O que é o Evangelho Q? Há evidências do Evangelho Q?
O evangelho “Q” recebe seu nome da palavra alemã quelle, que significa “fonte”. A ideia central do evangelho Q baseia-se no conceito de que os Evangelhos Sinóticos (Mateus, Marcos e Lucas) são tão semelhantes que devem ter copiado trechos uns dos outros e/ou utilizado outra fonte. Essa fonte adicional passou a ser chamada de “Q”.
O principal argumento em favor da existência de um evangelho Q é basicamente o seguinte:
- Os Evangelhos de Mateus, Marcos e Lucas foram escritos após 70 d.C. e, portanto, não poderiam ter sido escritos pelo apóstolo Mateus, por João Marcos ou pelo médico Lucas.
- Como os autores dos Evangelhos não eram testemunhas oculares, eles teriam utilizado outras fontes.
- Marcos é o evangelho mais curto e contém a menor quantidade de material original, o que sugere que foi escrito primeiro; assim, Mateus e Lucas teriam usado Marcos como fonte.
- Existem muitas semelhanças entre Mateus e Lucas que não aparecem em Marcos, indicando que esses evangelhos também teriam recorrido a outra fonte.
- Essa outra fonte, a “Q”, provavelmente era uma coletânea dos ditos de Jesus, semelhante ao evangelho de Tomé.
Ao considerar a possibilidade de um evangelho Q, é importante lembrar que nenhuma evidência concreta foi encontrada para sua existência. Nenhum fragmento manuscrito de Q jamais foi descoberto, e nenhum dos primeiros pais da igreja mencionou algo que pudesse representar esse evangelho.
Além disso, existem fortes indícios de que os Evangelhos de Mateus, Marcos e Lucas foram escritos entre 50 e 65 d.C. – e não após 70 d.C. Muitos dos primeiros pais da igreja atribuíram esses evangelhos ao apóstolo Mateus, a João Marcos e a Lucas, o médico. Dessa forma, como esses evangelhos foram escritos por pessoas que foram testemunhas oculares de Jesus ou por companheiros próximos de testemunhas, é natural que apresentem muitas semelhanças. Se os Evangelhos registram as palavras de Jesus, espera-se que testemunhas oculares relatem os mesmos termos.
Não há nada de errado com a ideia de que os escritores dos Evangelhos utilizaram como fontes outros evangelhos. Lucas, por exemplo, declara em Lucas 1 que usou diversas fontes. É possível que Mateus e Lucas tenham utilizado Marcos como uma destas fontes, e também é possível que tenham recorrido a outra fonte adicional, como a “Q”. O uso de uma fonte contendo os ditos de Jesus não diminui a inspiração das Escrituras.
O motivo para rejeitar o conceito de evangelho Q não reside na possibilidade de seus autores terem usado uma fonte comum, mas sim na pressuposição adotada por muitos defensores do evangelho Q – a de que os Evangelhos não seriam divinamente inspirados.
A maioria dos que promovem o conceito do evangelho Q não acredita que a Bíblia seja inspirada (soprada por Deus). Esses defensores também duvidam que os Evangelhos tenham sido escritos pelos apóstolos ou por seus estreitos colaboradores, tampouco aceitam que os evangelhos tenham sido escritos na mesma geração dos apóstolos. Segundo essa visão, não seria possível que dois ou três autores utilizassem exatamente as mesmas palavras sem recorrer às fontes uns dos outros. De forma crucial, muitos dos defensores do evangelho Q rejeitam a inspiração do Espírito Santo, que teria auxiliado os escritores dos Evangelhos a registrar com precisão as palavras e os feitos de Jesus Cristo. Assim, o problema não seria o uso de uma fonte “Q”, mas sim a negação da inspiração das Escrituras – como apontam passagens como Mateus 5:18, Mateus 24:35, João 10:35, João 16:12, João 16:13, João 17:17, 1 Coríntios 2:13, 2 Timóteo 3:15–17, Hebreus 4:12 e 2 Pedro 1:20, 2 Pedro 1:21).






