O que é a reconciliação final?

O que é reconciliação final?

O conceito de reconciliação final — a ideia de que Deus reconciliaria todas as almas em algum momento, fazendo com que elas desejem passar a eternidade com Ele — causou nova polêmica no meio teológico com o lançamento, em março de 2010, do livro Love Wins, do líder da Igreja Emergente Rob Bell. Criticando a posição teológica tradicional de um inferno eterno e literal, Bell afirma: “Um número surpreendente de pessoas foi ensinado que apenas alguns cristãos passarão para sempre em um lugar pacífico e cheio de alegria, enquanto o restante da humanidade sofrerá eternamente em tormento e punição, sem chance de algo melhor. Foi comunicado a muitos que essa crença representa uma verdade central da fé cristã, e rejeitá-la é, essencialmente, rejeitar Jesus. Isso é equivocado, tóxico e acaba minando a propagação contagiante da mensagem de amor, paz, perdão e alegria que o nosso mundo tanto necessita.”

Que suporte bíblico Bell utiliza para a reconciliação final? Ele cita a declaração de Mateus sobre o retorno de Elias, que “restaurará todas as coisas”, o sermão em Atos que afirma que haverá um “período de restauração de todas as coisas” e a afirmação de Paulo de que o Pai usa Cristo para “reconciliar todas as coisas consigo mesmo”. Além disso, Bell argumenta que, sendo Deus onipotente, Ele deve poder realizar o que quer, lembrando que a Bíblia diz que Deus “deseja que todos os homens sejam salvos e cheguem ao conhecimento da verdade”. Assim, Bell sugere que Deus não seria verdadeiramente amoroso e grandioso se não pudesse ou não quisesse salvar a todos: “Quão grande é Deus? Grande o suficiente para realizar o que se propõe, ou algo como grande na maioria das vezes, mas no que diz respeito ao destino de bilhões de pessoas, não totalmente grande. Meio grande. Um pouco grande.”

Será que, de fato, Deus salvará todos como Bell afirma? A Bíblia ensina que haverá a reconciliação de todas as criaturas com o Criador? Essas questões podem ser respondidas ao se examinar o debate sob uma perspectiva histórica, entender os conceitos de misericórdia e justiça de Deus e percorrer as Escrituras para ver o que elas ensinam sobre o assunto.

Reconciliação Final – Um Olhar para o Passado

Embora a doutrina da reconciliação final tenha sido defendida por diversas pessoas ao longo da história, duas figuras se destacam. A primeira é Orígenes de Alexandria (185–254 d.C.). Esse teólogo, que utilizava uma abordagem alegórica das Escrituras e foi fortemente influenciado pela filosofia grega, não acreditava no sofrimento eterno dos pecadores no inferno. Para Orígenes, todos os seres criados, inclusive demônios e o diabo, alcançariam a salvação eventualmente, não importando se isso ocorreria nesta vida ou na próxima. Ele defendia que o amor de Deus é tão poderoso que, por fim, amoleceria até o coração mais endurecido. Esse pensamento é reiterado por Bell, que afirma: “Ninguém pode resistir à busca de Deus para sempre, pois o amor divino acabará por derreter até os corações mais duros.”

Orígenes via a igreja como uma grande “escola das almas”, onde os alunos errantes eram instruídos e disciplinados; contudo, aqueles que não escolhessem a Deus nesta vida continuariam seu processo de aprendizado na próxima por meio de um fogo purificador, de caráter expiatório e santificador. Para ele, o inferno não poderia ser o destino permanente de nenhuma alma, pois Deus jamais abandonaria qualquer criatura. Embora o processo para conquistar os seres criados pudesse levar muito tempo, o amor de Deus triunfaria, ou, como colocam as palavras de Bell, o amor vence.

A restauração de todos os seres, de acordo com Orígenes, é conhecida como apocatástase — termo grego para “restauração” — cuja origem remonta ao filósofo Heráclito, que dizia que “o começo e o fim são um só”. A visão de Orígenes sobre a reconciliação final foi, posteriormente, refutada por Agostinho e condenada em um concílio realizado em Constantinopla, no ano 543.

A segunda figura histórica de destaque nesse ensino foi o teólogo italiano Laelius Socino e seu sobrinho Fausto, que viveram no século XVI. Juntos, eles reviveram a heresia do arianismo do século IV — oficialmente condenada no Concílio de Niceia, em 325 d.C. — e ensinaram que a Trindade era uma doutrina falsa e que Cristo não era Deus, posicionando-se, assim, de forma unitarista.

Socino, entretanto, foi além ao afirmar que alguns atributos de Deus (como Sua onisciência e imutabilidade) eram opcionais, não necessariamente manifestos se não quisesse. Segundo ele, a justiça de Deus seria opcional, enquanto a misericórdia seria mandatória. Em outras palavras, Deus sempre deveria ser misericordioso, mas nem sempre estivera obrigado a aplicar a justiça em relação às ofensas cometidas contra Ele. Se a justiça divina é opcional e Sua misericórdia obrigatória, e se Deus ama o mundo inteiro e Cristo morreu por todos os que existirão, então todas as pessoas seriam salvas. Nesse contexto, Socino e seu sobrinho podem ser considerados universalistas.

Embora os ensinamentos de Orígenes e Socino tenham surgido séculos antes de Rob Bell, o conteúdo de Love Wins ecoa perfeitamente suas conclusões. Surge, então, a questão: como isso seria possível na prática? Como todas as almas poderiam ser reconciliadas com Deus? É justamente nesse ponto que Bell e seus predecessores erram em sua teologia, ao interpretar de forma equivocada os ensinamentos bíblicos sobre a misericórdia e a justiça de Deus.

Reconciliação Final – Compreendendo a Misericórdia e a Justiça de Deus

É fundamental compreender que os conceitos de misericórdia e justiça são entendidos de modo único no cristianismo. Em praticamente todas as outras religiões que acreditam em uma divindade suprema, a misericórdia dessa divindade costuma ser exercida à custa da justiça. Por exemplo, no Islã, Alá pode estender sua misericórdia a um indivíduo, mas isso ocorre sempre em detrimento de uma justiça que exigiria que a punição devida fosse aplicada. Em outras palavras, o agente que comete uma iniquidade tem sua punição deixada de lado para que a misericórdia possa ser concedida. Esse recurso de abrir mão dos requisitos da lei moral para ser misericordioso seria, para a maioria, inaceitável se aplicado por um juiz humano.

No cristianismo, contudo, Deus exerce Sua misericórdia por meio de Sua justiça. A doutrina da substituição penal ensina que o pecado e a injustiça foram punidos na cruz de Cristo e, somente por essa razão, Deus estende Sua misericórdia aos pecadores que não a merecem.

Embora Cristo tenha, de fato, morrido pelos pecadores, Sua morte também serviu para demonstrar a justiça de Deus. Como ensina o apóstolo Paulo, a justificativa do homem ocorre “como um dom, pela graça, mediante a redenção que há em Cristo Jesus; a quem Deus manifestou como propiciação, por meio de Sua morte, para que, na Sua tolerância, demonstrasse a justiça, a fim de ser justo e justificador daquele que tem fé em Jesus.” Ou seja, mesmo que Deus não tenha punido imediatamente os pecados daqueles que viveram antes de Cristo, nem tenha esquecido a justa aplicação da lei, a morte de Cristo demonstrou Sua justiça. Dessa forma, a misericórdia de Deus é exercida em conjunto com Sua justiça.

Embora esse ensinamento seja belo e glorifique a Deus, ele pode ser mal interpretado por alguns, levando à conclusão de que todos serão salvos através da morte de Cristo na cruz. Além dos trechos citados por Bell, alguns universalistas apontam versículos que afirmam: “Ele é a propiciação pelos nossos pecados, e não somente pelos nossos, mas também pelos de todo o mundo” e “Porque há um só Deus e um só mediador entre Deus e os homens, Cristo Jesus, que se entregou a seu próprio favor como resgate para todos, como testemunho em tempo oportuno.”

O problema em pensar que todos serão salvos é que há inúmeras evidências bíblicas que apontam para o contrário. Ao invés de seguir a conclusão de que todos, eventualmente, se voltarão para Deus e serão reconciliados com Ele, as Escrituras deixam claro que a maioria experimentará a separação eterna de Deus, e que apenas poucos serão salvos, pois nem todos crerão e abraçarão Cristo como seu Salvador.

Reconciliação Final – O Caso Bíblico a Favor do Inferno

Embora alguns teólogos tenham dificuldade em determinar se Jesus acreditava em um inferno literal, para muitos ateus essa questão não oferece resistência. O cético Bertrand Russell chegou a afirmar que “há uma falha muito séria, a meu ver, no caráter moral de Cristo, e é que Ele acreditava no inferno. Não sinto que uma pessoa verdadeiramente humana possa acreditar num castigo eterno. . . . Encontra-se repetidamente uma fúria vingativa dirigida àqueles que não ouvem o Seu pregado. . . . Devo dizer que considero toda essa doutrina — de que o fogo do inferno é uma punição pelo pecado — como uma doutrina de crueldade.”

Uma leitura direta do texto revela que Russell estava correto ao concluir que Cristo acreditava no inferno. Em um dos discursos de Jesus, Ele conta a história de um homem rico que vivia em esplendor, vestido com púrpura e linho fino, e de um mendigo chamado Lázaro, coberto de feridas e que ansiava pelas migalhas que caíam da mesa do rico. O mendigo acabou morrendo e foi levado pelos anjos para o seio de Abraão, enquanto o rico morreu e foi sepultado. No Hades, em meio ao tormento, o rico, elevando seus olhos, avistou Abraão à distância e Lázaro em Seu seio, clamando: “Pai Abraão, tem misericórdia de mim e manda que Lázaro molhe a ponta do seu dedo em água para refrescar a minha língua, pois estou atormentado nesta chama.” Contudo, Abraão respondeu que, durante a vida, o rico recebeu coisas boas, enquanto Lázaro sofreu com coisas ruins; agora, Lázaro estava sendo consolado e o rico, atormentado. Além disso, havia um grande abismo entre eles, de modo que ninguém poderia atravessá-lo de um lado para o outro.

Bell defende a ideia de que o inferno seria um “período de poda” ou “uma intensa experiência de correção”. No entanto, o relato acima menciona um abismo tão grande que impede qualquer travessia, indicando que o inferno é, de fato, permanente. Talvez seja por esse motivo que Jesus falou mais sobre o inferno nos Evangelhos do que sobre o céu.

Podemos ainda considerar as declarações de Jesus acerca do castigo eterno e da forma como os descrentes experimentarão a ira de Deus:

  • “Entrem pela porta estreita; pois a porta é larga e o caminho é amplo que conduz à destruição, e muitos entram por ele. Mas a porta é estreita e o caminho é apertado que conduz à vida, e poucos o encontram.”
  • “Muitos me dirão naquele dia: ‘Senhor, Senhor, não profetizamos em teu nome, nem expulsamos demônios, nem operamos muitos milagres em teu nome?’ Então lhes direi: ‘Nunca vos conheci; afasta-vos de mim, vós, que praticais a iniquidade.’”
  • “Ó Capernaum, não te elevarás aos céus? Descerás ao Hades; pois, se os milagres que ocorreram em Sodoma tivessem acontecido em ti, ela permaneceria até hoje.”
  • “Assim como se ajunta o joio e se queima com fogo, assim será no fim da era. O Filho do Homem enviará Seus anjos, que recolherão de Seu reino todos os escândalos e os que praticam iniquidade.”
  • “No fim da era, os anjos sairão e separarão os ímpios dos justos, lançando-os na fornalha de fogo, onde haverá choro e ranger de dentes.”
  • “Então o rei dirá aos servos: ‘Amarre-o de mãos e pés, e lance-o para fora; ali haverá choro e ranger de dentes.’”
  • “Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas, que percorreis a terra e o mar para converter um só prosélito, e quando ele se converteis, fazeis dele o dobro de filho do inferno!”
  • “Serpentes, geração de víboras, como escapareis da condenação do inferno?”
  • “Então dirá aos que estiverem à Sua esquerda: ‘Apartai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno preparado para o diabo e seus anjos.’”
  • “Estes irão para o castigo eterno, mas os justos para a vida eterna.”
  • “Se a tua mão te faz tropeçar, corta-a; é melhor entrares na vida defeituoso do que, tendo duas mãos, ires para o inferno, para o fogo inextinguível.”
  • “Mas eu vos advertirei de quem deveis temer: Aquele que, depois de matar, tem poder para lançar no inferno; sim, eu vos digo, temei-o!”
  • “Quem crer no Filho terá vida eterna; quem, porém, não obedecer ao Filho não verá a vida, mas a ira de Deus permanecerá sobre ele.”
  • “Não vos surpreende isso, pois chegará a hora em que todos que estiverem nos sepulcros ouvirão Sua voz e sairão; os que praticaram o bem, para uma ressurreição de vida, e os que praticaram o mal, para uma ressurreição de condenação.”
  • “Aquele que tem ouvidos, ouça o que o Espírito diz às igrejas. O que vencer, de modo algum, sofrerá a segunda morte.”

Observa-se, ainda, a menção de uma “segunda morte”, termo que aparece em outras passagens para descrever o destino dos descrentes:

  • “Bem-aventurado e santo é aquele que tem parte na primeira ressurreição; sobre estes a segunda morte não tem poder, e serão sacerdotes de Deus e de Cristo, e reinarão com Ele por mil anos.”
  • “Então a morte e o Hades foram lançados no lago de fogo. Esta é a segunda morte.”
  • “Mas para os covardes, os descrentes, os abomináveis, os homicidas, os imorais, os feiticeiros, os idólatras e todos os mentirosos, a sua parte será no lago de fogo que arde com enxofre, que é a segunda morte.”

Nas Escrituras, a morte simboliza a separação — seja a passagem da vida no corpo ou a divisão da vida espiritual da alma. Nesses textos, evidencia-se que os descrentes morrem duas vezes: primeiro perdem sua vida física, e depois perdem a esperança de uma vida eterna com Deus.

Não há uma segunda chance, por mais que Orígenes ou Rob Bell desejem o contrário. Como afirma o escritor de Hebreus: “Está determinado que os homens morram uma só vez, e depois disso vem o juízo.”

Conciliando a Misericórdia de Deus com o Caso Bíblico a Favor do Inferno

Ao defender a reconciliação final, Rob Bell argumenta que Deus deixaria de ser grande, amoroso e misericordioso caso designasse pessoas para o inferno. No entanto, a justiça de Deus nunca figura no raciocínio de Bell. Embora a justiça divina permeie todo o Antigo e o Novo Testamento, falta à sua proposta a ideia de uma campanha evangelística pós-morte que, eventualmente, reconcilie à Deus aqueles que morreram sem conhecer Cristo. Essa inversão do que as Escrituras ensinam revela a principal fraqueza teológica presente em seu argumento.

Aqueles que defendem a reconciliação final encontram dificuldade em conciliar a imensa misericórdia de Deus com a realidade do inferno, demonstrando não compreender plenamente os desígnios antecedentes e consequentes do Criador. Deus, em Sua vontade anterior, deseja que todos sejam salvos, mas, em Sua vontade subsequente, ordena que o pecador experimente a punição que a justiça exige. Como expressou Tomás de Aquino: “Pode-se dizer de um juiz justo que, antecedentemente, ele deseja que todos vivam, mas, consequentemente, deseja que o assassino seja enforcado. Assim, Deus deseja, antecipadamente, que todos sejam salvos, mas, posteriormente, determina que alguns sejam condenados, conforme Sua justiça.”

Redefinir o inferno como um mero lugar de correção temporária — antes da entrada na vida eterna com Deus —, como defendem Orígenes e Bell, configura uma injustiça imensurável para aqueles que ouvem e aceitam tal ensino, tornando tais posições irrelevantes como bases teológicas e ensinamentos. Em um navio de tropas, soldados se aglomeraram ao redor do capelão e questionaram: “Você acredita no inferno?” Ao que ele respondeu: “Eu não acredito.” Imediatamente, foi sugerido que ele renunciasse, pois, se não existe o inferno, sua presença seria desnecessária, e se o inferno é real, não se pode conduzir o povo ao erro.

Reconciliação Final – Conclusão

É impressionante recordar que o primeiro ensinamento negado nas Escrituras diz respeito ao juízo. A Bíblia relata que Satanás assegurou a Eva: “Certamente você não morrerá!” Muitos universalistas compartilham essa mesma visão, negando que a separação eterna de Deus seja uma realidade para aqueles que rejeitam Cristo como Salvador. Simplesmente, aqueles que rejeitarem Jesus nesta vida terão seu destino consumado também na próxima.

A doutrina da reconciliação final, ou universalismo, pode até parecer atraente aos sentimentos humanos, mas é equivocada e contrária ao ensino bíblico. As Escrituras deixam claro: além desta vida, não há segundas chances. Ao invés disso, elas proclamam: “Hoje é o dia da salvação.” O amor de Deus efetivamente prevalece para aqueles que, pela fé, aceitam Cristo como Salvador nesta vida. Já aqueles que rejeitam esse conceito e negam a realidade do inferno descobrirão que a eternidade é um tempo terrivelmente longo para se estar errado. Como bem colocou o escritor Os Guinness: “Para alguns, o inferno é simplesmente uma verdade percebida tarde demais.”

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