Pergunta
Resposta
Fanatismo é tipicamente definido como “zelo excessivo e irracional.” O fanatismo pode se desenvolver em diversas tradições, mas isso não significa que essas tradições sejam, por natureza, fanáticas. Existem formas não fanáticas em várias tradições, como o cristianismo não fanático, o islamismo não fanático e o secularismo não fanático. Para os propósitos deste artigo, “fanatismo cristão” será definido como “zelo excessivo e irracional por parte dos cristãos professaos sobre sua fé.”
É útil, antes de tudo, refletir sobre o fanatismo não cristão – que por vezes levou à perseguição dos cristãos – e, depois, analisar o fanatismo cristão. Se o fanatismo resulta na perseguição de cristãos, qual deve ser a resposta dos que são alvos dessa perseguição? O apóstolo Pedro orienta os cristãos que enfrentam perseguição a responder de diversas formas. Embora não seja possível expor integralmente essa carta, as recomendações básicas incluem:
- Entregar-se aos cuidados de Deus;
- Perseverar na esperança diante da consumação da salvação do povo de Deus com o retorno de Jesus;
- Renunciar às próprias atitudes maléficas;
- Submeter-se ao governo civil, instituído por Deus para governar a sociedade, estabelecendo ordem e justiça;
- Viver em pureza e abster-se de vinganças.
No que diz respeito ao fanatismo cristão, devemos primeiro questionar se ele tem base bíblica. Apesar das alegações de alguns, o fanatismo desse tipo não é bíblico. Não se trata aqui do zelo em si, mas do zelo irracional. O zelo bíblico, quando guiado por um propósito virtuoso, é altamente louvável – “é bom ser zeloso, desde que o propósito seja bom.” É o excesso irracional do zelo que se configura como não bíblico e pecaminoso. Isso fica claro quando Jesus resume o maior mandamento ao afirmar: “Ame o Senhor, o seu Deus, de todo o seu coração, de toda a sua alma e de todo o seu entendimento.”
Ao mencionar “de todo o seu coração”, a tendência atual é associá-lo unicamente às emoções, pois a cultura ocidental costuma ver o coração como o centro dos sentimentos. Todavia, essa interpretação é equivocada, já que os antigos israelitas consideravam o coração como a sede das emoções, da vontade e do intelecto. Na verdade, a tradução grega de um termo hebraico relacionado indica “mente”, significando “pensamento profundo ou compreensão.” Assim, esse grande mandamento exige que se ame a Deus não apenas com emoções e zelo, mas também com a mente e o intelecto. Qualquer manifestação de zelo irracional, portanto, conflita com a forma de amar ensinada por Jesus, já que não se pode exercer um amor que inclua tanto o pensamento profundo quanto uma devoção irracional.
Um cristão é chamado a amar a Deus com a totalidade do seu intelecto. Questões políticas, econômicas, morais, legais e científicas devem ser tratadas com justiça e analisadas de maneira inteligente e ponderada. Representar de forma injusta os oponentes e seus argumentos é inaceitável, assim como negligenciar o trabalho intelectual do estudo aprofundado e descartar, de forma arrogante, as percepções de especialistas bem treinados em diversas áreas. Infelizmente, alguns cristãos cometem esse tipo de indiscrição e, em algumas ocasiões, chegam até a enaltecer um anti-intelectualismo que contraria um dos maiores mandamentos.
A crescente incidência do fanatismo, seja em sua forma não cristã ou cristã, é preocupante. Apesar de vivermos em uma era de avanços tecnológicos e científicos, também estamos inseridos em um período marcado por uma disseminada ignorância. Independentemente das normas culturais, o fanatismo praticado por cristãos sobre o próprio cristianismo é não bíblico, injustificado e não tem espaço em nossas vidas.






