O que é a Igreja Anglicana e o que os Anglicanos acreditam?
As raízes da Igreja Anglicana, ou Igreja Inglesa, remontam ao século II, mas sua estrutura e status atuais têm início no reinado do rei Henrique VIII (1509-1547). Um conjunto curioso de rivalidades eclesiásticas, políticas e pessoais culminou na formação da igreja estatal. Após ter seu pedido de anulação do casamento com Catarina de Aragão negado pelo Papa Clemente VII, Henrique viu na nomeação do protestante Thomas Cranmer como Arcebispo de Canterbury a oportunidade de contornar a autoridade papal. Em 1531, impôs ao clero inglês que o reconhecesse como chefe da igreja. No ano seguinte, obrigou uma assembleia nacional a aprovar, por meio do documento “The Submission of the Clergy”, que nenhuma bula papal seria promulgada na Inglaterra sem o consentimento real. Em 1534, com o apoio do Parlamento, Henrique promulgou leis que retiravam da Igreja Católica Romana qualquer autoridade no país, estabelecendo, através do Ato de Supremacia, o rei como “chefe supremo da igreja na Inglaterra”.
A completa independência de Roma só foi afirmada durante o reinado de Henrique VIII, embora ele próprio tenha promovido poucas reformas profundas na igreja. A verdadeira Reforma Inglesa teve início no curto reinado de seu filho, Eduardo VI, sob a liderança de Cranmer. Porém, traços de independência eclesiástica já permeavam a história inglesa. A igreja saxônica, fundada por Santo Agostinho em 597, atuava sob direção papal, mas enfrentava resistências locais. As diversas tribos inglesas nunca se submeteram totalmente à ocupação romana e, após a retirada da Legião Romana, a igreja saxônica seguiu de forma independente. Em 664, o rei Oswey da Nortúmbria convocou o Sínodo de Whitby para, nominalmente, unir as igrejas saxônica e celta sob a égide da Igreja Católica Romana. Essa longa tradição de resistência pavimentou o caminho para as ações de Henrique no século XVI.
A doutrina da Igreja Anglicana é uma mistura interessante de elementos do Catolicismo e da teologia da Reforma Protestante. Profissões de fé como o Credo dos Apóstolos e o Credo Niceno são declarações autoritárias de crença e geralmente são recitadas nos cultos. Curiosamente, a igreja não exige que seus membros aceitem todas as declarações desses credos, mas os incentiva a embarcar em um processo contínuo de descoberta da fé. Os 39 Artigos, elaborados durante o reinado de Elizabeth I, definiram a doutrina e as práticas protestantes anglicanas, sendo intencionalmente redigidos de forma vaga para permitir interpretações diversas tanto por protestantes quanto por católicos.
A celebração da Eucaristia ocupa o centro do culto, assim como ocorre na Igreja Católica, acompanhada da oração comunitária e do louvor através da liturgia. Entretanto, em todas as igrejas litúrgicas, existe o risco de que o formalismo da cerimônia acabe substituindo a aplicação pessoal da fé, ponto que foi alvo de intensos debates entre puritanos e outros que posteriormente se separaram da Igreja Anglicana. Thomas Shepherd, expulso da igreja em 1630 por não se conformar, foi uma figura importante ao enfatizar a necessidade de distinguir entre a genuína obra da graça e a mera formalidade religiosa.
Atualmente, a Comunhão Anglicana conta com 80 milhões de membros distribuídos em 38 organizações eclesiásticas, entre as quais se destaca a Igreja Episcopal. Embora o Arcebispo de Canterbury seja reconhecido como líder espiritual, cada organização é autônoma e governada pelo seu próprio arcebispo. Além disso, a Comunhão Anglicana Contínua, estabelecida em 1977, reúne igrejas que compartilham a fé histórica anglicana, mas que rejeitam as alterações no Livro de Oração Comum, bem como a ordenação de mulheres e de pessoas LGBTQ+ ao clero. De forma similar, a Igreja Anglicana na América do Norte, criada em 2009, rompeu seus laços com a Comunhão Anglicana devido a divergências sobre questões relacionadas à homossexualidade e não reconhece a autoridade do Arcebispo de Canterbury.






