O que é a teoria do dossel?

A teoria do dossel procura explicar a referência em Gênesis 1:6 a “as águas acima do firmamento”, assumindo que o “firmamento” – ou “expansão”, como a palavra hebraica pode ser traduzida – se refira à nossa atmosfera. De acordo com essa teoria, existia um dossel de água acima da atmosfera até o cataclismo dos dias de Noé, momento em que ele desapareceu, seja por ter desabado sobre a terra ou por ter se dissipado no espaço. Presume-se que esse dossel fosse composto por vapor de água, pois um dossel de gelo não suportaria o constante bombardeio de objetos celestiais, como os meteoritos que atingem continuamente a atmosfera terrestre.

Embora Gênesis 1:20 mencione que os pássaros voam no firmamento – sugerindo a atmosfera – o mesmo texto indica que o sol, a lua e as estrelas residem ali (Gênesis 1:14-17), apontando para o céu em sua totalidade, desde a superfície da terra até onde os objetos celestes se encontram. A palavra hebraica traduzida alternativamente como “firmamento” em algumas versões e “expansão” em outras é raqiya. Ela aparece nove vezes no primeiro capítulo de Gênesis (nos versículos 6‑8, 14‑18 e 20) e em mais oito ocasiões em outras partes do Antigo Testamento (em Salmos, Ezequiel e Daniel).

Segundo o relato de Gênesis, antes de haver ar, terra ou qualquer forma de vida, a terra era uma massa informe de água primordial. No segundo dia da criação, Deus criou o raqiya, posicionando-o no meio das águas e separando-as em duas partes: “as águas acima do firmamento” e as águas abaixo dele. Às águas inferiores, Ele concedeu o nome de “mar” (yam, em hebraico), enquanto o próprio raqiya recebeu os nomes de “céu”, “ar” ou “firmamento”, conforme a tradução da palavra hebraica shamayim. Contudo, Gênesis não designa um nome para as águas que se encontravam acima do raqiya, nem há, na atualidade, água acima da nossa atmosfera – partindo do pressuposto de que raqiya signifique “atmosfera”.

Defensores da teoria do dossel já especulavam que o colapso de um dossel de vapor poderia ter fornecido a água para as chuvas intensas que inundaram a terra durante o dilúvio de Noé. Contudo, um problema importante para essa hipótese é o calor latente da água e a enorme quantidade envolvida. Se um dossel composto por vapor de água colapsasse em forma de chuva, a energia liberada (o chamado calor latente) aqueceria o planeta de forma intensa – um processo exotérmico. Por outro lado, a conversão de água do estado sólido (gelo) para líquido ou de líquido para vapor consome energia, causando um resfriamento (processo endotérmico).

O relato bíblico indica a ocorrência de cinco semanas e meia de chuva contínua. Caso um dossel com quantidade suficiente de vapor de água para proporcionar essa chuva tivesse colapsado, o resultado seria um aquecimento extremo a ponto de “cozinhar” o planeta. Essa situação não implica que um dossel de vapor jamais tenha existido ou que não tenha colapsado; mas, se de fato tivesse acontecido, certamente não teria fornecido a quantidade de chuva mencionada, já que menos água resultaria em menos calor.

É ainda interessante notar que, se um dossel congelado conseguisse existir na atmosfera apesar do bombardeio cósmico, o seu colapso em chuva líquida teria um efeito resfriador extremo, possivelmente explicando o início de uma Era do Gelo. Embora saibamos que uma era glacial ocorreu, os fatores complexos envolvidos em seu desencadeamento ainda desafiam a ciência moderna. Defensores da teoria do dossel também sugerem que sua existência poderia explicar diversas anomalias pré-diluvianas, como a longevidade humana e a aparente ausência de chuva ou de arco-íris, postulado de que o dossel filtraria grande parte da radiação cósmica prejudicial aos seres humanos. Entretanto, os críticos questionam a capacidade de um dossel produzir tais efeitos.

Na defesa da ideia de que raqiya significa “atmosfera”, a referência de que o sol, a lua e as estrelas residem nela – conforme descrito em Gênesis 1:14‑17 – pode ter sido meramente uma declaração fenomenológica, semelhante aos termos modernos “nascer do sol” e “pôr do sol”, que descrevem fenômenos visuais. Ou seja, embora usemos esses termos para indicar movimentos aparentes, sabemos que o sol é estacionário e não “nasce” nem “se põe” de fato, sendo essa uma questão de perspectiva terrestre.

Independentemente das interpretações, atualmente não existe nenhum dossel no céu, e qualquer sugestão de que ele tenha existido no passado permanece especulativa – baseada apenas na enigmática referência “às águas acima do firmamento” em Gênesis 1:6 – já que não há provas suficientes para afirmar uma ou outra perspectiva com certeza.

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