Existe alguma validade no filme Zeitgeist?
O filme Zeitgeist, disponível na internet, é essencialmente uma teoria da conspiração infundada focada em atacar a fé cristã e o governo dos Estados Unidos. O aspecto interessante é que, embora quase todas as afirmações feitas no filme estejam completamente erradas, o medo final que ele promove é compatível com as Escrituras (dependendo da visão sobre a escatologia bíblica).
O objetivo deste artigo é abordar a primeira teoria conspiratória apresentada no filme – a de que Jesus seria uma fusão mitológica de diversos deuses pagãos, inventada pelos egípcios e outras culturas. Não serão discutidas as duas principais alegações que se seguem no filme – de que o governo norte-americano arquitetou os ataques de 11 de setembro (com a ideia de que um padrão de ataques domésticos ocorreu na história) e de que existe uma grande conspiração bancária tentando controlar as finanças de todos os cidadãos dos EUA e, por fim, o mundo – assim como também não será explorada a teoria de que um governo mundial está prestes a surgir.
As alegações acerca de Jesus no filme Zeitgeist podem ser resumidas da seguinte forma: o Jesus proclamado na Bíblia não seria uma pessoa histórica e, de fato, nunca existiu. Em vez disso, Jesus seria uma invenção dos autores bíblicos, que copiariam meticulosamente atributos de antigos deuses pagãos para criar um novo deus digno de adoração. Assim, Jesus espelharia diversas divindades pagãs em relação ao seu nascimento, vida, morte e ressurreição.
Além disso, o filme afirma que a astrologia é a base de grande parte dos escritos das Escrituras. A conclusão final é que o cristianismo é um mito – assim como todas as religiões pagãs que o antecederam – e, portanto, é falso. Para analisar essas afirmações, é útil dividí-las em três grupos:
- O assunto da astrologia e a Bíblia;
- As supostas semelhanças entre Jesus e heróis mitológicos;
- As evidências da veracidade dos relatos evangélicos.
A Bíblia e a Astrologia
O filme Zeitgeist (cujo nome vem do alemão, significando “espírito da época” ou literalmente “tempo” [Zeit] e “espírito” [Geist]) defende que a Bíblia tem seu embasamento na astrologia e nas estrelas. Talvez uma das declarações mais reveladoras sobre a importância que Deus confere às estrelas esteja registrada em um dos livros bíblicos, onde se diz simplesmente que “Ele fez também as estrelas”. Essa brevidade na descrição sugere que Deus não deseja atribuir às estrelas um significado maior do que o propósito para o qual foram criadas. De fato, há diversos trechos nas Escrituras que condenam a adoração das estrelas, do sol e da lua, enfatizando que tais elementos pertencem somente à criação e não ao Criador.
Quando o argumento do filme afirma que o número 12 na Bíblia se refere aos 12 signos do zodíaco – estabelecendo um paralelo entre os 12 patriarcas, as 12 tribos de Israel e os 12 discípulos de Jesus – esse posicionamento se mostra impossível, pois o livro de Gênesis foi escrito por volta de 1000 A.C. e a divisão das estrelas em 12 signos, conforme a astrologia, ocorreu apenas no século V A.C., pelos babilônios.
Comparando Jesus a Deuses Pagãos
A parte mais robusta da primeira seção do filme dedica-se a alegar que Jesus não passa de uma combinação de deuses pagãos, cujos atributos teriam sido copiados para a criação do novo deus descrito pelos evangelhos. A principal “autoridade” utilizada para essa narrativa é o deus egípcio Hórus. Se a pesquisa sobre esse personagem principal é falha, é provável que os mesmos métodos e materiais questionáveis permeiem todas as outras comparações.
Segundo o filme, Hórus teria as seguintes características:
- Nasceu em 25 de dezembro de uma virgem (referida no filme como Isis Mary);
- Uma estrela no Oriente anunciou sua chegada;
- Três reis vieram adorar o “salvador” recém-nascido;
- Tornou-se um prodigioso professor aos 12 anos;
- Aos 30 foi “batizado” e iniciou um “ministério”;
- Possuía doze “discípulos”;
- Foi traído;
- Foi crucificado;
- Foi sepultado por três dias;
- Ressuscitou após três dias.
Ao analisar cada um desses pontos, diversas inconsistências surgem. Embora seja verdade que a lenda egípcia mencione que Hórus nasceu de Ísis, não há nenhuma referência que associe Ísis ao nome “Mary” nem que descreva Ísis como virgem. Além disso, Ísis não era virgem, sendo conhecida como viúva de Osíris, com quem concebeu Hórus. Outro ponto a ser destacado é que Hórus teria nascido durante o mês de Khoiak (outubro/novembro), e não em 25 de dezembro – data que, aliás, sequer é apontada na Bíblia para o nascimento de Cristo.
Da mesma forma, embora o filme afirme que uma estrela no Oriente anunciou o nascimento de Hórus e que três reis vieram lhe prestar homenagens, nenhuma fonte egípcia comprova a existência desses elementos. No relato cristão, a menção aos magos (ou sábios) não especifica sua quantidade exata. Ademais, a designação de Hórus como “salvador” não encontra respaldo em nenhum relato antigo a respeito dele.
Palavras e expressões do vocabulário cristão, como “batismo” e “ministério”, são utilizadas de forma leviana para vincular Hórus à narrativa evangélica, mesmo sendo os relatos sobre Hórus – ou, em certos casos, sobre Osíris, com quem Hórus é ocasionalmente confundido – completamente diferentes. Por exemplo, a única alusão relacionada à água em sua história refere-se à lenda de Osíris, cujo corpo foi desmembrado e, posteriormente, reunido por Ísis, culminando na sua ressureição ou ascensão ao domínio do submundo, dependendo da versão.
Outros detalhes, como Hórus ter se tornado professor aos 12 anos, ter doze discípulos ou ter sido traído e crucificado, não existem nos relatos sobre ele. Algumas tradições sugerem que Hórus contava com quatro semi-deuses e com um grupo de seguidores humanos de número variado – e nada que indique traição ou crucificação, sobretudo num período em que esta prática nem mesmo existia. Da mesma forma, a ideia de Hórus ter sido sepultado e ressuscitado não tem respaldo em textos egípcios antigos.
Evidências da Veracidade dos Relatos Evangélicos
A tentativa de provar que Hórus seria um precursor de Jesus fracassa por falta de evidências históricas concretas. O filme segue o mesmo caminho ao tentar relacionar outros deuses pagãos – como Attis e Krishna – com o Filho de Deus descrito nos Evangelhos. Por exemplo, embora o filme afirme que o deus hindu Krishna também teria sido crucificado e ressuscitado, os ensinamentos hindus descrevem sua morte como resultado de uma flecha disparada acidentalmente por um caçador, seguida de sua ascensão para se unir a Brahman.
Além disso, o filme omite diversos fatos que reforçariam a veracidade dos relatos do Novo Testamento. Entre estes, destacam-se:
- Detalhes arqueológicos que confirmam os relatos do Novo Testamento;
- Referências históricas confirmadas sobre a vida de Cristo;
- Datação precoce dos relatos evangélicos durante a vida dos testemunhas oculares;
- Fortes convicções morais dos autores e seu compromisso com a verdade;
- O relato dos apóstolos que deram a própria vida pelo que acreditavam;
- A tipologia entre José e Jesus, reconhecida por estudiosos conservadores como uma prefiguração da vinda de Cristo;
- O bem que o cristianismo produziu ao longo da história.
É interessante notar que o cristianismo é a única religião visada no filme – religiões como o islamismo e o hinduísmo não são mencionadas. Ainda que a fé dos produtores não fique explícita, ao final do documentário há uma mensagem sugerindo que “tudo é um”, acompanhada por trechos de um conhecido evolucionista/materialista, que aludem a uma nova consciência emergente. Essa abordagem revela uma tendência fortemente pagã.
No desfecho, o filme afirma que a religião é uma distração arquitetada por um grupo secreto, que a utiliza juntamente com os meios de comunicação e outros mecanismos para adormecer a população, preparando-a para a aceitação de um futuro governo único mundial. Essa é a única proposição apresentada que possui alguma plausibilidade, na medida em que encontra respaldo em passagens proféticas tanto do Antigo quanto do Novo Testamento, as quais apontam para a ambição de um governante mundial.
Curiosamente, o filme chega a citar palavras atribuídas a Jesus – cuja existência é questionada pelos produtores – adaptando o trecho famoso que diz: “Conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará”, modificando-o para “Devem buscar a verdade, e a verdade os libertará”. Concluindo, os produtores do filme se apoiam em fontes questionáveis e, por vezes, totalmente fabricadas, para difamar o cristianismo e rotulá-lo, juntamente com outras religiões, como um instrumento de uma organização secreta que, segundo eles, estaria conspirando para dominar o mundo. Para chegar a essa conclusão com base em materiais falhos é necessário ter uma fé maior do que a necessária para aceitar a verdade e a validade histórica do cristianismo.
Os cristãos não devem se surpreender com a invenção de tais alegações, que surgem na imaginação dos incrédulos e são disseminadas como fatos. Conforme escrito no Novo Testamento, há alertas sobre falsos profetas e ensinos destrutivos que negam o Senhor soberano, trazendo sobre si mesmos uma destruição rápida.






