A Cabana, de William P. Young – uma resenha

_A Cabana_ se tornou um fenômeno editorial, um sucesso de vendas de um autor de estreia que disparou as paradas e foi transformado em filme — nada mal para um livro autopublicado por William P. Young, que começou a ser vendido numa garagem.

As resenhas entusiasmadas exaltam _A Cabana_ como tudo, desde o novo _Progresso do Peregrino_ até “o melhor romance de 2007” e “um dos raros livros de ficção que pode mudar sua vida”. Segundo a capa do livro, Young foi criado por pais missionários que viviam entre uma tribo na Nova Guiné. Ele escreveu o romance para seus seis filhos, a fim de explicar sua própria jornada, saindo da dor e do sofrimento rumo à “luz, amor e transformação”. A “cabana” da história representa aquele lugar sombrio dentro de si, onde tudo de pior estava escondido — resultado de seu passado como vítima de abuso sexual, sua própria infidelidade e toda a vergonha e dor que se seguiram, profundamente enraizados em sua psique.

Esse contexto é importante, pois o passado de Young influencia fortemente sua visão tanto de Deus quanto do Cristianismo, resultando em uma concepção bastante distorcida de ambos. A narrativa tem início com Mackenzie “Mack” Phillips, um pai atormentado por uma dor imensa — uma “Grande Tristeza”, conforme a história — em razão da morte de sua filha pequena nas mãos de um assassino em série. Mack recebe uma nota de “Papai” para encontrá-lo na cabana decadente na mata, local onde a polícia havia encontrado evidências do assassinato de sua filha seis anos antes. Criado por um pai hipócrita, cruel e abusivo, que também era pastor, Mack já entende, por experiência, que “Papai” representa Deus. Ele se aproxima de _A Cabana_ tomado por uma crescente raiva, desejando atacar Deus por permitir que sua filha fosse morta. Porém, em vez do velho de longa barba branca que esperava, ele é inesperadamente acolhido por “uma grande mulher afro-americana radiante”, que se apresenta como Papai.

Mack, então, é apresentado ao restante da Trindade: Jesus, um homem do Oriente Médio vestido como trabalhador, e o Espírito Santo, uma mulher de “talvez etnia chinesa do norte, nepalense ou até mesmo mongol” chamada Sarayu. O restante da narrativa é constituído de uma conversa entre os três membros da Trindade e Mack, enquanto abordam temas como criação, queda e redenção.

Heresias sutis e não tão sutis

As intenções de Young são boas. Ele deseja apresentar aos leitores um Deus amoroso, disposto a sacrificar seu próprio Filho para nos salvar dos pecados. No entanto, todas as heresias começam com a distorção da natureza de Deus. De Testemunhas de Jeová ao Mormonismo e até mesmo ao Islamismo, todos se equivocam ao tentar entender o Deus revelado nas Escrituras, e Young se junta a esse grupo. Parte do problema advém do fato de sua narrativa ser confusa e inconsistente. Ele não pretende enganar, mas acaba se deixando enganar, seja por si mesmo ou por outros.

Ele deseja, com urgência, mostrar o Deus de amor presente na Escritura, porém ignora o outro lado: o Deus de absoluta santidade e, por fim, o Juiz final. Apresentar apenas um aspecto da natureza de Deus equivale a uma visão incompleta. Ao tentar combater a imagem equivocada de um Deus apenas como vingador de ira, não se pode inverter e apresentá-Lo somente como um pai afetuoso e permissivo que jamais julga o pecado. Ambos os extremos distorcem a realidade conforme revelada nas Sagradas Escrituras.

Ao enfatizar apenas um aspecto de Deus, _A Cabana_ acaba conduzindo os leitores a uma compreensão equivocada da atitude divina em relação ao pecado. Papai afirma a Mack: “Não preciso punir as pessoas pelo pecado. O pecado é a sua própria punição, corroendo por dentro. Não é meu objetivo punir, mas encontrar alegria em curá-lo.”

Embora o pecado frequentemente carregue consigo sua própria punição, há momentos em que os ímpios prosperam nesta vida. Mais importante, as Escrituras estão repletas de referências à ira iminente de Deus contra o pecado e a incredulidade. Fazer parecer que não é função de Deus punir o pecado constitui, em última análise, uma grave demonstração de teologia equivocada e irresponsabilidade.

Ao atribuir características humanas a Deus Pai, corremos o risco, pois Ele é espírito e, quando se expressa em termos humanos, o faz sempre como um pai. Essa ênfase é crucial, pois qualquer tentativa de transformar Deus em uma figura feminina inevitavelmente conduz a uma religião de deusa, convertendo o Criador em um mero símbolo de fertilidade e adorando a criação em si.

Além disso, por algum motivo, Papai assume outra forma mais adiante na obra, transformando-se num homem de cabelos grisalhos com rabo de cavalo. Deus, contudo, não se transforma para acomodar nossa compreensão limitada. Ele nos transforma para que possamos vê-Lo como realmente é.

Papai reconhece que Jesus é plenamente humano e plenamente Deus, mas acrescenta: “Ele nunca precisou usar Sua natureza divina para agir. Ele viveu apenas em função do relacionamento que tinha comigo, vivendo exatamente da forma que eu desejo experimentar com cada ser humano. Ele se entregou por completo — o primeiro a confiar absolutamente sua vida em mim, o primeiro a acreditar no meu amor e na minha aparência, independentemente da forma ou das consequências.”

Contudo, essa não é a mensagem das Escrituras. Jesus, antes de tudo, existia, e por meio d’Ele todas as coisas foram criadas e se mantêm. As palavras de Papai representam uma forma da antiga heresia do subordinacionismo, que coloca Jesus em posição inferior dentro da Trindade, quando as Escrituras afirmam a igualdade essencial das três pessoas.

Além disso, ainda que as Escrituras ensinem que há uma hierarquia de autoridade e submissão na divindade, Papai explica que autoritarismo e obediência são consequência do pecado, mantendo que a Trindade forma um círculo perfeito de comunhão:

“Mackenzie, não temos o conceito de autoridade final entre nós, apenas de unidade. Estamos em um círculo de relacionamento, não em uma cadeia de comando ou na ‘grande cadeia do ser’ como os seus antepassados chamavam. O que você vê aqui é um relacionamento sem a imposição de poder. Não precisamos dominar uns aos outros, pois estamos sempre buscando o melhor para todos. Uma hierarquia não faria sentido entre nós.”

Porém, as Escrituras ensinam que autoridade e submissão são inerentes à divindade desde o princípio. Jesus foi enviado pelo Pai, e ele próprio afirma que Sua intenção é obedecer à vontade do Pai. O Espírito Santo, por sua vez, obedece tanto ao Pai quanto ao Filho. Essas relações não surgem do pecado, mas representam a própria natureza de Deus, em que as três pessoas são iguais em essência, embora operem dentro de uma hierarquia de autoridade e submissão.

_A Cabana_ também propaga uma forma de patripassianismo, outra antiga heresia que afirma que Deus Pai sofreu na cruz. Em certo trecho, Mack nota “cicatrizes nos pulsos do Papai, semelhantes às que ele supunha que Jesus também possuísse”, e em seguida Papai declara: “Quando nós três nos manifestamos na existência humana como o Filho de Deus, nos tornamos verdadeiramente humanos. Também escolhemos abraçar todas as limitações que isso implicava. Mesmo tendo sempre existido neste universo criado, agora nos tornamos carne e sangue.”

No entanto, Deus Pai e o Espírito Santo não se manifestaram na existência humana dessa forma; somente o Filho se fez homem.

Uma visão baixa das Escrituras

_A Cabana_ busca tornar Deus acessível a um mundo sofrido, mas seu autor manifesta uma visão extremamente depreciativa das Escrituras, chegando a zombar daqueles que acreditam na existência de uma doutrina correta:

“No seminário, Mack aprendera que Deus havia cessado qualquer comunicação direta com os homens modernos, preferindo que ouvissem e seguissem as Sagradas Escrituras, devidamente interpretadas, é claro. A voz de Deus se resumira ao papel, e até esse papel precisava ser moderado e decifrado pelas autoridades e intelectos apropriados. Parecia que a comunicação direta com Deus era privilégio dos antigos e dos incivilizados, enquanto o acesso dos ocidentais educados a Deus era mediado e controlado pela intelligentsia. Ninguém queria Deus dentro de uma caixa, apenas em um livro. Especialmente se tratando de um livro caro, encadernado em couro com bordas douradas, ou seriam bordas de culpa?”

Se alguém pretende ensinar o erro, é necessário abandonar as Escrituras — seja adicionando elementos a elas, traduzindo-as de forma equivocada ou simplesmente desmerecendo seu valor. Porém, se o objetivo é ensinar sobre Deus, é imprescindível seguir o que Ele mesmo declarou a respeito de Sua revelação e vontade para nós. Em outras palavras, a doutrina precisa estar correta, como enfatizado inúmeras vezes nas Escrituras. Nós não devemos ser meros ouvintes ou leitores da Palavra; devemos vivê-la. Mas não podemos vivê-la sem conhecê-la, acreditarmos nela e confiarmos nela. Caso contrário, o Deus apresentado será apenas fruto da imaginação, e não o Deus perante quem todos terão que prestar contas no dia final.

Mas é apenas ficção

Alguns defendem _A Cabana_ alegando que se trata apenas de uma obra de ficção. Contudo, se Deus aparece como personagem em sua narrativa, é indispensável tratá-Lo conforme Ele se revelou nas Escrituras. Ao utilizar a Trindade como personagens, _A Cabana_ deixa claro que trata do Deus do Cristianismo. E, no entanto, Deus disse certas coisas sobre Si mesmo nas Escrituras, e grande parte do conteúdo do romance contradiz essas revelações.

Mais importante ainda, por que o autor sente a necessidade de modificar o caráter de Deus nesta narrativa? De certo modo, ele sugere que a imagem de Deus apresentada na Bíblia é insuficiente, precisando ser “melhorada” para se tornar mais apetecível. Mas Deus nunca muda para que possamos compreendê-Lo melhor. É a nossa capacidade de nos transformarmos que nos permite ver Sua verdadeira essência. Se Deus alterasse Sua natureza, deixaria de ser Deus.

Se um amigo convive com um pai frio e abusivo, não transforme o Deus da sua narrativa em uma figura feminina, calorosa e amorosa, para compensar. Mostre a esse amigo o verdadeiro exemplo de pai, conforme registrado nas Escrituras. Se ele está sofrendo, não o conforte com mentiras reconfortantes, como a afirmação de _A Cabana_ de que Deus não julga o pecado. Em vez disso, apresente-lhe o Deus de todo consolo revelado nas Escrituras, aquele que se dispôs a salvá-lo do julgamento ao enviar Seu Filho.

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