O Paraíso Perdido, de John Milton, é bíblico?
Paraíso Perdido é um poema épico dividido em 12 livros, baseado na história bíblica da queda de Lúcifer e do pecado de Adão e Eva no Jardim do Éden. A profunda fé puritana de Milton transparece em toda a sua obra, atingindo seu ápice nos poemas épicos. Nos versos iniciais, Milton apresenta o “argumento” da obra ao invocar a musa celestial para auxiliá-lo na escrita:
“Da primeira desobediência do Homem e do fruto
Daquela árvore proibida, cujo sabor mortal
Trouxe a morte ao mundo e todo o nosso sofrimento,
Com a perda do Éden, até que um Homem maior [Cristo],
Nos restaure e recupere o assento de bem-aventurança,
Canta, ó musa celestial…”
Assim como em O Progresso do Peregrino, de John Bunyan, Paraíso Perdido preenche os detalhes do que ocorre no reino espiritual. Milton apresenta interações entre Deus e Lúcifer, Lúcifer e Adão e Eva, Lúcifer e seus demônios, entre outros, utilizando licença poética e uma expressão lírica marcante. Nada em Paraíso Perdido contradiz diretamente a Bíblia, embora a obra não deva ser interpretada como um relato bíblico literal. Talvez o verso mais célebre do poema seja a declaração rebelde de Lúcifer: “É melhor reinar no inferno, do que servir no céu”, frase que, repetida inúmeras vezes, chega a ser equivocadamente atribuída às Escrituras.
É importante notar que a poesia de Milton pode apresentar desafios para o leitor moderno. Paraíso Perdido está repleto dos ritmos e expressões do inglês do século XVII, e o autor faz diversas alusões à mitologia grega e a escritores renascentistas italianos, franceses e ingleses, muitos dos quais são menos conhecidos atualmente. No entanto, do ponto de vista teológico e literário, sua obra é inquestionavelmente de primeira linha. Impressionantemente, Milton compôs este épico enquanto estava completamente cego, tendo que ditar os versos ao seu secretário.






