o entendimento resultante da habitação do Espírito Santo no momento da conversão (conforme referenciado em passagens das Escrituras). Essa teologia é colocada em contraste com a teologia da glória, ou theologia gloriae, que enfatiza as habilidades e a razão humana. Lutero utilizou pela primeira vez o termo theologia crucis na Disputa de Heidelberg, em 1518, ao defender as doutrinas da Reforma a respeito da depravação do homem e da submissão da vontade ao pecado.

A principal diferença entre a teologia da cruz e a teologia da glória reside na capacidade ou incapacidade do homem de se justificar diante de um Deus santo. O teólogo da cruz sustenta as verdades bíblicas de que o homem é incapaz de conquistar a justiça por si mesmo, de complementar ou aumentar a justiça alcançada pelo sacrifício de Jesus na cruz, e que a única fonte de justiça vem de fora de nós. Essa visão concorda plenamente com a avaliação do Apóstolo Paulo sobre a condição humana, afirmando que “nada de bom vive em mim, isto é, em minha natureza pecaminosa”. Assim, o teólogo da cruz rejeita a ideia de que o homem pode alcançar algum grau de justiça por meio do cumprimento das obras da lei, sendo salvo e santificado única e exclusivamente pela graça.

Em contrapartida, os teólogos da glória enxergam o bem no ser humano e acreditam na capacidade intrínseca de cada um para praticar o bem. Eles sustentam que, mesmo após a queda, o homem mantém alguma aptidão para preferir o bem em detrimento do mal, e que a salvação depende da participação ou cooperação com a justiça concedida por Deus. Esse ponto de vista acende o clássico debate entre obras e fé, muitas vezes decorrente de uma interpretação equivocada de certos trechos do livro de Tiago, onde se argumenta que os bons feitos seriam a prova de uma fé genuína, e não que a conversão dependa das obras em si.

É importante notar que a teologia da cruz não propaga a ideia sentimental de que Jesus se torna mais atraente por se identificar com as nossas provações e tribulações. Embora Ele realmente se identifique com o nosso sofrimento, o mesmo não o torna mais nobre. Nosso sofrimento é o subproduto da queda da humanidade no pecado, enquanto o sofrimento de Jesus foi o de um Cordeiro inocente sacrificado pelos pecados alheios, e não pelo próprio pecado. Além disso, a teologia da cruz não convida à identificação com o sofrimento de Cristo por meio do nosso próprio sofrimento, que, por menor que seja, não se equipara ao que Ele suportou. No fim das contas, Jesus sofreu e morreu porque ninguém se identificou com Ele: o povo clamava “Crucifiquem-no!”, um de Seus discípulos o traiu, outro O negou e os demais O abandonaram. Sua solidão no sofrimento ressalta que, ao tentarmos nos unir a Ele nessa dor, acabamos por diminuir o sacrifício realizado e enaltecer nossos próprios sofrimentos de um modo nunca pretendido pela teologia da cruz defendida por Lutero.

Deixe um comentário