Quais são as coisas mais comuns que as pessoas acreditam estar na Bíblia, mas que na verdade não estão?
Resposta
No Salmo 119:16, Davi promete a Deus: “Deliciarei-me nos Teus estatutos; nunca esquecerei a Tua palavra.” Em Deuteronômio 11:18-19, Deus exorta os israelitas: “Instruirás, pois, estas minhas palavras em teu coração e em tua alma; e as ligarás como um sinal na tua mão, e elas serão como frontais em tua testa. Tu as ensinarás a teus filhos, falando delas quando te sentares em casa, quando andares pelo caminho, quando te deitares e quando te levantares.” Como crentes, sabemos que devemos estudar, memorizar e obedecer à Bíblia. Mas será que a Bíblia diz exatamente o que imaginamos? A verdade é que há várias frases que parecem vir da Bíblia, mas que não constam em suas páginas.
“Deus ajuda aqueles que se ajudam a si mesmos.”
A origem dessa frase remonta à fábula de Esopo “Hércules e o Carro de Boi”. Em uma narrativa, o carro de um homem ficou preso em um caminho enlameado e, ao orar por ajuda, Hércules apareceu e instruía: “Levante-se e ponha o ombro à roda.” A moral apresentada era a de que “os deuses ajudam quem se ajuda”. Esopo viveu entre 620 e 564 a.C. e, obviamente, não teve relação com a Bíblia.
Embora essa máxima tenha um certo valor prático, em termos espirituais não podemos fazer nada para ajudar na salvação – esta é alcançada somente por meio de Cristo. Contudo, no processo de santificação, ou seja, de amadurecimento espiritual, devemos colaborar com Deus, pois, como diz 1 Pedro 1:14-15, “Como filhos obedientes, não sejais conformados com os desejos que nos eram antigos, mas, assim como é santo aquele que vos chamou, sede vós também santos em toda a vossa conduta.”
“A limpeza está próxima da divindade.”
Apesar das regras rigorosas dadas aos israelitas sobre a impureza — tanto como metáfora para a pecaminosidade quanto para os rituais de purificação exigidos pelos sacerdotes (como em Êxodo e Levítico) — essa frase não se encontra na Bíblia. Ela se originou como um antigo provérbio babilônico e hebraico, ganhando ainda mais popularidade na era vitoriana, quando foi revivida por Sir Francis Bacon e John Wesley. Um estudo recente mostra que as pessoas tendem a ser mais justas e generosas em um ambiente limpo e com bom cheiro. Entretanto, Jesus nos exorta a nos preocuparmos mais com o pecado em nossos corações do que com a sujeira em nossas mãos, conforme registrado em Mateus 15:16–20.
“Nos últimos dias, você não será capaz de reconhecer as estações, exceto pela mudança das folhas.”
Mesmo uma busca profunda na internet não revela a origem exata dessa afirmação, a qual não se encontra na Bíblia. Em Mateus 24:32-33, o brotar das folhas é usado como uma metáfora para os sinais que anunciarão o retorno de Cristo. Todavia, em nenhum momento a Bíblia menciona que as estações serão definidas exclusivamente pela mudança das folhas.
“É melhor lançar a tua semente no ventre de uma prostituta do que derramá-la no chão.”
Esse verso é frequentemente utilizado para justificar a fornicação ou o adultério em detrimento da masturbação. Na realidade, trata-se de uma interpretação equivocada da história de Onã, exposta em Gênesis 38:6-10. Após a morte do irmão, Onã tinha a responsabilidade de casar-se com a viúva para gerar um herdeiro. Mas, ao “desperdiçar a sua semente no chão” para evitar deixar descendência para o irmão, Onã cometeu um ato egoísta pelo qual foi punido. Ressalte-se que esse trecho nem sequer aborda a questão da masturbação; muito menos encoraja a utilização de qualquer outra prática que não o relacionamento conjugal. Em 1 Coríntios 6:12-20, somos advertidos a não permitir que os desejos carnais nos dominem.
“Odeie o pecado, ame o pecador.”
Embora essa seja uma orientação com aparência bíblica, ela não é uma citação direta das Escrituras. Na verdade, trata-se de uma adaptação livre de um pensamento atribuído a Mahatma Gandhi, que em 1929 escreveu: “Odeie o pecado e não o pecador.” Já Agostinho expressara uma ideia semelhante já em 424 d.C., defendendo “o amor pelo homem e o ódio pelo pecado.” O princípio bíblico correspondente pode ser encontrado em Judas 1:22-23, no qual somos chamados a odiar o pecado — inclusive o nosso próprio — e a demonstrar amor ao próximo. Hoje em dia, esse conceito vem sendo questionado, à medida que mais pessoas se definem pelos seus pecados e rejeitam as diretrizes que Deus nos oferece em Sua Palavra.
“O amor ao dinheiro é a raiz de todos os males.”
Esse é um equívoco comum que, quando analisado, mostra ter uma solução simples. Em 1 Timóteo 6:10, lemos que “o amor ao dinheiro é a raiz de toda espécie de males…” O dinheiro, por si só, não é bom nem mau, e a riqueza não é um pecado – pois, por exemplo, Jó era próspero e ainda assim era considerado um homem íntegro, temente a Deus e afastado do mal (como descrito em Jó 1:1). O que é considerado errado é o amor ao dinheiro, no sentido de cobiça, termo que em grego se traduz por “avarícia”, significando uma afeição desmedida, na qual o desejo de acumular riquezas ultrapassa a posição de Deus e o cuidado com o próximo.
“Isso também passará.”
Essa frase é, na verdade, uma interpretação equivocada de uma linha presente no poema em inglês antigo “The Lament of Deor”. Nele, Deor se vê substituído como poeta do seu senhor, e a narrativa evoca figuras da mitologia germânica que também enfrentaram tempos difíceis, encerrando cada estrofe com “isso passou, assim também passará”. Vários versículos na Bíblia nos lembram que nossas vidas — e, de fato, o céu e a terra — passarão (conforme em Mateus 24:35). Embora seja confortante saber que as aflições terrenas são passageiras, somos igualmente chamados a nos alegrar nas dificuldades, pois elas conduzem ao fortalecimento e à santificação, como indicado em Tiago 1:2-4.
“O leão se deitará com o cordeiro.”
Embora Jesus seja tanto o Leão da Judéia quanto o Cordeiro de Deus (conforme o Apocalipse, capítulo 5), essa exata expressão não consta nas Escrituras. Em Isaías 11:6, está escrito: “O lobo habitará com o cordeiro, e o leopardo se deitará com o cabrito, e o bezerro, o leão e o novilho juntos; e um menino os conduzirá.” De forma semelhante, Isaías 65:25 diz: “O lobo e o cordeiro pastarão juntos, e o leão comerá palha como o boi…” A ideia, contudo, reflete a verdade de que no reino eterno haverá reconciliação entre o predador e a presa, resultando em um convívio pacífico.
Deus nos deixou a Bíblia como um testemunho escrito de Sua Palavra. A verdade de Deus se encontra exclusivamente nas Escrituras. Algumas frases são apenas reformulações de verdades bíblicas, enquanto outras podem ser perigosas heresias. Por mais inteligentes ou edificantes que certas citações possam parecer, se elas não estiverem na Bíblia, não temos garantia de que representem a Palavra de Deus. E a única maneira de ter essa certeza é lendo a Bíblia.






