Pergunta
Foi Martin Lutero antissemitico?
Resposta
Martin Lutero foi um monge alemão do século XVI e professor de teologia na Universidade de Wittenberg. Ele é creditado como o catalisador da Reforma Protestante, tendo compreendido e ensinado corretamente que a salvação não é conquistada por obras, mas recebida como um presente gratuito da graça de Deus através da fé em Jesus, o redentor que livra do pecado (ver Efésios 2:8-9). Seu desafio à autoridade do papa da Igreja Católica Romana e a divulgação de suas famosas “95 Teses” na porta da igreja de Wittenberg selaram seu destino. Em 1521, ele foi excomungado pelo papa e declarado fora da lei pelo imperador.
As numerosas contribuições escritas de Lutero para a fé cristã e sua defesa da autoridade bíblica possuem importância monumental. Ele traduziu a Bíblia do latim para o alemão, pois acreditava que o povo deveria ter acesso direto à Palavra de Deus, sem depender exclusivamente dos sacerdotes e papas para interpretá-la. Contudo, à medida que envelhecia, Lutero parece ter desenvolvido uma antipatia inexplicável em relação ao povo judeu.
Já em 1516, ele chegou a escrever de forma positiva sobre os judeus, afirmando: “… muitas pessoas se orgulham com uma estupidez notável quando chamam os judeus de cães, malfeitores, ou o que quer que prefiram, enquanto elas mesmas, de forma igualmente equivocada, não percebem quem ou o que são aos olhos de Deus.” Em 1523, em sua obra “That Jesus Christ was Born a Jew”, Lutero aconselhou a tratar os judeus com bondade, mas somente com o objetivo de convertê-los ao cristianismo. Quando seus esforços de conversão fracassaram, seu sentimento contra eles se tornou cada vez mais amargo. Em 1543, foi publicado seu livro mais notório e ofensivamente antissemita, “On the Jews and Their Lies”, no qual ele faz declarações absurdas, chamando-os de “um povo baixo e promíscuo, ou seja, nenhum povo de Deus, e afirmando que suas vanglórias de linhagem, circuncisão e observância da lei devem ser consideradas imundícies.”
É impossível saber o que se passava no coração de Lutero ao redigir tais palavras terríveis. Ele realmente nutria ódio pelos judeus ou sua paixão pela verdade das Escrituras e por Jesus Cristo – que foi rejeitado pelos judeus – o impelia a condenar os que rejeitavam o Cristo de maneira tão veemente, de forma semelhante ao profeta Oséias, que comparava os judeus infiéis a prostitutas e meretrizes? Seja qual for sua motivação, o fato é que os escritos de Lutero foram posteriormente usados como parte da propaganda nazista. Embora sua obra “On the Jews and Their Lies” tenha sido amplamente ignorada nos séculos XVIII e XIX, ela ressurgiu às vésperas da Segunda Guerra Mundial, sendo exibida em comícios nazistas em Nuremberg. Naturalmente, a longa e complexa história do ódio alemão contra os judeus teve um impacto muito mais significativo na ocorrência do Holocausto do que os escritos de Lutero.
Não há dúvida de que Martin Lutero desempenhou um papel importante na formação do protestantismo. Entretanto, suas grandes contribuições são ofuscadas por seu ódio infundado e não bíblico contra o povo judeu. É importante lembrar, ao analisarmos questões como o aparente antissemitismo de Lutero, que os crentes em Cristo continuam sendo naturalmente pecadores, mantendo essa natureza mesmo após o novo nascimento. O fato de Lutero ter se enganado em um assunto não nega que ele estivesse correto em outros, assim como o ensino da verdade absoluta de Deus não implica que tudo o que ele disse fosse infalível.
No ministério do apóstolo Paulo, encontramos um exemplo de como devemos abordar qualquer ensinamento. Durante sua segunda viagem missionária, Paulo estabeleceu uma igreja na cidade grega de Tessalônica. Embora alguns judeus tenham crido, muitos gentios também se converteram, mas Paulo acabou sendo expulso da cidade pelos judeus incrédulos, que se recusaram a ouvir sua mensagem. Em Lucas 11:11, os judeus da sinagoga de Bereia são descritos como “mais nobres do que aqueles de Tessalônica, pois receberam a palavra com total disposição e examinavam diariamente as Escrituras para ver se aquilo era realmente assim.” Para os bereanos, o mensageiro não era o foco; o que importava era descobrir se o conteúdo estava de acordo com a Palavra de Deus. Quando lemos os escritos de Martin Lutero ou cantamos seus hinos, devemos igualmente “examinar as Escrituras diariamente” para determinar se os ensinamentos são verdadeiros. Se estiverem alinhados com a Palavra, os aceitamos e nos alegramos; caso contrário, devemos deixá-los de lado e nos apegar à verdade.






