A expiação de Cristo é ilimitada?

A expiação de Cristo é ilimitada?

A Bíblia tem muito a dizer sobre a expiação de Cristo. A questão é se o Seu sacrifício proporcionou uma expiação limitada ou ilimitada. A palavra expiação significa “satisfação ou reparação por um erro ou prejuízo; compensação.” A doutrina da expiação ilimitada afirma que Cristo morreu por todas as pessoas, independentemente de elas crerem ou não n’Ele. Quando aplicada à obra consumada de Jesus na cruz, a expiação diz respeito à reconciliação entre Deus e a humanidade, realizada por meio do sofrimento e da morte de Cristo. Paulo ressalta o trabalho expiatório de Jesus ao afirmar: “Mas Deus demonstra o Seu próprio amor por nós, em que, estando nós ainda pecadores, Cristo morreu por nós. Agora que fomos justificados pelo sangue d’Ele, quanto mais certamente seremos salvos da ira de Deus, por meio d’Ele! Pois, se, sendo inimigos de Deus, fomos reconciliados com Ele pela morte de Seu Filho, muito mais, estando reconciliados, seremos salvos pela vida d’Ele!”

Como essa reparação dos erros ou reconciliação foi realizada e o que esteve envolvido nesse ato tem sido debatido por teólogos por séculos. Existem pelo menos nove posições diferentes sobre a expiação, que variam desde a expiação ser meramente um exemplo positivo para nós (a teoria do Exemplo Moral) até ser um ato judicial e substitutivo (a teoria da Substituição Penal).

Mas talvez o debate mais controverso sobre a expiação de Jesus gire em torno do que é chamado de “expiação limitada” ou “definida”. Um grupo teológico (composto principalmente por aqueles que defendem o arminianismo e o wesleyanismo) acredita que Cristo morreu na cruz por todos que já viveram e viverão. O outro grupo teológico — formado por pensadores reformados, frequentemente chamados de “calvinistas” em referência ao Reformador João Calvino — sustenta que Jesus morreu somente pelos que o Pai escolheu desde a fundação do mundo para serem salvos. Esse grupo de indivíduos redimidos é frequentemente referido como os “eleitos” ou os “escolhidos” de Deus. Qual posição está correta? Jesus morreu por todas as pessoas do mundo ou apenas por um grupo seleto?

Todos serão salvos?

Ao examinar essa questão, a primeira pergunta a se fazer é: todos serão salvos por meio da obra expiatória de Cristo? Aqueles que adotam uma posição chamada universalismo respondem “sim.” Os universalistas argumentam que, como Cristo morreu por todos e todos os pecados da humanidade foram imputados/punidos em Cristo, todos passarão a eternidade com Deus.

No entanto, as Escrituras se opõem a esse ensinamento (que pode ser traçado até um mestre chamado Laelius Socinus, no século XVI). A Bíblia deixa claro que muitas pessoas estarão perdidas, conforme demonstram os versículos abaixo:

  • “Multidões que dormem no pó da terra se despertarão: uns para a vida eterna, outros para a vergonha e desprezo eterno.”
  • “Entrem pela porta estreita; pois larga é a porta e amplo o caminho que conduz à destruição, e muitos são os que entram por ela. Em contrapartida, pequena é a porta e estreito o caminho que conduz à vida, e poucos o encontram.”
  • “Naquele dia muitos me dirão: ‘Senhor, Senhor, não profetizamos nós em teu nome, e em teu nome expulsamos demônios e realizamos muitos milagres?’ Então, eu lhes direi claramente: ‘Nunca os conheci; apartem-se de mim, vocês que praticam a iniquidade.’”
  • “Eles serão destinados ao castigo eterno, mas os justos, à vida eterna.”
  • “Serão punidos com destruição eterna e excluídos da presença do Senhor e da glória do Seu poder.”
  • “Aquele cujo nome não foi achado escrito no livro da vida foi lançado no lago de fogo.”

Como nem todos serão salvos, há um fato inescapável a ser considerado: a expiação de Cristo é limitada. Se não fosse, o universalismo deveria ser verdadeiro, e, contudo, as Escrituras ensinam claramente que nem todos serão salvos. Portanto, a menos que se seja um universalista e se possa refutar as evidências bíblicas apresentadas, é necessário adotar alguma forma de expiação limitada.

Como, então, a expiação é limitada?

A próxima questão importante é: se a expiação é limitada (e de fato é), como é essa limitação? A famosa declaração de Jesus em João 3:16 oferece a resposta: “Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o Seu Filho unigênito, para que todo aquele que n’Ele crê não pereça, mas tenha a vida eterna.” Neste trecho, a condição necessária que limita a expiação é encontrada em “todo aquele que crê” (literalmente, em grego: “todos os que creem”). Em outras palavras, a expiação é limitada aos que creem e somente aos que creem.

Quem limita a expiação?

Ambos os grupos teológicos concordam que a expiação de Cristo é limitada aos que creem. O desacordo se dá na questão seguinte: quem é que limita a expiação — Deus ou o homem? Os calvinistas e reformados afirmam que Deus limita a expiação ao escolher aqueles que serão salvos, e, assim, Deus apenas imputou a Cristo os pecados daqueles que Ele destinou à salvação. Já a posição arminiana/wesleyana sustenta que não é Deus quem limita a reparação de Cristo, mas sim a humanidade, pela livre escolha de aceitar ou rejeitar a oferta de salvação que Deus lhes apresenta.

Uma forma comum de os teólogos arminianos/wesleyanos expressarem sua posição é afirmar que a expiação é ilimitada em seu convite, mas limitada em sua aplicação. Deus oferece o convite para todos; no entanto, somente aqueles que respondem com fé à mensagem do evangelho têm a obra expiatória aplicada à sua condição espiritual.

Para sustentar a posição de que é a humanidade – e não Deus – que limita a expiação, os teólogos citam diversos versículos, entre eles:

  • “Ele é a expiação pelos nossos pecados, e não somente pelos nossos, mas também pelos pecados do mundo inteiro.”
  • “No dia seguinte, ao ver Jesus aproximando-se, ele exclamou: ‘Eis o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo!’
  • “Eu sou o pão vivo que desceu do céu; se alguém comer deste pão, viverá para sempre; e o pão que eu darei pela vida do mundo é a minha carne.”
  • “Se eu for levantado, atrairei todos para mim.”
  • “Pois há um só Deus e um só mediador entre Deus e os homens, Cristo Jesus, o qual se entregou a si mesmo em resgate por todos.”
  • “Vemos, porém, aquele que, por um pouco de tempo, foi feito inferior aos anjos, a saber, Jesus, por causa da experiência da morte, coroado de glória e de honra, para que, pela graça de Deus, Ele provasse a morte por todos.”
  • “Mas também surgiram entre o povo falsos profetas, assim como entre vocês haverá falsos mestres que introduzirão secretamente heresias destrutivas, negando até o Senhor que os resgatou, e assim verão uma destruição rápida.”

Além das referências bíblicas, os teólogos arminianos/wesleyanos apresentam argumentos lógicos para defenderem sua posição. O argumento mais comum é que, se Deus é todo-amoroso, como Cristo não teria morrido por todos? Deus não ama cada pessoa individualmente? Para eles, afirmar que a expiação é limitada por Deus seria negar a onipotência do amor divino.

Além disso, os arminianos/wesleyanos acreditam que uma expiação limitada por Deus compromete a mensagem do evangelho. Como pode um evangelista pregar “Cristo morreu por você” se, de fato, Cristo não morreu por todos? Segundo eles, essa limitação retira a segurança de afirmar a alguém que Cristo morreu por essa pessoa, já que, em uma expiação limitada por Deus, o evangelista não tem como ter plena certeza desta afirmação.

Expiação ilimitada — Conclusão

Salvo a posição universalista, que acredita que todos serão salvos, o cristão deve defender alguma forma de expiação limitada. A principal divergência reside em quem é o responsável por limitar essa expiação — Deus ou o homem? Aqueles que defendem uma expiação limitada por Deus precisam responder aos argumentos bíblicos apresentados por aqueles que defendem uma expiação limitada pelo homem e explicar como se pode descrever Deus nas Escrituras como sendo todo-amoroso, e, ainda assim, não ter o Seu Filho morrendo por todos.

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