Quem foi Filo de Alexandria?

Quem foi Filo de Alexandria?

Filo de Alexandria, também conhecido como Filo Judaeus, foi um filósofo do primeiro século nascido entre 15–30 a.C. em Alexandria, Egito. Membro da diáspora judaica, Filo recebeu tanto uma educação judaica quanto grega, o que lhe conferiu um status notável em uma cidade predominantemente não judaica como Alexandria. A tradição bíblica relata que seu sobrinho Marcus casou-se com Bernice, filha de Herodes Agripa I.

Em sua obra A Vida Contemplativa, Filo menciona ter participado de um grupo monástico judaico às margens do Lago Mareótico. Em um fragmento de Sobre a Providência, ele descreve ter estado na “cidade da Síria, à beira-mar, denominada Ascalon… Estava ali, no momento em que seguia para o templo de minha terra natal, com o propósito de oferecer orações e sacrifícios.” Esse episódio antecede outro marco importante em sua vida: o encontro com o imperador romano Calígula (também conhecido como Caio) em 39 d.C., quando foi escolhido por uma embaixada judaica para confrontar o imperador após a introdução de suas estátuas em sinagogas.

Em Antiguidades Judaicas, o historiador judeu Josefo relata que “Filo, líder da embaixada judaica, homem eminente em todos os aspectos, irmão de Alexander, o alabarca, e também versado na filosofia, estava pronto para se defender das acusações; mas Caio o proibiu e mandou que se retirasse, estando tão furioso que parecia prestes a causar-lhes grandes danos.” Ofendido, Filo exortou os judeus presentes a terem coragem, explicando que embora as palavras de Caio demonstrassem ira contra eles, na realidade já haviam colocado Deus contra si mesmos. Posteriormente, rumores afirmaram que Filo teria se encontrado com o apóstolo Pedro, e alguns comentaristas cristãos, como Jerônimo, Cassiodoro e Isidoro de Sevilha, chegaram a especular que ele poderia ser o misterioso autor apócrifo da A Sabedoria de Salomão. Contudo, essa teoria permanece incerta. Apesar de muitos detalhes sobre sua vida, não há registros precisos acerca de sua morte (a tradição sugere que ocorreu em 50 d.C.), fazendo com que se especule se foi natural ou resultado de ações de Roma.

Nos primeiros anos, seu interesse e conhecimento acerca do pensamento estoico e platônico se aprofundaram, permitindo-lhe construir – em suas próprias palavras – uma compreensão mais clara da Septuaginta (a tradução grega da Bíblia Hebraica). Filo entendia as Escrituras como a história de seu povo e de Deus, que exigia uma interpretação alegórica. Para ele, a filosofia era uma ferramenta crucial para interpretar a teologia que permeava a tradição de seus antepassados há séculos. Dessa forma, ao ler a Bíblia de forma alegórica, Filo afirmava que as narrativas hebraicas e a filosofia grega não só eram compatíveis, como evidenciavam a superioridade da ética judaica. Ele não acreditava que todas as histórias da Septuaginta fossem literalmente verdadeiras, mas sim que possuíam uma construção semelhante à de obras gregas como A Ilíada e A Odisséia.

Dentre os ensinamentos presentes em sua obra, destacam-se algumas doutrinas principais. Uma delas é a doutrina de Moisés, na qual Filo via o líder não apenas como uma figura histórica que teria escrito os primeiros cinco livros do Antigo Testamento, mas também como um ser celestial, em razão de seu papel de transmitir a Lei diretamente de Deus ao povo judeu. Filo escreveu extensivamente sobre Moisés, interpretando-o como o filósofo primordial de quem toda a filosofia – especialmente a grega – teria se originado. Outra doutrina é a da Criação, na qual Filo defende o criacionismo bíblico em um contexto grego, semeando a ideia que viria a ser conhecida como criação ex nihilo, conceito implicitamente mencionado em Hebreus 11:3. Por fim, a doutrina do logos também é fundamental em seu pensamento.

Ao analisar a forma como Deus se manifesta em Gênesis 1 (especialmente ao utilizar o pronome “nós” em Gênesis 1:26) e ao prenunciar o que se concretizaria em João 1 – onde a “Palavra” (logos) é apresentada –, Filo defende que a criação foi operada pelo logos, que, embora integre o ser de Deus, possui uma individualidade própria. Mesmo que sua ideia do logos não fosse totalmente inédita, Filo foi pioneiro ao personificá-la, acreditando que o logos tornava Deus acessível à compreensão humana. Além disso, sua doutrina sobre a natureza humana evidencia sua aceitação do dualismo, assim como a concepção platônica de que os aspectos material e imaterial do homem são distintos, sendo através de Deus que essa união se torna harmônica e intencional. Dessa forma, assim como a serpente no Jardim do Éden corrompeu o plano físico, o foco da humanidade deveria ser voltado para a relação espiritual e intelectual com Deus.

A importância de Filo nos dias atuais é difícil de mensurar, já que poucos cristãos tradicionais conhecem sua obra. No entanto, talvez sua contribuição mais significativa para a teologia cristã – além de seu papel de destacado estudioso bíblico judaico no contexto do mundo ocidental – tenha sido o incentivo a uma leitura alegórica das Escrituras. Embora nem todos os textos bíblicos devam ser interpretados de forma alegórica, essa abordagem está presente em muitos livros do Antigo e do Novo Testamento, e Filo foi um dos primeiros a salientar a importância de se evitar uma leitura puramente literal. Sua técnica exegética foi inovadora para a época e o coloca como um dos primeiros comentaristas da Bíblia na história, influenciando posteriormente teólogos cristãos que buscaram interpretações não literais dos textos sagrados. Mesmo que algumas de suas interpretações possam ser contestadas pelo cristianismo contemporâneo, seu método ressaltou a natureza implícita dos textos bíblicos e ajudou a pavimentar o caminho para a crítica bíblica.

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