O que é a unção? O que significa ser ungido?
Pergunta
Resposta
Na Bíblia, a unção com óleo é realizada em cerimônias religiosas e utilizada para cuidados pessoais, refrescamento, tratamentos medicinais e tradições de sepultamento.

A unção cerimonial no Antigo Testamento era um ato físico envolvendo a aplicação, a massagem ou o derramamento de óleo sagrado sobre a cabeça de uma pessoa (ou sobre um objeto), simbolizando externamente que Deus havia escolhido e separado aquele ser (ou objeto) para um propósito sagrado específico.
O termo hebraico mashach significava “ungir ou untar com óleo”. O óleo utilizado para a unção religiosa era cuidadosamente misturado com especiarias finas, conforme uma fórmula específica prescrita pelo Senhor. Utilizar esse óleo para qualquer outro fim era considerado uma ofensa grave, sujeita à penalidade de ser “banido” da comunidade.
Reis, sacerdotes e profetas eram ungidos externamente com óleo para simbolizar uma realidade espiritual mais profunda – a presença de Deus estava com eles e Seu favor recaía sobre suas vidas. Enquanto Davi ainda era um jovem pastor, Deus instruiu Samuel a ungí-lo como rei sobre Israel. Desde então, o Espírito do Senhor repousou poderosamente sobre a vida de Davi.
Séculos antes dos dias de Davi, o Senhor havia ordenado a Moisés que consagrasse Arão e seus filhos para servir como sacerdotes. Deus autenticou o ministério sacerdotal deles com a glória ardente de Sua presença, que consumia as ofertas apresentadas. Itens sagrados, inclusive o próprio tabernáculo, também foram separados ou consagrados por meio da unção, para serem utilizados em cerimônias de adoração e sacrifício.
A Bíblia apresenta uma referência literal à unção de um profeta quando o Senhor ordenou a Elias que ungisse Eliseu, designando-o como o profeta que deveria sucedê-lo. Além disso, há referências metafóricas à unção para indicar que os profetas eram capacitados e protegidos pelo Espírito do Senhor no desempenho de sua missão.
Ungir a cabeça com óleo também era uma antiga demonstração de hospitalidade destinada a convidados ilustres. No Salmo 23:5, o rei Davi se imagina como um convidado honrado à mesa do Senhor. Essa prática de ungir um convidado para o jantar reaparece nos Evangelhos.
No Novo Testamento, Jesus Cristo se revela como nosso Rei, Sacerdote e Profeta ungido. Ele é o Filho Santo e escolhido de Deus, o Messias – termo que, literalmente, significa “ungido” e deriva da palavra hebraica para “ungido”. O título de Cristo (do grego Christos) também significa “o ungido”.
Ao iniciar Seu ministério, Jesus declarou: “O Espírito do Senhor está sobre mim, porque me ungiu para pregar boas novas aos pobres… para proclamar liberdade aos prisioneiros e restauração da vista aos cegos, para libertar os oprimidos.” Com isso, Jesus cumpriu a profecia do Antigo Testamento, demonstrando que Ele era o Ungido, o Messias escolhido, comprovando Sua unção por meio dos milagres realizados e da vida sacrificada como Salvador do mundo.
Há também um sentido em que os cristãos, atualmente, são ungidos. Por meio de Jesus Cristo, os crentes recebem “uma unção do Santo”. Essa unção não se manifesta por meio de uma cerimônia externa, mas através da participação no dom do Espírito Santo. No momento da salvação, os crentes passam a ser habitados pelo Espírito Santo e se unem a Cristo, o Ungido, partilhando assim da Sua unção. Segundo um estudioso, essa unção “expressa as influências santificadoras do Espírito Santo sobre os cristãos, que são sacerdotes e reis para Deus”.
O Novo Testamento também associa o óleo de unção à cura e à oração. Quando Jesus enviou os discípulos para proclamar o evangelho, “eles expulsaram muitos demônios e curaram numerosas pessoas, ungindo-as com óleo de oliva”. Em outra passagem, Tiago instrui os crentes a “chamar os anciãos da igreja para orar sobre os doentes e ungir com óleo em nome do Senhor, para que sejam curados”.
Em círculos carismáticos, fala-se da “unção” como algo que os cristãos podem e devem buscar. É comum ouvirem referências a pregadores, sermões, ministérios, músicas “ungidos” e receberem conselhos para “desbloquear a unção” ou “andar na unção”. A ideia é que a unção seja uma manifestação do poder divino para realizar tarefas através do ungido. Esses grupos afirmam que existem unções corporativas, assim como diversos tipos de unções individuais: a unção quíntupla, a unção apostólica e, entre as mulheres, a unção de Rute, a unção de Débora, a unção de Ana, entre outras. Alguns chegam até a mencionar uma “unção davídica” sobre instrumentos musicais, onde instrumentos “ungidos” seriam tocados pelo próprio Deus para expulsar demônios e elevar a adoração a um patamar superior. Segundo essa perspectiva, unções especiais capacitam uma pessoa a utilizar seus dons espirituais de forma intensificada, e são recebidas com a “liberação da fé”.
Muito do ensino carismático acerca da unção vai além do que as Escrituras afirmam. Em sua busca por sinais e maravilhas, muitos desejam novas e cada vez mais experiências estimulantes, o que, por sua vez, demanda mais manifestações, mais batismos espirituais e mais unções. Contudo, a Bíblia enfatiza que há uma única unção do Espírito, assim como há um único batismo: “Quanto a vocês, a unção que receberam dele permanece em vocês”. Esse mesmo trecho refuta a ideia equivocada de que Satanás possa, de alguma forma, “roubar” a unção de um crente. Não há motivo para se preocupar com a perda da unção recebida, pois as Escrituras afirmam que ela permanece.
Outro ensinamento controverso relacionado à unção do Espírito é a chamada “unção Mimshach”. Mimshach é uma palavra hebraica correlata a mashach (“ungir”), encontrada apenas em Ezequiel 28:14, onde se afirma que a unção “cobre” ou “cobre e protege”. Segundo alguns, a unção Mimshach – conferida a Lúcifer antes de sua queda – estaria disponível para os crentes hoje. Receber essa unção, afirmam, faria com que tudo o que a pessoa tocasse aumentasse, proporcionando níveis elevados de sucesso, ganhos materiais, saúde e poder.
Em vez de buscar uma nova unção, os crentes devem recordar que já possuem o dom do Espírito Santo. O Espírito não é concedido em partes, não vem em doses e não é retirado. Temos a promessa de que “o poder divino dele nos concedeu tudo o que é necessário para uma vida piedosa, através do conhecimento daquele que nos chamou para a sua própria glória e bondade”.






