O debate criação/evolução vem sendo acirrado por anos. Para muitos, parece que são dois oponentes gritando um com o outro, sem que ninguém realmente os escute. O tom agressivo chegou ao ponto em que cada lado, reflexivamente, descarta o outro – os evolucionistas ignoram os criacionistas por supostamente desconsiderarem a ciência, enquanto estes acusam os evolucionistas de se envolverem em conspirações maquiavélicas para silenciar sua posição. Isso não significa desmerecer os argumentos de nenhum dos lados como exagerados, mas apenas pontuar que há pouquíssimo diálogo honesto nessa guerra verbal.
Devido à dificuldade em discernir a verdade, muitos cristãos relegam o debate criação/evolução a uma questão secundária, que não diz respeito a como se torna justo diante de Deus por meio do evangelho de Jesus Cristo. Na maior parte dos casos, essa linha de raciocínio está correta. Podemos nos envolver tanto nesse debate que perdemos o foco principal: a disseminação do evangelho. Entretanto, como acontece com muitas outras questões “secundárias”, o que se acredita a respeito da criação influencia a visão teológica em geral e, em particular, a compreensão do evangelho. Em outras palavras, como se entende a criação tem um grande impacto nas demais convicções teológicas.
No que diz respeito à doutrina da criação, existem diversas visões dentro do cristianismo:
- Criação literal 24×6 – Deus criou tudo o que existe em seis dias de 24 horas.
- Visão do Dia-Idade – Os eventos da criação ocorreram conforme descrito no relato bíblico, mas, em vez de seis dias de 24 horas, os “dias” da criação representam períodos determinados e finitos de tempo.
- Visão Estrutural – Os “dias” do relato da criação constituem um arcabouço teológico usado para narrar a criação de todas as coisas.
Ao longo da maior parte da história da igreja, até os últimos 150 anos, a visão 24×6 foi a mais comumente defendida. Nem todos os cristãos aderiram a essa perspectiva, e nem todos os que a adotaram foram comprometidos com ela. No entanto, não há dúvida de que essa foi a interpretação dominante de Gênesis durante a maior parte da história cristã. Não queremos acreditar em algo apenas porque é tradicional e histórico, inclusive a visão 24×6; antes, buscamos acreditar em uma doutrina porque ela recebe suporte do texto das Escrituras.
Nesse caso específico, muitos teólogos conservadores defendem que a visão 24×6 possui o mais forte suporte exegético do texto. Em primeiro lugar, é a interpretação natural que se obtém ao simplesmente ler o relato. Além disso, há outros elementos, como o fato de que o padrão de sete dias, estabelecido na semana da criação, serve de modelo para nossa semana calendário.
Com o advento da ciência moderna, a visão 24×6 vem sendo cada vez mais abandonada por cristãos. A principal razão para essa rejeição é que a visão 24×6 implica uma idade “jovem” para a Terra (variando entre 6.000 e 30.000 anos), enquanto a visão científica predominante aponta que o universo possui bilhões de anos. A visão do Dia-Idade (por vezes chamada de criacionismo progressivo) é uma tentativa de conciliar o relato bíblico da criação com uma perspectiva de “Terra antiga”.
É importante notar que a visão do Dia-Idade ainda sustenta que Deus criou todas as coisas e rejeita a evolução natural (ateísta). Tampouco essa visão deve ser confundida com a “evolução teísta”, que defende que a macroevolução é verdadeira, mas que, em vez de ocorrer por mero acaso, foi conduzida pela mão de Deus. Os defensores do Dia-Idade se veem como conciliadores entre a narrativa bíblica e a ciência, enquanto seus opositores encaram essa perspectiva como uma ladeira escorregadia que pode culminar na rejeição da veracidade da Palavra de Deus.
Como muitos cristãos consideram o debate criação/evolução uma questão secundária, geralmente há pouca ou nenhuma preocupação com as implicações teológicas da interpretação da visão bíblica da criação. A verdade é que o que se acredita a respeito da criação é crucial, pois está diretamente ligado à inerrância, confiabilidade e autoridade das Escrituras. O mais importante é entender por que uma pessoa escolhe uma determinada perspectiva à luz da Palavra de Deus. Acreditar que a Bíblia é inspirada e inerrante, mesmo que não seja interpretada literalmente nos dois primeiros capítulos de Gênesis, é uma coisa. Acreditar que a Bíblia está simplesmente errada ou não pode ser confiável é outra totalmente distinta. Em suma, a questão chave em relação à visão sobre a criação é como essa visão se relaciona com a autoridade e a confiabilidade da Bíblia.
Se a Bíblia não é confiável nos dois primeiros capítulos, o que nos faria confiar nela no restante do livro? Normalmente, os críticos da Bíblia concentram seus ataques nos onze primeiros capítulos de Gênesis, em particular no relato da criação. A questão é: por que eles visam essa parte das Escrituras? Esses capítulos estabelecem as bases para o restante da narrativa bíblica – não se pode compreender o desenrolar da história das Escrituras sem o relato inicial de Gênesis, que contém material fundamental como a criação, a queda, o pecado, a certeza do juízo, a necessidade de um Salvador e a introdução do evangelho. Ignorar essas doutrinas fundamentais relegaria o restante da Bíblia a um estado de ininteligibilidade e irrelevância.
No entanto, os críticos da Bíblia preferem tratar esses capítulos iniciais de Gênesis como mero mito hebraico antigo, em vez de reconhecerem sua história primeva. A verdade é que, quando comparado aos mitos de criação de outras culturas, o relato de Gênesis – mesmo em sua interpretação mais literal – se assemelha mais a uma narrativa histórica do que a um mito. Na maioria das literaturas antigas, a criação é vista como uma luta entre deuses e os mitos de criação geralmente retratam determinada cultura como o centro do universo religioso. O relato de Gênesis, embora compartilhe semelhanças com outras narrativas, se distingue ao retratar Deus como o único Soberano sobre a criação (não um dentre vários deuses) e a humanidade como o ápice da criação, incumbida de administrar o restante do universo.
É certo que há questões não respondidas no relato de Gênesis, como a data exata da criação, bem como poucos detalhes sobre os meios ou métodos específicos que Deus poderia ter utilizado. Isso, naturalmente, gera debates em torno das diferentes interpretações compatíveis com a Bíblia. O propósito do relato de Gênesis não era oferecer um relato histórico completo que atendesse aos critérios dos historiadores modernos, mas sim servir como uma pré-história do povo judeu, que se preparava para entrar na Terra Prometida – eles precisavam entender quem eram e de onde vinham.
Outro ponto a se notar é que grande parte da teologia cristã se fundamenta na precisão histórica do relato de Gênesis. Por exemplo, o conceito de casamento emerge diretamente do relato da criação e é reiterado por Jesus nos evangelhos sinóticos. O próprio Senhor afirma que o homem foi criado homem e mulher “desde o princípio da criação”. Essas declarações, para serem compreendidas, dependem da veracidade histórica do relato de Gênesis. Mais importante ainda, a doutrina da salvação depende da existência de uma pessoa literal chamada Adão. Em passagens das epístolas paulinas, nota-se essa conexão entre a salvação em Cristo e nossa identificação com Adão – onde se ensina que, assim como em Adão todos morrem, em Cristo todos serão vivificados. Toda a humanidade se encontra em estado de queda por ter nascido “em Adão” de forma natural; de maneira similar, aqueles a quem Deus escolheu são salvos por terem nascido “em Cristo” de forma espiritual. A distinção entre “em Adão” e “em Cristo” é crucial para uma compreensão adequada da soteriologia cristã, e essa distinção perde o sentido na ausência de um Adão literal, de quem toda a humanidade teria descendido.
Paulo reforça essa ideia em suas cartas, destacando que, assim como o pecado entrou no mundo por meio de um homem e a morte, consequentemente, se espalhou a todos, essa passagem é fundamental no argumento da depravação total – um princípio central dentro da teologia calvinista – o qual, assim como o trecho de 1 Coríntios, depende da existência de um Adão literal para fazer sentido. Sem um Adão literal, não se pode falar em pecado literal nem haveria necessidade de um Salvador literal.
Independentemente da posição adotada em relação à doutrina da criação, há um ponto que é indiscutível dentro do cristianismo: Deus criou os céus e a terra. Embora se defenda que a visão 24×6 possui o argumento bíblico mais forte, outras perspectivas também oferecem interpretações válidas dentro do âmbito da ortodoxia cristã.
É fundamental ressaltar que a Bíblia não ensina (nem de forma explícita nem implícita) uma visão ateísta ou “darwiniana” sobre nossas origens. Assim, afirmar que o debate criação/evolução não é importante é, na verdade, demonstrar uma baixa consideração pelas Escrituras. Essa questão realmente importa, principalmente porque a forma como abordamos a Bíblia em relação às origens reflete a maneira como a encaramos em outros assuntos. Se não podemos confiar na Bíblia quando ela trata da criação, por que deveríamos confiar nela no que diz respeito à salvação? Logicamente, o que se acredita em relação à criação é fundamental para o restante da teologia.






