Ester é a jovem judia que se tornou rainha da Pérsia e salvou seu povo de um complô assassino para aniquilá-los. Sua história está registrada no livro do Antigo Testamento que leva seu nome, e a festa judaica de Purim celebra essa libertação.
A narrativa de Ester começa com um banquete real. O rei Assuero, também conhecido como Xerxes, sucedeu um grande rei persa e governou um império vasto, o maior já visto na história, abrangendo regiões que hoje correspondem à Turquia, Iraque, Irã, Paquistão, Jordânia, Líbano, Israel, além de partes do Egito, Sudão, Líbia e Arábia Saudita.
Como a maioria dos reis gentios daquela época, Xerxes gostava de manifestar seu poder e riqueza em grandes festas, que podiam durar até 180 dias. Durante um desses banquetes, o rei pediu que sua esposa, a rainha Vasti, comparecesse diante de todos os oficiais para exibir sua beleza com a coroa, possivelmente para mostrar apenas essa peça. Vasti recusou o comando, o que enfureceu o rei. Após consultar seus conselheiros, Xerxes decretou que Vasti havia cometido uma infração contra todo o povo, temendo que, ao se recusar, as mulheres da Pérsia pudessem ignorar a autoridade de seus maridos. Assim, foi ordenado, em todas as línguas do império, que Vasti jamais seria mais admitida na presença do rei.
Sem uma rainha, o rei foi aconselhado a procurar por belas virgens por todo o reino para encontrar uma nova companheira. De acordo com relatos históricos, 400 mulheres foram selecionadas para compor o harém e servirem como candidatas à nova rainha, passando por um ano de tratamentos de beleza antes de terem a chance de conhecer o rei. Ester, cujo nome hebraico era Hadassa, foi uma das virgens escolhidas.
Enquanto aguardavam, as candidatas eram mantidas no harém sob os cuidados de Hegai; depois do encontro com o rei, por deixarem de ser virgens, foram transferidas para a área destinada às concubinas, sob vigilância de outro eunuco, Shaashgaz.
Ester vivia na cidadela de Susã, residência também do rei, e era parente de Mordecai, um benjamita que a havia adotado após a morte de seus pais e que desempenhava alguma função no governo persa. Quando ela foi escolhida como candidata à rainha, Mordecai a aconselhou a não revelar sua origem judaica, visitando-a diariamente no harém para saber de seu bem-estar.
Quando chegou sua vez de se apresentar ao rei, Ester seguiu os conselhos de Hegai, o eunuco responsável pelas mulheres, ganhando rapidamente o favor de todos. O rei se encantou com ela, a ponto de amar mais do que todas as outras e a fez rainha. Além de possuir uma beleza notável, Ester demonstrava humildade e seguia os conselhos dos sábios, deixando claro que, por meio de sua história, Deus atuava em cada detalhe.
Algum tempo depois, Mordecai, enquanto estava junto ao portão do rei, ouviu um complô para assassinar Xerxes. Ele prontamente comunicou a notícia à rainha, que a repassou ao rei, dando crédito a Mordecai pelo ato. Embora o plano tenha sido frustrado, o episódio acabou caindo no esquecimento, revelando a constante conexão e integridade entre Mordecai e Ester, que ambos prezavam pela proteção do rei.
Logo após, o rei nomeou Hamã, um homem perverso que nutria profundo desprezo pelos israelitas. Descendente de Agague, rei dos amalequitas, inimigos de Israel por gerações, Hamã manifestava em seu coração o ódio e o preconceito contra esse povo. Em sua arrogância, exigiu que os oficiais se curvassem e o homenageassem, mas Mordecai se recusou, alertando os oficiais sobre sua identidade judaica. Indignado, Hamã não apenas quis punir Mordecai, como planejou destruir todos os judeus do reino de Assuero. Assim, um decreto foi emitido determinando que, num dia escolhido por sorteio, todos os judeus – homens, mulheres e crianças – fossem mortos em uma única operação, causando profundo luto entre o povo judeu.
Ester, inicialmente alheia ao complô, soube da emergência quando suas servas e eunucos informaram sobre a angústia de Mordecai. Ao receber uma cópia do decreto, ela foi instada a interceder diante do rei, ainda que uma lei proibisse sua presença sem ser chamada, visto que ela não havia sido convidada a se apresentar nos últimos trinta dias. Movedoramente, Mordecai enfatizou que, se ela permanecesse em silêncio, a salvação viria de outro lugar, mas sua própria família pereceria – e questionou se ela não teria chegado ao reino justamente para um tempo como aquele. Movida pela fé, Ester concordou em agir, pedindo que os judeus jejuassem por ela durante três dias, antes de se apresentar ao rei mesmo que isso significasse arriscar a própria vida.
Ao se aproximar de Xerxes, Ester arriscava sua vida, pois a lei a dispensava de se apresentar sem convite. Contudo, o rei se agradou dela, estendendo-lhe o cetro de ouro, sinal de aceitação. Naquele dia, ela convidou Xerxes e Hamã para um banquete, ocasião em que o rei chegou a perguntar o que ela desejava – chegando, inclusive, a oferecer até metade do reino. Posteriormente, Ester marcou um segundo banquete para apresentar seu pedido, e ambos os convidados aceitaram.
Numa noite de insônia, Xerxes ordenou a leitura dos registros de seu reinado, encontrando, para sua surpresa, o relato de como Mordecai havia desvendado o complô assassino e salvado sua vida. Enquanto isso, Hamã, retornando para casa, reuniu amigos e esposa, exaltando-se, embora a visão de Mordecai em seu caminho enfraquecesse sua confiança. Seus amigos e esposa sugeriram a construção de um patíbulo para enforcar Mordecai, conselho que Hamã acabou seguindo.
Quando o rei, ainda ponderando sobre a falta de reconhecimento a Mordecai, ouviu falar do patíbulo e viu Hamã para discutir a execução de Mordecai, perguntou como seria adequado homenagear um homem “para quem o rei se agrada”. Hamã, presumindo que o rei se referia a ele próprio, propôs que esse homem fosse desfilado pela cidade trajando uma roupa real e montado num cavalo, anunciando que “assim será feito para aquele a quem o rei se agrada!”. Surpreendentemente, Xerxes ordenou imediatamente que Hamã aplicasse essa honraria a Mordecai.
Assim, Hamã precisou enaltecer o homem que tanto odiava, e ao relatar os acontecimentos para sua esposa e amigos, recebeu alertas de que, se Mordecai, contra quem ele se voltara, era judeu, ele mesmo sucumbiria. Logo depois, os eunucos conduziram Hamã para o banquete de Ester. Neste encontro, a rainha revelou ao rei que seu povo havia sido condenado à destruição. Com respeito e humildade, ela afirmou que, se tivessem sido vendidos como escravos, ela teria permanecido calada, pois tal situação não justificaria perturbar o rei. Indignado por alguém ousar fazer mal ao povo da rainha, o rei escutou a revelação de Ester, que identificou o artífice do complô como o próprio perverso Hamã. Xerxes, tomado de fúria, deixou o banquete, enquanto Hamã permaneceu para implorar por sua vida junto a Ester. Quando o rei retornou e testemunhou a cena, interpretou mal o que via e ordenou que Hamã fosse executado no mesmo patíbulo que havia erguido para Mordecai.
Após a morte de Hamã, Xerxes concedeu a Ester todos os bens que lhe pertenciam e entregou a Mordecai o anel de selo do rei, conferindo-lhe a autoridade anteriormente de Hamã. Apesar disso, o decreto emitido por Hamã permanecia irrevogável. Ester suplicou novamente ao rei, que então ordenou a escrita de um novo decreto, garantindo aos judeus o direito de se defenderem contra qualquer ataque. A notícia espalhou alegria por todas as províncias, levando até mesmo alguns inimigos a se converterem aos judeus por temor, e, na data marcada, os judeus triunfaram sobre aqueles que os atacaram.
A coragem e a fé de Ester demonstram a confiança que essa jovem depositava no Deus vivo. Sua história é uma lição sobre a soberania divina, mostrando como Deus movimenta eventos, governos e pessoas para cumprir Seu propósito. Muitas vezes, não percebemos o que Deus está realizando em nossas vidas, mas chega um momento em que todas as experiências se unem, revelando que estivemos exatamente onde deveríamos estar – assim como Ester, que se posicionou “para um tempo como este”. Ela foi feita rainha e preparada para interceder por seu povo justamente para esse momento. Sua fidelidade e obediência, apesar dos riscos, são um lembrete da promessa de que todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus e são chamados segundo o Seu propósito.






