Já que Deus retém o perdão, podemos?

Sendo que Deus retém o perdão, podemos nós?

A Bíblia fala extensamente sobre o perdão, tanto o perdão de Deus para com os pecadores quanto o perdão que devemos conceder uns aos outros. Entretanto, essas não são duas questões separadas e sem relação; elas estão profundamente interligadas. Nossa intimidade com Deus e a purificação diária dependem do perdão que oferecemos aos demais (Mateus 6:12), e o modo como perdoamos deve refletir o perdão que recebemos de Deus.

Deus nos comanda a perdoar. Nosso perdão deve seguir Seu exemplo: “Sejam bondosos e compassivos uns com os outros, perdoando-se mutuamente, assim como Deus os perdoou em Cristo” (Efésios 4:32; cf. Colossenses 3:13).

Nosso perdão deve estar sempre disponível. Em uma ocasião, Pedro perguntou a Jesus: “Senhor, quantas vezes deverei perdoar meu irmão que pecar contra mim? Até sete vezes?” E Jesus respondeu: “Não te digo que até sete vezes, mas até setenta vezes sete” (Mateus 18:21–22).

Além disso, nosso perdão deve ser marcado pela misericórdia, conforme ensina: “Sejam misericordiosos, assim como o Pai de vocês é misericordioso” (Lucas 6:36; cf. Tiago 2:13).

Mas será correto reter o perdão? Afinal, Deus retém Seu perdão daqueles que não se arrependem. Os pecadores que vão para o inferno permanecem sem perdão pela eternidade. Aqueles que desobedecem ao mandamento de “converter-se a Deus com arrependimento e ter fé em nosso Senhor Jesus” (Atos 20:21) resistem ao Espírito Santo e, em essência, cometem o pecado imperdoável.

O fato de Deus exigir que os pecadores se arrependam não significa que Ele esteja indisposto a perdoar. Seu coração está sempre disposto, pois Ele deseja que todas as pessoas sejam salvas e conheçam a verdade (1 Timóteo 2:4). Para oferecer o perdão, Deus foi ao extremo: enviou Seu Filho. Por causa do sacrifício de Cristo na cruz, Ele perdoa gratuitamente.

Da mesma forma, devemos estar prontos e dispostos a perdoar qualquer pessoa que nos peça perdão (Lucas 17:4). Se realmente formos gratos pelo perdão que recebemos, não hesitaremos em perdoar um ofensor arrependido, mesmo que o erro seja repetido diversas vezes. Afinal, nós também pecamos repetidamente e somos gratos pelo perdão de Deus.

É importante lembrar que existem diferentes espécies de perdão. Nem todo perdão que concedemos é exatamente igual. Um tipo de perdão resulta em reconciliação entre as partes envolvidas, enquanto outro pode não levar à reconciliação.

Por exemplo, o perdão de Deus ao crente resulta em reconciliação entre o crente e Deus. Em 2 Coríntios 5:18–19, lemos que Deus “nos reconciliou consigo mesmo por meio de Cristo…” De posse do perdão de Deus, nossa dívida é cancelada e nosso relacionamento é restabelecido. Em Cristo, temos uma relação favorável com Deus e somos reconhecidos como Seus filhos (1 João 3:1).

No entanto, a Bíblia também revela um tipo de perdão que não leva necessariamente à reconciliação. Na cruz, Jesus orou: “Pai, perdoa-lhes, pois não sabem o que fazem” (Lucas 23:34). Nem todos que estavam presentes em Golgota naquele dia foram reconciliados com Deus. Jesus orou para que fossem perdoados, mas a reconciliação não ocorreu. Ele foi sincero em Sua oração, mas não resultou em reconciliação universal.

Da mesma forma, quando Estêvão estava sendo apedrejado até a morte, ele orou: “Senhor, não atribua a eles este pecado” (Atos 7:60). Mesmo diante da morte, Estêvão não nutriu amargura e perdoou seus assassinos. Esses, no entanto, não foram reconciliados com ele, mas o tipo de perdão que ofereceu não requeria isso.

Perdoamos os outros porque fomos perdoados por Deus. Perdoamos porque Deus nos comanda a perdoar; perdoamos para que não abriguemos amarguras em nossos corações (Hebreus 12:15) nem retribuamos o mal com o mal (1 Pedro 3:9).

Ao perdoarmos, refletimos o coração de Deus, que é paciente e “não quer que ninguém seja destruído, mas que todos cheguem ao arrependimento” (2 Pedro 3:9). Nosso Senhor não se alegra com a morte dos ímpios, mas se compraz quando estes se afastam de seus caminhos e têm vida (Ezequiel 18:23).

O fato de que a reconciliação nem sempre acompanha o perdão significa que a restauração da confiança não é automática. É equivocado pensar que perdoar um cônjuge abusador hoje implica, automaticamente, que a separação deva terminar amanhã. As Escrituras mostram muitos motivos para desconfiarmos daqueles que se provaram indignos de confiança (Lucas 16:10–12). A reconstrução da confiança só pode começar após um processo de reconciliação, e, como visto, a reconciliação nem sempre decorre do perdão.

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