A doutrina da geração eterna remonta aos primórdios da igreja cristã. Essa doutrina, juntamente com o processamento eterno do Espírito Santo, forma a base para a completa doutrina da Trindade. Ela foi codificada no Credo Niceno, universalmente aceito como uma declaração precisa de fé tanto pela Igreja Católica Romana quanto pelas igrejas protestantes. Além disso, essa doutrina foi incluída em confissões da fé da Reforma, como a Confissão Belga (Artigos X e XI) e a Confissão de Fé de Westminster (Capítulo II.3), que servem como padrão doutrinário para muitas igrejas reformadas e presbiterianas pelo mundo.
Ao discutir a Trindade, deparamos-nos imediatamente com o fato de que se trata de uma doutrina envolta em mistério. Como seres finitos e criados, nunca seremos capazes de compreender plenamente a Trindade; ela está além do nosso entendimento. Todas as analogias humanas utilizadas para explicá-la falham em algum nível, por isso devemos agir com humildade e limitar nossas explicações ao que as Escrituras nos permitem. Toda heresia relacionada à Trindade surgiu da tentativa de explicar o inexplicável.
Dito isso, é comum que os círculos evangélicos afirmem quatro pontos básicos sobre a doutrina da Trindade:
- Existe um único Deus verdadeiro e vivo.
- Esse único Deus existe eternamente em três Pessoas – Deus Pai, Deus Filho e Deus Espírito Santo.
- Essas três Pessoas são completamente iguais em atributos, compartilhando a mesma natureza divina.
- Embora cada Pessoa seja plena e completamente Deus, elas não são idênticas entre si.
Essas afirmações são universalmente aceitas por todos os cristãos, sejam católicos romanos ou protestantes, e podem ser defendidas com base nas Escrituras. Se as aceitarmos como verdade, podemos comparar a doutrina da geração eterna com elas e verificar se ela se sustenta.
A doutrina da geração eterna ensina que Deus Pai gera ou engendra, de forma eterna e necessária, Deus Filho, de modo que a substância (a essência divina) não é dividida. Em outras palavras, há uma comunicação integral da substância indivisível da divindade, de forma que Deus Filho é a representação exata – ou imagem expressa – de Deus Pai. Assim, uma única essência divina existe eternamente em duas pessoas através da geração eterna. O teólogo reformado Louis Berkhof a descreve da seguinte forma:
“É aquele ato eterno e necessário da primeira pessoa da Trindade, pelo qual, dentro do Ser Divino, Ele se torna a base para uma segunda subsistência pessoal semelhante à sua, conferindo a essa segunda pessoa toda a essência divina, sem qualquer divisão, alienação ou mudança” (Systematic Theology, Eerdmans, 1938, p. 94).
Assim, vemos que a geração eterna é um ato realizado pela Primeira Pessoa da Trindade, que ocorre de forma necessariamente e eternamente. O resultado desse ato é a geração da Segunda Pessoa, com a totalidade da essência divina sendo comunicada do Pai para o Filho.
Devido a esse ato, os termos Pai e Filho são usados para identificar a Primeira e a Segunda Pessoas da Trindade. O Pai gera eternamente o Filho, e o Filho – não tendo começo nem fim – é gerado eternamente pelo Pai. Essa relação se assemelha à geração humana, embora a geração humana não seja eterna nem necessária.
Algumas críticas à doutrina afirmam que o termo “engendrar” implica uma criação temporal ou uma dependência ontológica. Contudo, é importante ressaltar que todas as analogias humanas sobre a Trindade acabam por falhar se levadas além do que as Escrituras ensinam. Os qualificadores “eternamente” e “necessariamente” afastam qualquer relação temporal ou subordinada entre Pai e Filho. O qualificativo “eterno” retira essa relação das limitações do tempo e do espaço – não há começo nem fim –, e “necessário” elimina qualquer dependência ontológica, pois o Filho deve ser gerado pelo Pai, assim como o Pai deve gerar o Filho.
Os termos Pai e Filho não servem apenas de analogia para a relação entre a Primeira e a Segunda Pessoa; eles também esclarecem uma verdade teológica. Há uma ordem hierárquica e funcional na economia da criação e da salvação: o Pai convoca o universo à existência, e o Filho atua como agente dessa criação; o Pai escolhe os eleitos para a salvação e o Filho provê a expiação necessária – o Pai envia o Filho, nunca o contrário. Essa hierarquia de papéis e funções não diminui a igualdade ontológica entre eles, pois ambos são essencialmente Deus, compartilhando igualmente a essência divina. Assim, os termos Pai e Filho vão ao cerne da definição dessa relação eterna e necessária.
Essa doutrina encontra respaldo nas Escrituras. Considere os seguintes versículos:
“No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus.” (João 1:1)
“E o Verbo se fez carne, habitou entre nós, e vimos a sua glória, glória como do unigênito do Pai, cheio de graça e de verdade.” (João 1:14)
“Ninguém jamais viu a Deus; o Deus unigênito, que está no seio do Pai, esse o revelou.” (João 1:18)
“Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna.” (João 3:16)
“Pois, assim como o Pai tem vida em si mesmo, assim concedeu também ao Filho ter vida em si mesmo.” (João 5:26)
“Crede-me que estou no Pai, e o Pai está em mim; se não, crede por causa das obras.” (João 14:11)
“Para que todos sejam um, assim como tu, Pai, és em mim, e eu em ti; que também eles estejam em nós, para que o mundo creia que tu me enviaste.” (João 17:21)
“Ele, que é o resplendor da glória de Deus e a expressão exata do seu ser, sustentando todas as coisas pela palavra do seu poder, depois de ter feito a expiação dos pecados, assentou-se à direita da Majestade nas alturas.” (Hebreus 1:3)
O objetivo desses versículos é indicar que a relação entre Pai e Filho existe desde a eternidade e fundamenta-se na igualdade ontológica. Também vale considerar as declarações presentes no Credo Niceno e na Confissão de Fé de Westminster em relação à geração eterna:
“E em um só Senhor Jesus Cristo, Filho unigênito de Deus, gerado do Pai antes de todos os mundos; Deus de Deus, Luz de Luz, verdadeiro Deus de verdadeiro Deus; gerado, não criado, de uma única substância do Pai, por quem todas as coisas foram feitas.”
“Na unidade da Divindade há três Pessoas de uma única substância, poder e eternidade: Deus Pai, Deus Filho e Deus Espírito Santo. O Pai não tem origem nem é gerado ou procede; o Filho é gerado eternamente pelo Pai; o Espírito Santo procede eternamente do Pai e do Filho.”
Com base nas Escrituras e no testemunho dos credos e confissões, podemos afirmar com segurança que a doutrina da geração eterna é bíblica.
Não se espera que todo crente possua um entendimento completamente maduro dessa doutrina. A doutrina da Trindade – incluindo a geração eterna – é a peça central da teologia ortodoxa e deve ser afirmada por todo verdadeiro crente, embora não seja um requisito indispensável para a confissão de fé. Em outras palavras, a salvação é pela graça, por meio da fé em Jesus Cristo (Efésios 2:8). Conforme o estudamos, nosso entendimento dessa doutrina se aprofundará e amadurecerá.






