Qual é o problema do bem?
Em outubro de 2010, foi lançado o livro The Moral Landscape do ateu Sam Harris. Nele, Harris argumenta contra a fundamentação da moralidade em Deus e defende que a ciência é o único instrumento capaz de determinar os conceitos de bem e mal. Diferentemente de outros filósofos naturalistas e ateus – como Nietzsche, Sartre e Russell –, que negaram a realidade dos valores morais objetivos, Harris se posiciona contra o relativismo e o subjetivismo morais. Segundo ele, existe uma alternativa válida ao niilismo moral, e a ciência oferece as respostas que a humanidade busca em questões relacionadas à moralidade.
Para contextualizar, Harris define o terreno de ação (sua “paisagem moral”) da seguinte forma: “A paisagem moral é um espaço de resultados reais e potenciais, cujos picos correspondem aos níveis máximos de bem-estar, e cujos vales representam o maior sofrimento possível.” O conceito de “bem-estar” é fundamental para compreender a definição de bem e mal segundo Harris. Ele afirma que “perguntas sobre valores são, na verdade, perguntas sobre o bem-estar de criaturas conscientes.” Assim, para Harris, os conceitos de bem e moralidade se relacionam diretamente com os altos e baixos vivenciados por seres conscientes – incluindo os animais, que, afinal, para o ateu, os humanos não passam de animais mais evoluídos – e seu bem-estar. Harris defende que um dos objetivos da ciência é determinar e prescrever os caminhos para que os seres humanos “floresçam”; e, através do florescimento humano, a boa vida será alcançada.
No entanto, seria o “bem” do qual Harris fala um bem moral? Essa é a principal questão e o ponto central dos argumentos apresentados em seu livro. Esse problema tem atormentado ateus e materialistas que não tentam misturar sua posição ateísta com conceitos emprestados do cristianismo. A visão predominante entre os ateus intelectualmente honestos é que a ciência e o naturalismo não podem fazer julgamentos morais ou emitir afirmações sobre o “dever ser” quando se trata de ética.
A ciência pode apontar o que contribui para o “florescimento” dos seres humanos? Sem dúvida, pode fazê-lo da mesma forma que explica o que contribui para o florescimento de um carvalho. Contudo, isso não equivale, de forma alguma, a uma conclusão moral. Por esse motivo, há alguns anos o ateu Richard Dawkins examinou o mundo natural e comentou sobre a realidade do bem e do mal, concluindo que a vida não possui “design, propósito, mal ou bem, nada além de uma indiferença cega e impiedosa” (River Out of Eden: A Darwinian View of Life, BasicBooks, 1995, p. 133).
O Problema do Bem — Definindo o Bem
O que é “bem”? No livro, Harris procura transmitir que o “bem” se resume ao bem-estar das criaturas conscientes. De fato, ele argumenta de forma consistente que o “bem” é aquilo que faz com que essas criaturas floresçam. Harris estabelece sua definição de bem como algo que não pode ser questionado, pois, segundo ele, é justamente essa a essência do que ele entende por “bem”.
Para oferecer mais clareza sobre sua convicção de que ateus podem sustentar leis morais objetivas, Harris utiliza algumas analogias. Ele compara, por exemplo, o jogo de xadrez, onde existem movimentos objetivamente bons e ruins, à vida. Além disso, defende que a suposta divisão entre fato e valor – entre ciência e moralidade – pode ser facilmente transposta, pois (1) o conhecimento objetivo implica valores, como quando se diz que pensar de forma lógica é algo bom; e (2) as crenças sobre fatos e valores surgem de processos similares no cérebro.
Será que Harris está certo? Em primeiro lugar, não basta ele simplesmente definir a realidade e o seu conceito de bem, esperando que todos o aceitem. Em segundo lugar, ninguém questiona que há bons e maus movimentos no xadrez ou que o uso do pensamento lógico seja algo positivo. Contudo, Harris acaba confundindo o termo bem quando o campo da moralidade é abordado. Um movimento ruim no xadrez pode ser considerado “mal”, mas não seria correto rotular uma pessoa que não utiliza o pensamento lógico como agindo de forma malévola.
Por fim, o fato de as pessoas usarem o cérebro para processar tanto fatos quanto valores não serve para fundamentar a definição de bem de Harris, especialmente quando se trata de questões morais.
O Problema do Bem — As Opções para uma Fonte Moral
Ao se descartar uma fonte transcendente para os valores morais objetivos, restam três alternativas para a origem da lei moral objetiva:
- O universo natural
- A cultura ou sociedade
- O indivíduo
Será que o universo natural pode ser a fonte dos valores morais objetivos? Uma vez que a ciência admite que um efeito deve corresponder à sua causa em essência (ou seja, uma causa não pode produzir algo que não possui), parece improvável que a matéria amoral possa criar seres obcecados por comportamentos morais. O romancista e poeta Stephen Crane colocou da seguinte forma:
“Um homem disse ao Universo,
Senhor, eu existo!
Entretanto, respondeu o Universo,
Esse fato não despertou em mim
o menor sentimento de obrigação.”
E quanto à cultura ou sociedade – seria ela a fonte dos valores morais objetivos? Essa alternativa não parece plausível, considerando que existem múltiplas culturas e sociedades, cada uma com quadros morais bastante distintos. Qual seria a escolha correta? Por exemplo, em algumas culturas as pessoas amam seus vizinhos, enquanto em outras eles podem inclusive ser consumidos como alimento.
Se não for possível escolher uma única cultura como padrão, outra possibilidade seria deixar que cada cultura definisse sua própria moral – o que se torna insustentável, a menos que a humanidade global esteja disposta a fechar os olhos para práticas como a queima de viúvas (em que uma esposa viva é queimada ao lado do marido falecido) ou sistemas como o nazismo. Além disso, até mesmo definir o que é moral dentro de uma mesma cultura pode ser problemático. Se a maioria declara o estupro “bom”, isso o torna moralmente aceitável?
A última opção de fonte dos valores morais objetivos é o indivíduo, presente em filosofias como o pós-modernismo ou em religiões como a Wicca, cujo lema é “Se não prejudica ninguém, faça o que quiser.” Contudo, esse fundamento tende a ser meramente emotivo, reduzindo ações consideradas imorais a meras afirmações como “Eu não gosto de estupro” ou “Para mim, o estupro é errado.”
No debate com o ateu Bertrand Russell, o jesuíta e filósofo Frederick Copleston abordou Russell perguntando: “Lord Russell, você acredita no bem e no mal?” Russell respondeu: “Sim.” Copleston continuou: “Como você diferencia o bem do mal?” Russell replicou: “Da mesma forma que diferencio o azul do verde ou o amarelo do verde.” Copleston, então, desafiou-o dizendo: “Espere um pouco, você diferencia o amarelo do verde pela visão, não é?” Russell confirmou, “Sim.” E Copleston questionou novamente: “Como diferencia o bem do mal?” Russell respondeu: “Eu faço essa diferenciação com base nos meus sentimentos, o que mais seria possível?”
O fato é que se torna impossível o indivíduo ser a fonte das leis morais objetivas. Se duas pessoas discordam sobre o que é “bem”, como se resolve a controvérsia?
O Problema do Bem — Reconhecendo e Aplicando a Lei Moral
Sem uma fonte transcendente para a lei moral, existem quatro formas possíveis de reconhecer e concordar sobre o que é “bem”. São elas:
- Utilitarista – aquilo que gera a maior felicidade para o maior número de pessoas;
- Pragmática – aquilo que aparenta “funcionar” no que diz respeito à promoção de felicidade (ou, inversamente, à prevenção de consequências negativas);
- Subjetiva – aquilo que é certo para uma pessoa em uma situação específica;
- Emotiva – aquilo que “soa” como certo.
Como tem sido exaustivamente debatido ao longo dos séculos, nenhuma dessas opções é satisfatória por si só. Harris descarta as alternativas 3 e 4, acreditando na existência de valores morais objetivos – e, nesse ponto, está correto. Inclusive, alguns ateus intelectualmente honestos, além de Harris, reconhecem essa dificuldade. Por exemplo, durante um debate com o filósofo cristão William Lane Craig sobre a existência de valores morais objetivos, a filósofa ateia Louise Antony admitiu que “qualquer argumento contra a realidade objetiva dos valores morais se baseará em premissas que são menos evidentes do que a própria existência desses valores.” Ou seja, é difícil argumentar contra a realidade de que o amor é melhor que o ódio ou o desejo em um mundo onde o assassinato é visto como virtude e a gratidão como vício.
Uma combinação das opções 1 e 2 pode representar a maneira de Harris reconhecer o bem e o mal, mas isso pode gerar problemas. Não é exagero dizer que tal posição pode levar a práticas eugênicas e à eliminação de bebês considerados incapazes de florescer. A eutanásia, por exemplo, poderia ser declarada “boa” se significasse que a qualidade de vida da maioria seria elevada pela eliminação de uma minoria que consome recursos excessivos. Deixado ao livre arbítrio da ciência, muitos horrores humanos poderiam ser justificados em nome do bem coletivo. A eliminação dos considerados indesejáveis já foi tentada diversas vezes por vários regimes. O psiquiatra Victor Frankl – que foi prisioneiro em campos de concentração duas vezes – afirmou certa vez: “Estou absolutamente convencido de que as câmaras de gás de Auschwitz foram preparadas, em última instância, não por algum ministério da defesa em Berlim, mas sim nas mesas e salas de aula de cientistas e filósofos niilistas.”
Um exemplo mais recente dessa linha de raciocínio ocorreu durante o 109º encontro da Academia de Ciências do Texas, realizado na Lamar University em março de 2006. Na ocasião, o evolucionista Dr. Eric Pianka apresentou uma palestra sobre como a superpopulação humana está destruindo a Terra. Segundo ele, o planeta, como o conhecemos, não sobreviverá sem medidas drásticas. Sem apresentar dados que justificassem sua conclusão, Pianka afirmou que a única solução viável para salvar a Terra seria reduzir a população para 10% do número atual.
Como o Dr. Pianka propunha reduzir a população? Segundo ele, a AIDS não seria uma opção eficiente, por ser uma doença lenta. Seu candidato favorito para eliminar 90% da população mundial seria o vírus Ebola aerotransmissível, por ser altamente letal e matar em poucos dias, em vez de anos. Contudo, o professor omitiu o fato de que as vítimas do Ebola sofrem uma morte lenta e tortuosa, à medida que o vírus desencadeia uma cascata de calamidades biológicas que liquefazem os órgãos internos. Após elogiar a eficiência letal do Ebola, Pianka fez uma pausa, inclinou-se sobre o púlpito, olhou para a audiência e disse cuidadosamente: “Temos uma mortalidade de 90% por via aérea em humanos. Matar humanos. Pensem nisso.” A resposta do público foi uma ovação de pé.
Forrest Mims, um dos cientistas presentes, resumiu a reação: “Ainda não consigo tirar da cabeça a imagem daquele agradável dia de primavera no Texas, quando alguns centenas de cientistas da Academia de Ciências do Texas aplaudiram de pé um palestrante que defendia a morte lenta e tortuosa de mais de cinco bilhões de seres humanos.” Evidentemente, os outros cientistas presentes devem ter acreditado que não fariam parte dos 90% da humanidade que o Dr. Pianka defendia eliminar.
O Problema do Bem — Outra Alternativa Óbvia
A tentativa de Harris de definir, fundamentar, reconhecer e aplicar uma lei moral dentro do universo natural é, de certo modo, original para um ateu – mérito que se deve reconhecer. No entanto, sua redefinição do conceito de bem, sua equivoco ao utilizar o termo e as conclusões inevitáveis de sua filosofia evidenciam que sua posição é insustentável.
O que acontece quando se considera a outra alternativa óbvia para os valores morais objetivos: uma fonte transcendente de uma lei moral objetiva que defina o que o bem realmente é e que estabeleça a sua aplicação? E quanto a Deus?
Não há dúvida de que Harris está correto ao afirmar que não é necessário acreditar em Deus para discernir deveres morais ou reconhecer a existência de valores morais objetivos. Esse jamais foi o argumento do teólogo cristão. O argumento cristão estabelece que, para fundamentar uma lei moral objetiva, é preciso possuir uma fonte transcendente desses valores.
Essa foi uma compreensão evidente para os fundadores dos Estados Unidos, que embasaram os direitos dos cidadãos americanos da seguinte forma: “Consideramos estas verdades como evidentes por si mesmas, que todos os homens são criados iguais, que são dotados pelo seu Criador de certos Direitos inalienáveis, entre os quais estão a Vida, a Liberdade e a busca da Felicidade.” Nada semelhante pode ser encontrado nas declarações de outras nações; o bem-estar moral estava diretamente ligado a um ato criativo. Vida… Liberdade… Felicidade. Esses termos lembram diretamente o florescimento e o bem-estar dos seres conscientes. Ademais, o termo “evidente” comunica a ideia de que a lei moral é inegável e objetiva. Sam Harris, ou deveria, orgulharia-se dessa conclusão.
No entanto, devido às suas pressuposições naturalísticas, Harris não considera Deus como uma possível fonte de lei moral – e, ao final, isso se revela como seu calcanhar de Aquiles. Ele não entende uma verdade importante: o bem não pode ser definido sem propósito, e o propósito não pode ser definido sem causa. Os ateus afirmam que o universo (seu único referencial de eternidade) é destituído de propósito e significado. Mas Harris deseja a moralidade, que não pode existir sem propósito e significado. Sua causa, por si só, não possui a capacidade de gerar o propósito ou o significado que ele tanto almeja; ou seja, ela não pode produzir um efeito que contenha o que não possui. A fórmula dos ateus – Matéria Impessoal + Tempo + Acaso – falha em produzir o efeito desejado. Na verdade, parece ter gerado justamente o oposto. Como expressa Steve Turner em seu poema “Creed”:
“Se o acaso for o Pai de toda a carne,
Desastre é seu arco-íris no céu,
E quando você ouvir
Estado de Emergência!
Atirador elimina dez!
Tropas em fúria!
Brancos saqueiam!
Bomba explode na escola!
É apenas o som do homem adorando seu Criador.”
Sem uma causa que possua significado e propósito, não pode haver moralidade em efeito. Isso nos remete a pensadores ateus como Nietzsche, que admitiam que, sem Deus, não há o que se possa chamar de “bem”, tampouco de “mal”. A lógica se estabelece assim: se existe o mal, pressupõe-se a existência do bem; se existe o bem, há a necessidade de uma lei moral absoluta e imutável para diferenciar entre bem e mal; e se existe uma lei moral absoluta, deve-se postular um doador absoluto dessa lei – Deus, justamente aquele que os ateus tentam refutar. Portanto, se não há um doador de lei moral, não há lei moral. Sem lei moral, não há bem. Sem bem, não há mal.
O Problema do Bem — Conclusão
O filósofo ateu J. L. Mackie afirmou que “podemos argumentar que características intrinsicamente prescritivas que derivam de elementos naturais constituem um conjunto tão peculiar de qualidades e relações que é improvável que tenham surgido de forma ordinária sem um Deus Todo-Poderoso para criá-las.” Pensadores honestos poderão chegar a essa conclusão se seguirem a lógica dos argumentos, embora o que farão ao alcançá-la ainda seja incerto. C. S. Lewis chegou a esse ponto e o descreveu da seguinte forma: “Meu argumento contra Deus era de que o universo parecia tão cruel e injusto. Mas como adquiri essa noção de justo e injusto? Um homem não chama uma linha de torta a menos que tenha uma ideia de linha reta.”
Aqueles como Harris não possuem uma linha reta objetiva que possam agarrar. Poucos materialistas têm a coragem de, à semelhança de Nietzsche, compreender e assumir as reais consequências da morte de Deus. Em vez disso, muitos, como Harris, titubeiam ao encarar o rosto do ateísmo, resultando em concepções equivocadas de moralidade que não possuem uma causa capaz de produzir o efeito que se reconhece como real.
A Bíblia declara: “Ninguém é bom, a não ser um, que é Deus” (Lucas 18:19). O bem está fundamentado na própria natureza de Deus, e o que Ele deseja é bom porque Ele é bom. Assim como muitas coisas podem possuir um traço de “ser” (ou vida), somente uma coisa realmente é o Ser (ou a vida); o conceito de bem funciona de maneira similar. Muitas entidades podem ter algum bem nelas, mas somente uma coisa é verdadeiramente bem. E esse Deus bom convida a todos a “provarem e verem que o Senhor é bom” (Salmo 34:8).





