Existe uma segunda bênção após a salvação?

Pergunta

Existe uma segunda bênção após a salvação?

Resposta

A expressão segunda bênção é entendida de duas maneiras pelos cristãos — uma com referência ao batismo no Espírito Santo e outra em referência à perfeição sem pecado. Embora o conceito de segunda bênção seja ensinado em uma ampla variedade de igrejas, essa frase não aparece em nenhum lugar na Bíblia. As Escrituras falam frequentemente do batismo no Espírito, bem como da santificação dos crentes, mas não no contexto de uma segunda bênção ou de uma segunda etapa na vida de fé.

John Wesley, o fundador do movimento metodista, é geralmente creditado por ter originado o termo segunda bênção. Ele ensinava que essa bênção era um ato de Deus pelo qual o crente recebia libertação tanto do pecado interior quanto do pecado manifesto. Embora sua linguagem por vezes possa parecer confusa, fica claro que Wesley não defendia a ideia moderna de perfeição sem pecado, reconhecendo que os crentes deveriam crescer a ponto de se tornarem inteiramente devotados e obedientes a Cristo. Ele acreditava que essa “perfeição” podia ser alcançada tanto através de um crescimento gradual na graça quanto por meio de uma segunda obra instantânea de graça. Para Wesley, mesmo a bênção que ocorresse de forma instantânea acontecia num processo anterior e posterior de crescimento gradual na graça, enfatizando a necessidade de os indivíduos desejarem e buscarem a obra de Deus em seus corações, para que cada pensamento e ação se conformem à vontade d’Ele.

O ensino moderno da santificação como segunda bênção tem raízes nos escritos de Wesley, mas desvia da intenção dele e da intenção das Escrituras. Conforme Hebreus 10:10, “Pela vontade de Deus fomos santificados mediante a oferta do corpo de Jesus Cristo, feita uma vez por todas.” Esse é um ato concluído, realizado por nós na cruz. Quando Paulo escreveu à igreja em Corinto (1 Coríntios 1:2), ele os endereçou como “a igreja de Deus… os santificados em Cristo Jesus, chamados para serem santos.” Ser santificado significa ser separado, dedicado e consagrado a Deus – um evento único, parte integrante do pacote da salvação, que nos coloca diante de Deus na posição de santidade por meio do sacrifício único de Cristo.

Ao mesmo tempo, as Escrituras também falam de um processo contínuo de santificação nesta vida. Em Levítico 20:8, Deus ensina que a obediência aos Seus estatutos integra a prática da santificação; Jesus orou em João 17:17 para que fôssemos santificados por meio da Sua Palavra de verdade; e Paulo pediu em 1 Tessalonicenses 5:23 que os crentes fossem santificados completamente e mantidos irrepreensíveis até a vinda de Cristo. Esses trechos referem-se ao processo contínuo de nos tornarmos cada vez mais semelhantes a Cristo – às vezes chamado de santificação prática. Não se trata de uma segunda bênção, mas sim do cumprimento do que Deus iniciou quando recebemos Cristo.

O outro significado atribuído à “segunda bênção” tem sua origem na doutrina pentecostal do batismo no Espírito Santo. Essa experiência é descrita como a bênção crucial a ser buscada, a experiência suprema a ser almejada e a maior realização do cristão. Segundo os pentecostais, a evidência inicial do batismo no Espírito é o falar em outras línguas, à medida que o Espírito se manifesta verbalmente. Conforme ensinado por essa vertente, essa experiência é distinta e posterior à experiência do novo nascimento.

Há poucos trechos das Escrituras que se referem diretamente ao batismo no Espírito. João Batista anunciou que Jesus batizaria com o Espírito Santo e fogo (Mateus 3:11; Marcos 1:8; Lucas 3:16; João 1:33), e Jesus instruiu os discípulos a aguardarem em Jerusalém até que fossem batizados com o Espírito (Atos 1:5). No dia de Pentecostes, quando os discípulos estavam reunidos (Atos 2:1–4), o Espírito Santo os encheu e eles passaram a falar em outras línguas – línguas humanas que eram compreendidas pelo público presente (Atos 2:6–11). Não há dúvida de que os discípulos foram batizados com o Espírito naquele momento, assim como foram cheios do Espírito. Em Atos 1:8, Jesus prometeu que receberiam poder quando o Espírito Santo viesse sobre eles, para que pudessem ser testemunhas para o mundo.

A manifestação de ser cheio do Espírito aparece várias vezes nas Escrituras, sempre como uma capacitação para realizar uma tarefa específica. O Espírito veio sobre Sansão (Juízes 14:6, 14:19) para conceder-lhe poder contra os filisteus, e sobre Maria, para capacitá-la no nascimento do Messias (Lucas 1:35). Quando Pedro foi preso e levado a julgamento perante o conselho (Atos 4:8), ele estava “cheio do Espírito Santo” e proclamou com ousadia e clareza a verdade acerca de Jesus.

A confusão entre o batismo e o ser cheio do Espírito tem levado a dúvidas doutrinárias. O batismo no Espírito Santo (também conhecido como selo ou habitação) ocorre na salvação e é para todos os crentes (Romanos 8:9; Efésios 1:13). Nunca somos instruídos a buscá-lo ou a orar especificamente por ele. Já o ser cheio do Espírito pode acontecer na salvação e após ela, dependendo de como respondemos a Deus – nós somos ordenados a ser cheios do Espírito (Efésios 5:18). Isso nos remete à doutrina de santificação de Wesley, pois é vontade de Deus que sejamos santos, assim como Ele é (1 Pedro 1:15–16). O Espírito Santo foi concedido a todos os crentes para habitar em nós e ajudar-nos a cumprir a vontade do Pai. Podemos chamar isso de “segunda bênção”? Talvez, mas trata-se, na realidade, da continuidade da boa obra que Deus iniciou quando enviou Seu Filho como nosso Salvador.

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