Pergunta
Por que todos os nossos atos justos são considerados trapos imundos?
Resposta
“Todos nós nos tornamos como alguém impuro, e todos os nossos atos de justiça são como trapos imundos; murchamos como folhas, e como o vento, nossos pecados nos varrem” (Isaías 64:6). Esse trecho é frequentemente utilizado para condenar todos os nossos atos de bondade como nada mais do que “trapos imundos” aos olhos de Deus. O contexto refere-se especificamente aos israelitas na época de Isaías (760–670 A.C.), que se desviaram de Deus. Isaías escrevia sobre sua nação e sua hipocrisia, incluindo a si mesmo na descrição ao usar “nós” e “nosso”. Embora Isaías tenha sido redimido e consagrado como profeta, ele se via como parte de um grupo totalmente pecador. A doutrina da depravação total é ensinada em outras passagens das Escrituras (por exemplo, Efésios 2:1–5), e a ilustração em Isaías 64:6 pode ser aplicada ao mundo inteiro, especialmente considerando que o próprio profeta se incluía na condenação.
O termo “trapos imundos” é bastante forte. A palavra “imundos” traduz o termo hebraico iddah, que significa literalmente “os fluidos corporais do ciclo menstrual de uma mulher”. Já “trapos” traduz a palavra begged, que quer dizer “trapo ou vestimenta”. Assim, os “atos de justiça” são considerados por Deus tão repugnantes quanto um produto higiênico feminino contaminado.
Enquanto Isaías escrevia, os israelitas já haviam recebido inúmeras bênçãos milagrosas de Deus, mas se voltaram contra Ele ao adorar falsos deuses (Isaías 42:17), realizar sacrifícios e queimar incenso em altares estranhos (Isaías 65:3–5). Isaías chegou até a chamar Jerusalém de prostituta e a compará-la a Sodoma (Isaías 3:9). Esse povo nutria uma ilusão de autojustiça. Contudo, Deus não considerava suas ações nada além de “vestes contaminadas” ou “trapos imundos”. A apostasia — o afastamento da lei de Deus — havia tornado suas boas obras completamente impuras. “Como o vento, [seus] pecados os varriam” (Isaías 64:6). Martinho Lutero chegou a afirmar: “A heresia mais condenável e perniciosa que já afligiu a mente do homem é a de que, de alguma forma, ele pode se tornar bom o bastante para merecer viver para sempre com um Deus todo-santo.”
Embora a autojustiça seja condenada em toda a Bíblia (Ezequiel 33:13; Romanos 3:27; Tito 3:5), somos ordenados a praticar boas obras. Paulo explicou que nada podemos fazer para nos salvar, pois a salvação vem unicamente pela graça de Deus (Efésios 2:8–9). Em seguida, ele proclamou que “somos obra dele, criados em Cristo Jesus para boas obras, que Deus preparou de antemão para que andássemos nelas” (Efésios 2:10; veja também 2 Coríntios 3:5).
Nossa salvação não resulta de nossos esforços, habilidades, escolhas inteligentes, características pessoais ou atos de serviço. No entanto, como crentes, fomos “criados em Cristo Jesus para as boas obras” — para ajudar e servir aos outros. Embora nada possamos fazer para conquistar a salvação, a intenção de Deus é que ela gere atos de serviço. Somos salvos não apenas para nosso benefício, mas para servir a Cristo e edificar a comunidade de crentes (Efésios 4:12). Isso reconcilia o aparente conflito entre fé e obras, visto que nossos atos justos não produzem a salvação, mas são a evidência dela (Tiago 1:22; Tiago 2:14–26).
Por fim, devemos reconhecer que mesmo nossos atos de justiça são resultado da ação de Deus em nós, e não de nossos próprios méritos. Por si só, nossa “justiça” é simplesmente autojustiça, e uma religião vã e hipócrita não gera nada além de “trapos imundos”.






