O que a Bíblia quer dizer com “vocês são deuses” / “vós sois deuses” em Salmo 82:6 e João 10:34?

O que a Bíblia quer dizer com “vocês são deuses” / “vós sois deuses” no Salmo 82:6 e João 10:34?

Salmo 82:6 diz: “Eu disse: ‘Vocês são deuses; todos vocês são filhos do Altíssimo.’ Contudo, vocês morrerão como simples homens; cairão como qualquer outro governante.”

Em João 10, Jesus cita o Salmo 82:6 e repete a afirmação de que “vocês são deuses”. O contexto é uma confrontação entre Jesus e os judeus durante o Festival da Dedicação, quando eles lhe pedem que deixe claro se Ele é o Messias (João 10:24). Jesus responde que suas ações provam que Ele é o Messias e, em seguida, afirma sua igualdade com Deus ao dizer: “Eu e o Pai somos um” (João 10:30). Diante disso, os judeus pegaram pedras para apedrejá-lo por blasfêmia (João 10:31–33), mas Jesus argumenta citando o Salmo 82:6: “Não está escrito na vossa Lei: ‘Eu disse: vocês são deuses’? Se àqueles a quem foi dada a palavra de Deus se referiu como ‘deuses’ — e a Escritura não pode ser desconsiderada —, o que dizer daquele a quem o Pai santificou e enviou ao mundo?”

Mas quem são os “deuses” mencionados no Salmo 82:6 e qual é exatamente o ponto de Jesus ao afirmar “vocês são deuses” em João 10:34 (ou “vós sois deuses” na versão King James)?

Comecemos com uma análise do Salmo 82, o salmo que Jesus cita em João 10:34. A palavra hebraica traduzida como “deuses” em Salmo 82:6 é elohim. Esse termo é geralmente usado para se referir ao único Deus verdadeiro, mas possui outros significados. Yahweh é chamado de Elohim acima de todos os elohim (Salmo 95:3). Outros usos do termo elohim incluem seres espirituais como anjos (Jó 2:1; 38:7); demônios, ídolos e deuses de nações estrangeiras (Gênesis 35:4; Deuteronômio 32:17; 1 Reis 11:33); e os mortos desencarnados (1 Samuel 28:13). A mesma palavra hebraica também é traduzida como “juízes” em Êxodo 21:6 e Êxodo 22:8, 9 e 28.

Então, a quem Deus chama de “deuses” em Salmo 82:6? Existem duas visões principais:

  1. Seres sobrenaturais: Nesta perspectiva, os “deuses” são seres sobrenaturais que governam sob a autoridade de Deus. O Salmo 82:1 declara: “Deus está no meio dos deuses; julga no meio dos deuses.” No hebraico, a expressão “no meio dos deuses” remete a uma congregação divina ou conselho divino. Alguns interpretam este trecho como um aviso de que aqueles membros do conselho divino que persistirem em tomar decisões injustas morrerão “como simples mortais” e “cairão como todos os outros governantes” (Salmo 82:2, 6–8). Deus criou o inferno para Satanás e seus anjos (Mateus 25:41), e sabemos que Ele os julgará no tempo certo. Eles cairão como homens comuns.
  2. Governantes humanos: Nesta visão, os “deuses” do Salmo 82 são magistrados, juízes e governantes humanos a quem foi concedida autoridade na terra. O ponto central do salmo é que os juízes terrenos devem agir com imparcialidade e justiça verdadeira, pois até mesmo eles terão que prestar contas diante do Juiz supremo. Salmo 82:6 e 7 alertam esses magistrados de que eles também serão julgados: “Eu disse: ‘Vocês são deuses; todos vocês são filhos do Altíssimo.’ Contudo, vocês morrerão como simples homens; cairão como qualquer outro governante.” Segundo essa perspectiva, Deus designou homens para posições de autoridade nas quais são considerados “deuses” entre o povo (ver Êxodo 7:1). Chamar um magistrado humano de “deus” indica três coisas: 1) ele possui autoridade sobre outros seres humanos, 2) o poder que exerce deve ser temido, e 3) ele deriva esse poder de Deus, que é retratado julgando toda a terra (Salmo 82:8). Os governantes humanos devem lembrar que, mesmo representando Deus neste mundo, são mortais e, um dia, prestarão contas a Ele pela forma como exerceram sua autoridade.

Agora, vejamos como Jesus utiliza essa passagem. Ao citar o Salmo 82, Ele afirma que a declaração “vocês são deuses” foi dirigida àqueles “a quem foi dada a palavra de Deus” (João 10:35). Ou seja, aqueles que receberam a mensagem divina foram chamados de “deuses”. Jesus havia acabado de afirmar ser o Filho de Deus (João 10:25–30), e os judeus descrentes o acusaram de blasfêmia por se autodenominar Deus (verso 33). Em seguida, Jesus cita o Salmo 82:6 e argumenta: “Se ele os chamou de ‘deuses’, aos quais foi dada a palavra de Deus — e a Escritura não pode ser desconsiderada —, quanto mais pode ser o caso daquele a quem o Pai santificou e enviou ao mundo?” O ponto de Jesus é o seguinte: vocês me acusam de blasfêmia com base no uso do título “Filho de Deus”; contudo, as próprias Escrituras aplicam o mesmo termo a outros que não são Deus. Se aqueles que ocupam um cargo designado divinamente ou que possuem uma posição espiritual podem ser considerados “deuses”, quanto mais pode ser o caso Daquele que Deus escolheu e enviou.

Alguns grupos, como o Mormonismo, utilizam esses textos como prova da eventual divindade do homem. Contudo, nenhuma dessas passagens comprova que o homem pode atingir a condição divina. Devemos ter cuidado com a mentira que a serpente usou para enganar Eva no jardim: “Seus olhos serão abertos, e vocês serão como Deus” (Gênesis 3:5). Essa foi uma meia-verdade. Embora seus olhos tenham sido abertos (verso 7), eles não se tornaram como Deus. Na verdade, perderam autoridade, ao invés de ganhá-la. Satanás enganou Eva ao sugerir que ela poderia se tornar como o único Deus verdadeiro, conduzindo-a, assim, a uma falsidade.

Jesus defendeu sua afirmação de ser o Filho de Deus com fundamentos bíblicos e semânticos — existe um sentido em que homens influentes e seres espirituais podem ser referidos como “deuses”; portanto, o Messias pode legitimamente aplicar esse termo a si mesmo. Os seres humanos não são “deuses” ou “pequenos deuses” e jamais se tornarão deuses. Deus é Deus, e nós que conhecemos Cristo somos Seus filhos.

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