O que é o livro de Tobias?

O que é o Livro de Tobias?

Tobias faz parte do que é considerado a escritura Apócrifa/Deuterocanônica e aparece no Antigo Testamento das bíblias católicas. Com exceção de algumas bíblias episcopais ou luteranas, Tobias e outros livros do Apócrifo não fazem parte das bíblias protestantes. Apócrifo significa “escondido” e deuterocanônico significa “listado em segundo lugar”. Os livros do Apócrifo foram, em geral, escritos ao longo de aproximadamente 400 anos, entre a composição dos livros do Antigo e do Novo Testamento, durante o chamado período intertestamental. Tobias é um dos 12 a 15 livros geralmente reconhecidos como parte do Apócrifo.

O Livro de Tobias, também conhecido como Tobias, acredita-se ter sido escrito no início do segundo século a.C. e narra a história de um homem chamado Tobias e de sua família, exilados para viver em Nínive logo após a queda do Reino do Norte de Israel, em 722 a.C. Tobias e seus familiares se empenham em amar e honrar a Deus, atuando como seguidores justos da Lei. Embora o livro seja considerado uma obra histórica — e sua forma literária seja vista por alguns como a de um romance religioso — sua mensagem não se restringe aos eventos históricos, mas orienta sobre a piedade, o respeito aos pais, a prática de esmolas aos pobres, a oração intercessória, o casamento e a observância da Lei.

A narrativa gira em torno de um judeu piedoso e cumpridor da Lei, que não abandonou as tradições judaicas, mesmo quando outros judeus em exílio adoravam ídolos e deixavam de seguir os preceitos divinos. Tobias realizou diversas boas ações, como enterrar os judeus segundo os rituais, mesmo correndo riscos pessoais, e distribuir esmolas aos necessitados. Apesar de sua família ser abastada, numa noite abafada, após enterrar um cadáver, Tobias dormiu ao ar livre e acidentalmente teve dejetos de pardais caindo em seus olhos, o que o deixou cego. Tomado pelo desespero, ele passou a pedir a Deus que o deixasse morrer. Na mesma data, em Media, Sara, uma parente de Tobias, orou pedindo a Deus que também retirasse sua vida, pois fora alvo de chacota constante por ter se casado sete vezes, com cada marido sendo morto pelo demônio Asmodeus antes mesmo da consumação do casamento.

Com a perspectiva de uma morte iminente, Tobias, pai de Tobias, enviou seu único filho para Media com a missão de devolver uma grande quantia de dinheiro depositada junto a um parente. Durante essa viagem, Tobias foi, sem seu conhecimento, acompanhado pelo anjo Rafael (que aparece apenas no Apócrifo e não na Bíblia). Em determinado momento, Tobias foi atacado por um grande peixe, que Rafael o instruiu a matar para extrair-lhe a vesícula biliar, o fígado e o coração, pois esses elementos “podem ser usados como remédios.” Ao chegar em Media, seguindo a insistência de Rafael, Tobias casou-se com Sara e usou o coração e o fígado do peixe para eliminar o demônio e proteger o leito conjugal. No retorno para casa, aplicou a vesícula biliar do peixe e conseguiu restaurar a visão do pai.

O livro foi escrito originalmente em aramaico, uma língua internacional bastante difundida entre judeus e outros povos do período intertestamental. Durante séculos, o texto original se perdeu, passando a tradução grega a servir como principal fonte dessa obra. Entretanto, na Caverna IV em Qumran (descoberta dos Rolos do Mar Morto), foram encontrados fragmentos de Tobias escritos em aramaico e hebraico que se assemelham muito à recensão grega utilizada nas traduções atuais.

Vários trechos do livro repetem passagens do Antigo Testamento, como trechos de 1 e 2 Reis, Deuteronômio, Levítico, entre outros. Tobias ainda faz alusão ao nascimento de Cristo, conforme descrito nos Evangelhos, e aos tempos finais, tema abordado no Livro do Apocalipse.

Alguns estudiosos apontaram erros históricos e teológicos neste livro. Por exemplo, Tobias 1:15 afirma incorretamente que Senaqueribe era filho de Salmaneser, quando, na verdade, ele era filho de Sargão II. Além disso, o texto parece sugerir que Tobias viveu durante o reinado de Jeroboão I (por volta de 930 a.C.), mas ao morrer, sua idade seria de 117 anos. No aspecto teológico, o livro ensina que somente a prática da esmola “lhe salvará da morte”, diferentemente do que Paulo declara em Gálatas 2:16, onde o homem é justificado “pela fé em Cristo e não pela observância da Lei, pois pela observância da Lei ninguém será justificado”. Da mesma forma, Jesus diz em João 3:16 que “todo aquele que nele crer não perecerá, mas terá a vida eterna”, indicando que somente a fé — e não as obras ou a observância rigorosa da Lei — proporciona a salvação.

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