A Revolução Americana foi uma violação de Romanos 13:1-7?
Questão
A Guerra Revolucionária Americana foi um evento marcante na história mundial, e a república constitucional que se seguiu gerou a sociedade mais livre e produtiva já conhecida. Ninguém nega que muitos dos Pais Fundadores eram homens religiosos e que a liberdade pela qual lutaram beneficiou milhões de pessoas, mas sua revolta contra a Inglaterra foi justificável biblicamente?
Resposta
Nos anos que antecederam a Guerra Revolucionária, a questão sobre o direito de se rebelar era amplamente debatida, com homens íntegros defendendo ambos os lados. Não é surpreendente que a maioria dos pregadores ingleses, como John Wesley, pregasse a moderação e o pacifismo, enquanto os pregadores coloniais, como John Witherspoon e Jonathan Mayhew, inflamassem os ânimos revolucionários.
Antes de analisarmos as ações dos colonos, é fundamental revisitar as Escrituras que eles interpretavam. Segue-se um resumo versículo por versículo de Romanos 13:1-7:
O trecho inicia com um comando claro para se submeter às “autoridades governamentais” (v1a). Em seguida, a razão apresentada é que tais autoridades foram ordenadas por Deus (v1b). Assim, resistir à autoridade terrena equivale a resistir a Deus (v2). Os governantes atuam como um impedimento contra o mal na sociedade (v3); de fato, o governante é “servo de Deus”, aplicando a retribuição ao transgressor (v4). Os cristãos devem se submeter à autoridade humana não apenas para evitar punições, mas também para manter uma consciência limpa diante de Deus (v5). Especificamente, é esperado que os cristãos paguem seus impostos (v6) e prestem o devido respeito e honra aos “servos de Deus” (v7).
Esses mandamentos são amplos, destinados a todos, sem exceção. Quando Paulo escreveu essas palavras, Nero já ocupava o trono. Se Romanos 13 se aplica ao tirânico Nero, ela se aplica a todos os reis. A igreja primitiva seguiu os princípios desse capítulo mesmo durante os reinados opressores de Cláudio, Calígula e Tácito. Não há qualificação ou “contorno” no texto — Paulo não diz “sujeitem-se ao rei, a menos que ele seja opressor” ou “obedeçam a todos os governantes, exceto os usurpadores”. O ensinamento é simples: todos os governos, independentemente do local, devem ser honrados e obedecidos, pois cada governante detém seu poder pela vontade soberana de Deus. Exemplos do Novo Testamento incluem passagens em Lucas e Atos, além de 1 Pedro.
Isso não significa que Deus aprove tudo o que os governos fazem ou que os reis estão sempre certos. A Escritura registra inúmeros exemplos de reis responsabilizados por Deus. Ademais, Romanos 13 não prescreve que os cristãos devam sempre obedecer às autoridades, independentemente das circunstâncias. A exceção ocorre quando as leis humanas entram em conflito direto com a lei revelada por Deus. Nesse sentido, exemplos de desobediência civil na Bíblia incluem Pedro e João ao desafiarem o Sinédrio, as parteiras hebraicas que se recusaram a cometer infanticídio, Daniel que ignorou a lei persa relativa à oração e os amigos de Daniel que se recusaram a adorar a imagem do rei.
Em resumo, a regra geral é obedecer ao governo; a única exceção é quando isso implica desobedecer diretamente à lei de Deus.
Romanos 13 e a Guerra Revolucionária Americana
Aplicando os princípios de Romanos 13 à Guerra Revolucionária Americana, surge a questão: o conflito foi justificável? Para muitos que apoiavam a revolução, a resposta era afirmativa, pois eram homens profundamente religiosos e convencidos de que estavam biblicamente autorizados a se rebelar contra a Inglaterra. Dentre os argumentos utilizados, destacam-se:
- Combate à tirania, não ao governo: Os colonos não se consideravam contra o governo em si, mas contra a tirania. Eles acreditavam que, embora Romanos 13 ensinasse a honra pela instituição do governo, isso não implicava adoração irrestrita dos indivíduos que o exercem. Por isso, combater um regime opressor específico não contrariava o princípio geral da Escritura.
- Violação das Escrituras pelo rei: Os colonos argumentavam que o próprio rei da Inglaterra estava violando as Escrituras. Nenhum monarca que agisse de maneira perversa poderia ser considerado “servo de Deus”. Assim, resistir a ele era, na visão deles, uma obrigação cristã. Na época, pregava-se que “rebelião a tiranos é obediência a Deus.”
- Guerra defensiva: Os colonos viam o conflito como uma ação de defesa, e não de agressão. Antes do início das hostilidades, os americanos haviam encaminhado apelos formais para a reconciliação, os quais foram respondidos com força militar e violações da Common Law britânica e dos preceitos da English Bill of Rights. Episódios como o Massacre de Boston e os eventos em Lexington reforçaram a visão de que os colonos estavam agindo em legítima defesa.
- Obediência condicionada: A interpretação de passagens como 1 Pedro 2:13 — que exorta à submissão às autoridades — era entendida com a ressalva “por causa do Senhor”. Se a autoridade era injusta e promulgava leis ímpias, obedecê-la não poderia ser considerado um ato de justiça. Em outras palavras, não se pode obedecer a uma lei má “por causa do Senhor.”
- Heróis da fé como exemplo: Passagens de Hebreus 11 eram utilizadas para justificar a resistência aos tiranos, citando figuras como Gideão, Baraque, Sansão e Jefté, que, na narrativa bíblica, estiveram envolvidas na derrubada de governos opressores.
Assim, os patriotas americanos que combateram a Inglaterra estavam plenamente convencidos de que possuíam precedente bíblico e justificativa das Escrituras para sua rebelião. Embora sua interpretação de Romanos 13 e 1 Pedro 2 não fosse a mais rigorosa — já que não há condicionantes claros sobre obediência nesses textos —, ela refletia a pregação predominante da época. Além disso, o argumento da autodefesa apresenta uma razão sólida e convincente para o conflito.
Mesmo que se possa argumentar que a Revolução Americana contrariou, em essência, os preceitos de Romanos 13, é inegável que os patriotas agiram de boa fé em defesa da liberdade cristã, e que, nos anos seguintes, a liberdade conquistada gerou inúmeros benefícios para a sociedade.






