A Bruxa de Endor realmente evocou Samuel dos mortos? (1 Samuel 28:7-20)
A narrativa da bruxa de Endor evocando Samuel dos mortos está registrada em 1 Samuel 28:7–20. Este é o único relato bíblico de uma sessão espírita. Existem divergências em relação à história: seria que Samuel apareceu de fato, que se tratou de uma ilusão perpetrada pela feiticeira ou que foi uma enganação demoníaca?
O encontro do rei Saul com a bruxa de Endor ocorreu no final de seu reinado. Os filisteus se organizaram para lutar contra Israel, e Saul “tinha medo; o terror enchia seu coração” (1 Samuel 28:5). Como Samuel já estava morto, Saul buscou orientação do Senhor por outros meios, mas “o Senhor não lhe respondeu por sonhos, Urim ou profetas”. O silêncio divino foi consequência da desobediência de Saul (versículo 6).
Sem qualquer palavra de Deus, Saul enviou seus servos para encontrar uma médium, e eles informaram sobre a existência de uma na cidade de Endor (1 Samuel 28:7). Apesar de Saul ter expulso todos os espiritistas e médiuns da terra (versículo 3), alguns ainda subsistiam. Por determinação divina, os médiuns e espirituosas eram proibidos em Israel (Deuteronômio 18:11). O fato de o rei, em desespero, buscar sabedoria em uma fonte oculta que ele próprio havia proibido revela sua hipocrisia e indica o quão longe havia se afastado da graça de Deus.
Saul jejuou durante o dia, disfarçou-se e visitou a feiticeira de Endor acompanhado de dois de seus servos. Ele lhe ordenou: “Consulte um espírito para mim… e traga à tona aquele que eu indicar” (1 Samuel 28:8). A mulher, receosa de uma armadilha, hesitou diante do pedido. Saul jurou que ela não seria punida (versículo 10) e deixou claro que desejava falar com Samuel. Durante a sessão, o profeta apareceu: “Quando a mulher viu Samuel, gritou com todas as forças e disse a Saul: ‘Por que me enganaste? Você é Saul!’” (versículo 12).
Saul, que não via o que a mulher observava, instruiu-a a não ter medo e a descrever o que via (1 Samuel 28:13). A feiticeira relatou: “Vejo uma figura fantasmagórica surgindo da terra”, descrevendo-a ainda como “um velho trajando um manto” (versículos 13–14). Foi então que Saul reconheceu que se tratava de Samuel; ele se curvou e prosternou com o rosto voltado para o chão (versículo 14).
Na conversa que se seguiu, Samuel questionou Saul: “Por que me perturbaste, ao me evocar?” (1 Samuel 28:15). O rei explicou sobre os filisteus e como Deus não lhe respondia (versículo 16). Então, Samuel transmitiu a mensagem fria e amarga:
“Por que você me consulta, agora que o Senhor se afastou de você e se tornou seu inimigo? O Senhor fez exatamente o que havia predito por meio de mim. Ele tirou do seu poder o reino e o entregou a um dos seus vizinhos – a Davi. Porque você não obedeceu ao Senhor nem cumpriu a sua fúria contra os amalequitas, o Senhor fez isso contigo neste dia. Amanhã tanto você quanto seus filhos estarão comigo. O Senhor também entregará o exército de Israel nas mãos dos filisteus.” (1 Samuel 28:16–19)
Ao ouvir seu destino, Saul ficou tomado de grande temor. A feiticeira preparou uma refeição para ele, que não havia comido o dia todo, e ela, juntamente com os dois servos, partilhou do que provavelmente seria sua última refeição (1 Samuel 28:20–25). No dia seguinte, em meio à batalha, Saul e seus filhos encontraram a morte (capítulo 31).
O relato não indica que a aparição vista pela bruxa de Endor fosse outra senão o próprio Samuel. Sabe-se que a médium não criou uma ilusão, pois ela gritou, surpresa, ao ver Samuel (1 Samuel 28:12). Ademais, o espírito que emergiu da terra foi identificado expressamente como “Samuel”. O texto não menciona que o espírito “parecia ser Samuel” ou que a médium “pensou que era Samuel”; o relato designa o espírito diretamente como “Samuel”. Além disso, a fala do espírito confirmava a verdade, e a mensagem dada a Saul era fidedigna.
A feiticeira de Endor provavelmente esperava contactar seu “espírito familiar” (um demônio) durante a sessão, o que explica sua reação de surpresa ao ver Samuel. Parece, pois, que Deus permitiu o retorno de Samuel para anunciar a derrota e a morte iminentes do rei Saul.
Essa história não sugere que sessões espíritas sejam eficazes para evocar os mortos nem que feiticeiras ou médiuns dialoguem com os espíritos de pessoas já falecidas. Quando alguém morre, sua alma é conduzida para o céu ou para o inferno. Não há perambulação pela terra, transmissão de mensagens aos vivos ou retornos pontuais (Lucas 16:19–31). Qualquer alegação de contato com entes queridos falecidos configura enganação demoníaca (2 Coríntios 11:14–15).
Deus condenou a necromancia, a mediunidade e as práticas dos espíritos, e aqueles que as praticavam em Israel antigo deveriam ser executados (Levítico 20:27; Deuteronômio 18:10–12). No caso de Saul, Deus permitiu que Samuel retornasse para proferir o juízo final sobre o rei desobediente. Saul, que se recusara a ouvir Samuel em vida, procurou, de forma pecaminosa, ouvir uma palavra do profeta já morto – e isso foi parte do motivo pelo qual foi julgado, como registrado em 1 Crônicas 10:13–14.






