Como a crença em Deus é diferente do Monstruosismo do Espaguete Voador?

Pergunta

Como a crença em Deus difere do pastafarismo?

Resposta

O pastafarismo (também conhecido como pastafarianismo) é uma “religião” criada por um homem chamado Bobby Henderson. Henderson criou essa sátira em protesto à decisão do Conselho Estadual de Educação do Kansas de ensinar design inteligente como alternativa à teoria da evolução. Em essência, ele questionava: “Se ideias religiosas tolas, como o design inteligente, precisam de tempo igual nas aulas de biologia do ensino médio, então por que outras ideias religiosas tolas não poderiam ser ensinadas junto a elas?” Assim, em protesto, ele inventou um conjunto de crenças religiosas absurdas e exigiu que fossem abordadas em salas de aula lado a lado com as teorias da evolução e do design inteligente. Seu argumento é que ensinar design inteligente nas escolas seria tão absurdo quanto ensinar que o Monstro do Espaguete Voador criou o mundo e enganou os cientistas para que acreditassem na evolução. (Nota: o pastafarismo é simplesmente uma nova e mais divertida variação de analogias filosóficas, como o “bule de Russell” e a “unicórnio rosa invisível”.)

A lógica apresentada pelo pastafarismo é a seguinte:

  1. Não há evidências da existência do Deus judeu-cristão.
  2. Não há evidências da existência do Monstro do Espaguete Voador.
  3. Portanto, a crença no Deus judeu-cristão e a crença no Monstro do Espaguete Voador estão em pé de igualdade em termos epistemológicos.

Há mais problemas nesse raciocínio do que é possível abordar aqui, mas alguns pontos merecem ser destacados.

A primeira premissa é falsa. Não é verdade que “não há evidências da existência do Deus judeu-cristão”. Henderson pode não aceitar as evidências apresentadas pelos defensores dessa crença, mas ele não oferece argumentos suficientes para demonstrar que os diversos debates clássicos e contemporâneos sobre a existência de Deus são inválidos. Mesmo que ele refutasse adequadamente alguns argumentos dos teístas, não estaria justificado em afirmar que “não há NENHUMA evidência da existência de Deus”. Essa afirmação reflete, antes de tudo, uma rejeição apriorística – uma recusa das evidências antes mesmo de serem apresentadas.

Muitos argumentos foram apresentados em defesa da existência de Deus. Existem argumentos cosmológicos (que defendem uma causa primeira), argumentos teleológicos (a favor de um Grande Designer), argumentos morais (em prol de um Legislador Moral) e outros. Qualquer pessoa que se preocupe seriamente com a questão de Deus deve ponderar esses argumentos com seriedade e caridade, ao invés de rejeitá-los de forma dogmática. Descartar a existência de Deus “porque não consigo pensar em bons motivos para acreditar nele” não se alinha com o tratamento que os pensadores mais influentes da civilização ocidental deram a essa questão. Quase todos os grandes filósofos e intelectuais de diversas épocas debateram a existência de Deus, e a maioria deles acabou aceitando alguma forma de crença em uma divindade. Apenas uma pequena minoria negou essa possibilidade.

Importante destacar que este argumento não apela para o “apelo à maioria” (argumentum ad populum). Não se defende que Deus existe simplesmente porque muitas pessoas acreditam nele. Trata-se apenas do fato irrefutável de que inúmeras mentes brilhantes refletiram sobre a questão e chegaram à conclusão de que Ele existe. Ainda que isso não prove de forma absoluta a existência de Deus, nos convida a encarar essa questão com a seriedade e a honestidade intelectual que ela merece.

Em contrapartida à séria discussão sobre a existência de Deus, o pastafarismo é amplamente reconhecido como algo inventado. Alguns contrastes entre a crença em Deus e a crença no pastafarismo podem ser listados:

Crença em Deus

  1. Presente entre os povos em todas as épocas – o ateísmo é extremamente raro, fato reconhecido inclusive pelos ateus.
  2. Há inúmeros argumentos filosóficos sofisticados que defendem a existência de Deus.
  3. O Deus cristão oferece uma explicação coerente para por que algo existe em vez de nada, para a universalidade da lógica, para a objetividade da moralidade e para a presença da religião em diversas culturas.
  4. A crença em Deus proporciona uma satisfação racional.

Crença no Pastafarismo

  1. Acreditada por ninguém – nem mesmo aqueles que defendem sarcasticamente essa ideia acreditam de fato em sua existência.
  2. Não existem argumentos filosóficos técnicos ou fundamentados que sustentem o pastafarismo.
  3. Mesmo os que ironicamente afirmam que o Monstro do Espaguete Voador existe não o fazem de coração, nem o consideram uma explicação coerente para a existência, a lógica, a moralidade, a beleza, etc.
  4. Mesmo que alguém alegasse acreditar no pastafarismo, essa crença não seria racionalmente satisfatória.

Embora alguns ateus analisem os argumentos teístas com seriedade, muitos não se aprofundam nessa discussão. Essa postura pode ser observada em diversos textos populares escritos por ateus, que tendem a refutar de forma simplista argumentos fracos e incompletos a favor do teísmo, presumindo que já teriam desmantelado os argumentos bem fundamentados apresentados por filósofos e teólogos cristãos – uma prática intelectualmente desonesta.

Em resumo, a diferença entre a crença em Deus e a crença no pastafarismo é a seguinte:

A crença em Deus é racional e apoiada por bons argumentos, enquanto a crença no pastafarismo é irracional e não possui fundamentos sólidos. Bobby Henderson, ao afirmar que não há bons motivos para acreditar em Deus, acaba cometendo uma falácia ao assumir a questão. Apesar das dificuldades e questionamentos existentes, o cristianismo se mostra uma religião racionalmente defensável. Mesmo diante de perguntas desafiadoras, essa busca por respostas aprofunda a riqueza intelectual da fé cristã.

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