O que é a teoria do Deutero-Isaías? O livro de Isaías foi escrito por vários Isaías?
A maioria dos estudiosos mais conservadores da Bíblia concorda que Isaías foi o único autor do livro que leva seu nome. No entanto, alguns estudiosos liberais são céticos em relação a qualquer indício de inspiração sobrenatural nas Escrituras. De fato, chegam a explicar as profecias cumpridas nesses livros re-datando-as para depois dos eventos terem ocorrido. A teoria dos vários Isaías é um exemplo desse ceticismo, utilizado para questionar a autoridade da Bíblia como Palavra inspirada por Deus.
Essa teoria do “Deutero-Isaías” (ou Segundo Isaías) surgiu no final do século XVIII. Supostamente, Isaías teria escrito apenas os primeiros 39 capítulos, deixando para um de seus discípulos a escrita da segunda parte (capítulos 40–66) em algum momento após o início do cativeiro babilônico (após 586 a.C.), o que explicaria as menções explícitas a Ciro, rei da Pérsia, sem necessitar de uma profecia preditiva.
Segundo a teoria do “Deutero-Isaías”, os capítulos 40 a 55 não contêm detalhes pessoais do profeta, ao contrário dos capítulos 1 a 39, que relatam diversas histórias de Isaías, incluindo seus tratos com reis e outras figuras em Jerusalém. Os defensores dessa teoria afirmam que o estilo e a linguagem dos capítulos 40 a 55 divergem significativamente dos anteriores. Curiosamente, esse mesmo argumento é, por vezes, usado por aqueles que defendem a autoria única do livro. Um dos pontos mais apontados é que as referências a Ciro surgem com as experiências dos exilados na Babilônia, justificando assim uma data posterior para a escrita desta parte do livro.
Contudo, a maioria dos estudiosos respeitáveis da Bíblia rejeita a teoria do “Deutero-Isaías”. Argumenta-se que há semelhanças no estilo de escrita ao longo de todo o livro, com o uso consistente de palavras e uma familiaridade evidente do autor com Israel, e não com a Babilônia. Além disso, a tradição judaica atribui o livro por inteiro a Isaías.
Os Manuscritos do Mar Morto contêm um rolo completo de Isaías, datado do segundo século a.C., que evidencia a unidade do texto – o final do capítulo 39 e o início do capítulo 40 aparecem em uma única coluna contínua de texto. Esse fato demonstra que os escribas que copiaram o rolo nunca questionaram a unidade do livro. O mesmo é verificado nos escritos do Novo Testamento e nos registros da igreja primitiva, onde as citações de ambas as seções são atribuídas unicamente a Isaías.
O livro de Isaías reúne profecias extensas e precisas sobre a vinda do Messias, incluindo aspectos da vida e da crucificação de Cristo, tais como:
- A era do reinado de Cristo;
- O nascimento virginal de Cristo;
- O reinado e domínio de Jesus sobre o mundo;
- Cristo como descendente de Davi;
- Cristo a ser cheio do Espírito;
- Cristo que julgará com justiça;
- Cristo governando sobre as nações;
- Cristo demonstrando sensibilidade para com os fracos;
- Cristo estabelecendo a Nova Aliança;
- Cristo como luz para os gentios e objeto de adoração;
- Cristo rejeitado por Israel;
- Cristo obediente a Deus e sujeito ao sofrimento;
- Cristo exaltado;
- Cristo restaurando Israel e julgando os ímpios.
Essas profecias messiânicas constituem uma evidência forte e significativa para as reivindicações de Jesus acerca de sua divindade. Embora os escritos de Isaías tenham sido completados muitos séculos antes do nascimento de Cristo, eles apresentam uma exatidão impressionante nas profecias. Vale lembrar que os Manuscritos do Mar Morto já continham rolos completos desse livro muito antes do advento de Cristo, e o livro de Isaías foi incluído na Septuaginta, a versão mais antiga das Escrituras do Antigo Testamento, traduzida pelo menos 300 anos antes.
A evidência mais contundente da unidade do livro de Isaías encontra-se no fato de que os evangelhos, especialmente o de Mateus, citam trechos tanto do início quanto do fim do livro, atribuindo-os inteiramente a Isaías. Quando o próprio Jesus cita passagens de Isaías – tanto para reafirmar que as Escrituras foram cumpridas quanto para enfatizar a autoridade do profeta – confirma a autoria única de Isaías e reforça a integridade de todo o livro.






