O elo perdido — foi encontrado?

Pergunta

De vez em quando, meios de comunicação irresponsavelmente divulgam a afirmação sensacional de que alguém, em algum lugar, finalmente encontrou “o elo perdido”. Tais reportagens dão à população a falsa impressão de que a ciência descobriu, enfim, os restos fossilizados de uma criatura meio humana, meio macaca, comprovando a teoria da evolução. Na realidade, nenhum elo perdido foi encontrado – ele continua desaparecido. Muitos restos fossilizados de prosímios, macacos, símios e humanos foram descobertos, mas nenhum fóssil intermediário entre símios e humanos.

Resposta

Ávidos por encontrar o sempre ausente elo perdido, os defensores dessa teoria tendem a focar em qualquer aspecto superficial de um fóssil que possa ser interpretado como um sinal de transição evolutiva, seja de macaco para símio ou de símio para humano. Veículos de notícias, então, não hesitam em publicar manchetes sensacionalistas, que acabam sendo boas para os negócios.

Por exemplo, o Darwinius massillae foi apresentado como um elo perdido. Esse fóssil, também conhecido como “Ida” – nomeado em homenagem à filha do cientista norueguês que liderou a equipe de pesquisa – se assemelha a um lêmure moderno, com exceção do fato de não possuir a garra de higiene comum aos lêmures. Os defensores da evolução interpretaram esse detalhe como prova de que Ida seria uma etapa de transição do grupo dos prosímios (ao qual os lêmures pertencem) para os macacos, já que estes não possuem a mesma característica. Embora existam outras interpretações para esses dados, essa visão serve muito bem aos que defendem a evolução.

Imagine o seguinte: o que aconteceria se encontrássemos um homem nascido com mãos, mas sem braços, de modo que suas mãos estivessem diretamente unidas aos ombros? Deveríamos acreditar que ele representa um elo perdido entre um humano e um peixe? Essa é a mesma lógica utilizada em relação a Ida. A verdade é que existem pessoas nascidas com mãos, mas sem braços, e todas elas são 100% humanas, sofrendo de uma condição conhecida como fócomelia, que pode ser hereditária ou provocada pela exposição pré-natal a determinados medicamentos.

Será, então, que o lêmure fossilizado, em vez de representar um elo perdido, sofria de uma deformidade? Isso é inteiramente possível. Mas o que seria mais sensacional para as manchetes: a descoberta de um lêmure morto e deformado ou a identificação de uma nova espécie que se encaixe na presumida árvore genealógica da evolução humana? Optando pelo último cenário, o público poderia proclamar Ida como “a oitava maravilha do mundo”, e imagens de seu fóssil poderiam ser difundidas amplamente, dando a entender que finalmente encontramos o elo perdido. Foi exatamente isso que ocorreu em 2009 – um grande alvoroço em torno de um lêmure fossilizado com algumas partes ausentes.

As reportagens, na empolgação pela possibilidade de um elo perdido, deram ênfase também ao fato de que Ida possuía polegares opositores e unhas em vez de garras, características consideradas humanas. Contudo, não foi mencionado que os lêmures modernos também possuem essas mesmas características, o que torna essa observação desprovida de qualquer significado evolutivo.

Infelizmente, a pressa em declarar um fóssil como elo perdido é recorrente. Fragmentos de ossos – e até dentes de porco – já foram interpretados de forma a criar a imagem de seres intermediários entre macacos e humanos, vendidos ao público e ilustrados em livros didáticos. Ossos de 100% humanos foram erroneamente combinados com os de 100% símios para se construir espécies fantásticas de “ape-homens”. Até esqueletos humanos doentes foram distorcidos para parecerem mais semelhantes aos símios e, então, expostos como evidência.

A anatomia humana é marcada por uma vasta gama de variações, as quais têm sido exploradas e mal interpretadas para sugerir a existência de um elo perdido. Por exemplo, os aborígenes australianos modernos são conhecidos por seus olhos fundos, rostos curtos, arcos superciliares pronunciados e mandíbulas salientes – características que, quando combinadas com a tradição cultural, levaram alguns darwinistas nos séculos XIX e XX a imaginá-los como ape-homens primitivos. Os pigmeus da África sofreram tratamento semelhante, sendo alguns deles capturados e expostos em jaulas como “prova” da evolução.

Alguns teóricos dos séculos XIX e XX afirmavam que todas as pessoas não caucasianas eram, de alguma forma, semelhantes aos símios e, portanto, inferiores aos brancos. O próprio Darwin chegou a escrever que “em algum período futuro, não muito distante, as raças civilizadas do homem quase certamente exterminarão e substituirão as raças selvagens em todo o mundo. Ao mesmo tempo, os símios antropomorfos… sem dúvida serão exterminados. A distância entre o homem e seus parentes mais próximos se ampliará, pois ela intervirá entre o homem em um estado mais civilizado – como podemos esperar do caucasiano – e algum símio tão inferior quanto um babuíno, em vez do que ocorre atualmente entre africanos ou australianos e gorilas.” Essa visão, que classificava os humanos em níveis de “civilização”, exemplifica como os mesmos argumentos têm sido empregados para tratar os neandertais. Estes, que muitas vezes exibiam características superficiais semelhantes às dos aborígenes australianos, também sofriam de condições patológicas – como raquitismo, escorbuto, sífilis e artrite – que acentuavam essa aparência “símia”. Tudo indica que os neandertais eram tão humanos quanto nós: caçadores habilidosos, membros de sociedades complexas, que enterravam seus mortos e praticavam algum tipo de religião.

A conclusão é que deformidades e variações genéticas envolvem a duplicação, o deslocamento, a perda e/ou a reorganização de informações genéticas pré-existentes. Esse processo pode ser observado na natureza, e seus mecanismos são conhecidos e compreendidos. Porém, a evolução dos prosímios para macacos, de macacos para símios ou de símios para humanos exigiria a introdução de informações genéticas novas em um genoma – um processo que nunca foi observado na natureza, e cujos mecanismos não foram identificados pelos cientistas. Não é de se admirar, portanto, que não se tenha encontrado nenhuma evidência concreta de que tal processo tenha ocorrido no passado. Assim, o elo perdido continua desaparecido.

Deixe um comentário