Pergunta
O que Jesus quis dizer quando afirmou que “muitos dos primeiros serão os últimos e muitos dos últimos serão os primeiros”?
Resposta
Jesus fez a declaração “muitos dos primeiros serão os últimos e muitos dos últimos serão os primeiros” no contexto de Seu encontro com o jovem rico. Após o jovem se afastar de Jesus, incapaz de abrir mão de suas grandes riquezas, os discípulos perguntaram ao Senhor qual seria a recompensa deles no céu, pois haviam deixado tudo para segui-Lo. Jesus prometeu-lhes “cem vezes mais”, além da vida eterna — e então afirmou: “Mas muitos dos primeiros serão os últimos, e muitos dos últimos serão os primeiros”.

Jesus reiterou essa verdade ao final da parábola dos trabalhadores na vinha, uma história criada para ilustrar que os últimos podem ser os primeiros e os primeiros, os últimos. Mas o que exatamente Ele quis dizer com “muitos dos primeiros serão os últimos e muitos dos últimos serão os primeiros”? Primeiro, é importante eliminar o que Ele não quis dizer. Jesus não estava ensinando que o caminho para o céu passa por viver em pobreza neste mundo. A Escritura deixa claro que a salvação é pela graça, mediante a fé, e não por obras — independentemente da situação financeira de cada um. Tampouco estava ensinando uma inversão automática dos papéis no céu; não existe uma lei celestial em que os pobres e oprimidos devam governar sobre os ricos e poderosos. Os ricos nem sempre serão os últimos no céu, assim como os pobres nem sempre serão os primeiros. Os crentes que desfrutam de riqueza e prestígio nesta vida não serão obrigados a se humilhar no reino celestial. A posição terrena não se traduz automaticamente em posição inversa no céu.
Quando Jesus disse aos discípulos que eles seriam grandemente recompensados no céu pelo que haviam deixado na terra, Ele colocava em contraste o sacrifício deles com a relutância do jovem rico em abrir mão de algo por amor a Cristo. Deus, que conhece o coração, recompensará conforme o empenho e a sinceridade de cada um. Os discípulos são um exemplo daqueles que podem ser considerados “os primeiros” — e, por acaso, eram pobres (embora sua pobreza não lhes conferisse essa posição no reino celestial). Já o jovem rico é exemplo daqueles que podem se tornar “os últimos” — ele era rico, mas sua riqueza não garantiu prioridade diante de Deus.
A afirmação do Senhor de que os últimos serão os primeiros e os primeiros, os últimos, pode ter tido um significado especial para Pedro, que fora o primeiro a declarar ter “abandonado tudo”. Talvez Jesus tenha percebido em suas palavras um toque de orgulho, sinal de complacência espiritual, semelhante ao que acontecia com o jovem rico, mas por um motivo diferente. A resposta de Jesus pode ter servido como um alerta indireto para que Pedro sempre encontrasse sua suficiência em Cristo, e não em seus próprios sacrifícios. Afinal, sem amor, até o maior dos sacrifícios é em vão.
No capítulo seguinte, Jesus conta uma parábola que narra a história de trabalhadores que reclamam porque outros, que trabalharam menos, receberam o mesmo pagamento. Em outras palavras, eles viam seu próprio trabalho como mais merecedor de recompensa, enquanto consideravam o esforço dos demais inferior. A interpretação mais direta, baseada no conteúdo da parábola, é que todos os crentes, independentemente do tempo ou da intensidade de seus serviços nesta vida, receberão a mesma recompensa fundamental: a vida eterna. O ladrão na cruz, cuja demonstração de serviço se limitou a um breve momento de arrependimento e confissão de fé, recebeu o presente da vida eterna, assim como alguém que dedicou anos de sua vida a servir a Deus. Embora a Escritura também mencione diferentes recompensas no céu para distintos serviços, a recompensa suprema — a vida eterna — será concedida a todos, baseada na graça de Deus através de Cristo Jesus.
Existem diversas maneiras de se compreender como “os primeiros serão os últimos e os últimos, os primeiros”. Há aqueles que foram os primeiros a seguir a Cristo em termos de tempo, mas que, mesmo assim, não serão prioritários no reino. Judas Iscariotes foi um dos primeiros discípulos e teve a honra de ocupar o cargo de tesoureiro, mas sua ganância o levou à ruína; Paulo, embora tenha sido o último dos apóstolos, foi um dos que mais se dedicaram. Existem também os que foram os primeiros em termos de privilégio, mas que não serão os primeiros no reino. Sob os termos da Nova Aliança, os gentios passaram a ter acesso igual ao céu, embora não tivessem servido a Deus sob a Antiga Aliança. Por sua vez, os judeus, que haviam labutado sob a Antiga Aliança, ficaram ressentidos com a graça estendida aos “novos” gentios. Ademais, há aqueles que possuem prestígio e posição, mas que podem nunca ingressar no reino. Jesus afirmou que os pecadores desprezados pelos fariseus estavam entrando no reino de Deus antes deles, exemplificando que os cobradores de impostos e as prostitutas teriam prioridade.
O ensinamento de Jesus revela que haverá muitas surpresas no céu. O sistema de valores celestial é radicalmente diferente do sistema de valores terrenal. Aqueles que são estimados e respeitados neste mundo — como o jovem rico — podem ser vistos com desdém por Deus. Por outro lado, aqueles rejeitados e desprezados na Terra — como os discípulos — podem ser grandemente recompensados. Não se deixe conduzir pelo método falho de hierarquização deste mundo; aqueles que se julgam os primeiros, ou que são considerados assim pelos outros, poderão se surpreender, no Dia do Julgamento, ao descobrir que são, na verdade, os últimos aos olhos de Deus.






