Pergunta:
Se eu não perdoar os outros, isso significa que meus pecados não serão perdoados? O que significa Mateus 6:14-15?
Resposta:
Mateus 6 não ensina que o nosso destino eterno dependa do fato de perdoarmos os outros; ensina, sim, que o nosso relacionamento com Deus será prejudicado se nos recusarmos a perdoar aqueles que nos ofenderam. A Bíblia deixa claro que Deus perdoa o pecado por Sua graça, com base apenas na obra de Cristo na cruz, e não pelas ações humanas. Nossa posição diante d’Ele é estabelecida unicamente pela obra consumada de Cristo. A penalidade pelo pecado, que nos pertence de direito, foi paga por Cristo e a adquirimos pela graça mediante a fé, e não por qualquer ato justo nosso. Ninguém poderá se apresentar diante de Deus exigindo que seus pecados sejam esquecidos simplesmente porque perdoou os outros. Somente quando nascemos de novo e recebemos uma nova vida pelo Espírito de Deus, por meio da fé em Jesus Cristo, nossos pecados são perdoados. Portanto, Jesus não se refere ao ato inicial de perdão (reconciliação) que experimentamos ao crer no Evangelho.

O que Jesus está apontando aqui é para a limpeza diária que obtemos quando confessamos nossos pecados, a fim de restabelecer a comunhão com o nosso Pai celestial – uma comunhão que é interrompida pelo constante manchar do pecado que afeta a todos nós. Essa limpeza não é a remissão completa do pecado, como ocorre com a salvação pela graça mediante a fé, mas assemelha-se mais à lavagem dos pés que Jesus descreve. Ele disse aos discípulos que “o corpo todo está limpo”, mas que os pés deles estavam sujos por causa das caminhadas neste mundo. Dessa forma, o perdão, nesse sentido, é justamente aquilo que Deus ameaça reter dos cristãos que se recusam a perdoar os outros.
Em Mateus 6, Jesus ensina os discípulos a orar e, ao fazer isso, mostra como podemos ser restaurados à intimidade com Deus sempre que O ofendemos. De fato, Ele nos instrui a incluir em nossas orações o pedido para que Deus nos perdoe da mesma maneira que nós perdoamos aqueles que nos prejudicaram (Mateus 6:12). Se, ao orarmos por perdão, houver pessoas que não perdoamos, estamos, na prática, pedindo a Deus que não restabeleça o relacionamento correto conosco após o pecado. Para reforçar a importância de reparar os relacionamentos rompidos com nossos irmãos e irmãs, Jesus afirma que pedir o perdão de Deus para os nossos pecados, enquanto retém o perdão dos outros, é não só estranho, como também hipócrita. Não é possível caminhar verdadeiramente com Deus se nos recusarmos a perdoar o próximo.
Sem dúvida, um espírito rancoroso é um pecado grave e deve ser confessado a Deus. Quando guardamos rancor em nossos corações contra alguém, agimos de maneira que desagrada a Deus, e isso dificulta não só as nossas orações, mas também a manutenção de um relacionamento íntimo com Ele. Deus não ouvirá nossas preces, a menos que também demonstremos disposição para perdoar. Como afirmou João Calvino a respeito deste versículo: “Se não formos mais duros que o ferro, esta exortação deve nos amolecer e nos deixar dispostos a perdoar as ofensas.”
Outra interpretação bíblica plausível de Mateus 6:14-15 é que ela indica que quem se recusa a perdoar demonstra, na verdade, que não recebeu o perdão de Cristo. Qualquer pecado cometido contra nós, por mais terrível que seja, é mínimo em comparação com os nossos pecados contra Deus. Se Deus nos perdoou de tanta coisa, como poderíamos nos recusar a perdoar aos outros por “pouco”? Segundo essa visão, Mateus 6:14-15 proclama que quem abriga rancores contra os demais não experimentou verdadeiramente o perdão de Deus. Ambas as interpretações negam veementemente a ideia de que a salvação dependa de perdoarmos o próximo. Seja o versículo entendendo o perdão no sentido relacional ou declarando que a falta de perdão é a marca de quem não crê, a verdade essencial permanece a mesma: devemos perdoar os outros porque Deus, por meio de Cristo, já nos perdoou (Efésios 4:32). É inaceitável que alguém que realmente experimentou o perdão de Deus se recuse a conceder o mesmo perdão aos demais.






