O que é o Dispensacionalismo Progressivo?
Para apresentar o dispensacionalismo progressivo, é necessário compreender primeiro o que é o dispensacionalismo tradicional. De acordo com Charles Ryrie, autor do livro Dispensationalism, os três princípios primários do dispensacionalismo são:
- A Igreja e Israel são entidades distintas e separadas. Israel não foi absorvido pela Igreja (que iniciou no Dia de Pentecostes, conforme descrito em Atos 2). As promessas feitas especificamente a Israel no Antigo Testamento, que ainda não se cumpriram, serão efetivadas para a nação de Israel, sem serem espiritualizadas ou assumidas como aplicáveis à Igreja. Por exemplo, na Aliança Abraâmica, Deus prometeu a Abraão que uma grande porção de terra no Oriente Médio pertenceria aos seus descendentes. Essa promessa ainda não se cumpriu, mas acontecerá no futuro, no reino de mil anos que Cristo governará.
- O propósito de tudo o que Deus faz é trazer glória a Si mesmo. Outros sistemas teológicos afirmam que tudo o que Deus faz visa apenas a salvação da humanidade, mas isso não pode ser verdade, pois há muitas ações de Deus que não têm relação direta com a salvação das pessoas.
- Deve-se utilizar uma hermenêutica literal ou normal para interpretar toda a Escritura, inclusive as profecias que ainda não se cumpriram. Hermenêutica é “o método utilizado para interpretar a Escritura”. Utilizar uma hermenêutica literal ou normal significa ler e compreender o texto bíblico em seu sentido usual e direto, considerando os significados normais das palavras. Isso não quer dizer que se ignorem figuras de linguagem, pois elas fazem parte de uma interpretação normal. Por exemplo, a expressão moderna “está chovendo cachorros e gatos” é reconhecida como figura de linguagem para indicar uma chuva muito forte. Importa ressaltar que, apesar de ser frequentemente criticado por supostamente adotar uma interpretação literal, o dispensacionalismo também leva em conta as figuras de linguagem dentro de uma interpretação comum.
Outro sistema teológico utiliza uma hermenêutica dupla para interpretar a Escritura, aplicando uma abordagem literal ou normal para todo o texto, exceto para as profecias não cumpridas, às quais é empregada uma hermenêutica alegórica. Nesse caso, os significados normais das palavras são ignorados e os textos proféticos são “espiritualizados”. Um exemplo disso é a interpretação alegórica do reino de mil anos mencionado em Apocalipse 20:1-6, que não seria entendido como um reinado literal de mil anos de Cristo na Terra, mas sim como um reino atual, com a referência a mil anos representando um período extenso e não literal.
O dispensacionalismo progressivo é adotado por aqueles que acreditam que a hermenêutica normal dos dispensacionalistas tradicionais deve ser levemente modificada, seguindo o que denominam de “hermenêutica complementar”. Essa abordagem é, basicamente, a mesma dos dispensacionalistas tradicionais, mas leva a conclusões diferentes.
Uma das maiores discussões entre os defensores do dispensacionalismo tradicional e os do dispensacionalismo progressivo diz respeito ao trono de Davi. Na Aliança Davídica, Deus prometeu a Davi que jamais deixaria de haver um descendente seu ocupando o trono. Embora tenha havido períodos antes da vinda de Cristo – e atualmente não haja ninguém como rei sobre o reino no trono de Davi – essa promessa será, em última instância, cumprida quando Jesus Cristo retornar para estabelecer e governar o reino na Terra.
O ponto central da controvérsia está no seguinte: o dispensacionalismo progressivo sustenta que Cristo já está, neste momento, sentado no trono de Davi e governando. Embora os progressistas não neguem a existência de um reino literal de mil anos a ser governado por Cristo, afirmam que Ele já ocupa e reina no trono de Davi. Essa perspectiva é conhecida como “já, mas ainda não”, significando que Jesus já está no trono de Davi, porém a promessa completa feita a Davi – de que um descendente seu ocupe seu trono – ainda não se cumpriu totalmente. Textos bíblicos centrais para essa questão incluem Salmo 132:11; Salmo 110:1-4; Atos 2:30; e Atos 3:19-22. Já os dispensacionalistas tradicionais argumentam que, embora Cristo esteja à direita do Pai e claramente governando (conforme Hebreus 1:3 e 1 Pedro 3:22), isso não implica que Ele esteja no trono de Davi, considerando que o dispensacionalismo progressivo extrapola ao afirmar que Ele já ocupa esse trono.
Embora o dispensacionalismo progressivo seja um conceito relativamente novo (provavelmente com menos de 15 anos), já foram escritas várias obras sobre o assunto.






