O que a Bíblia diz sobre reclamar?

Pergunta

Resposta

Reclamar pode significar coisas diferentes em diversos contextos. Aqueles que reclamam podem estar expressando tristeza ou luto, ou ainda acusando alguém de ter cometido uma ofensa. Nesse contexto, não há nada intrinsecamente pecaminoso em reclamar. Contanto que a expressão de luto ou a acusação de culpa esteja em conformidade com as diretrizes bíblicas, a reclamação é apropriada. Afinal, a Bíblia contém um livro chamado Lamentações e muitos dos salmos registram “reclamações” – expressões de tristeza diante de uma situação difícil. No entanto, reclamar também pode assumir a forma de apontar falhas, murmurar, queixar-se ou resmungar, e, nesse caso, é errado.

Um reclamante que se entrega a resmungos pecaminosos demonstra descontentamento com sua condição de vida. Reclamar certamente não é fruto do Espírito; um espírito reclamante é, de fato, prejudicial à paz, à alegria e à paciência proporcionadas pelo Espírito. Para o cristão, reclamar é destrutivo e debilitante tanto no âmbito pessoal quanto na forma como seu testemunho é percebido pelo mundo.

A Bíblia apresenta vários exemplos de pessoas que reclamaram. Adão, por exemplo, após desobedecer a Deus junto com Eva, reclamou: “a mulher que colocaste aqui ao meu lado… me deu do fruto da árvore, e eu comi” (Gênesis 3:12), transferindo a culpa para Eva e, de forma indireta, para Deus.

Durante sua jornada pelo deserto, os israelitas de Moisés reclamavam frequentemente. Menos de três meses após deixarem o Egito, eles se queixavam de estarem morrendo de fome no deserto, chegando a desejar tolosamente ter permanecido como escravos no Egito: “Todo o povo murmurou contra Moisés e Aarão, dizendo: ‘Quem dera tivéssemos morrido pelas mãos do Senhor no Egito!’” (Êxodo 16:2–3; cf. Números 14:2). Ainda que a queixa fosse dirigida a seus líderes humanos, Moisés os alertou de que, na verdade, estavam murmurando contra Deus: “Vocês não estão murmurando contra nós, mas contra o Senhor” (Êxodo 16:8). Essa reclamação dos israelitas estava associada à desobediência e à falta de fé, como também se observa em: “Eles murmuravam em suas tendas e não obedeciam ao Senhor” (Salmo 106:25).

Os salmistas também expressaram suas queixas a Deus. No Salmo 12:1–2, lemos: “Não há mais ninguém fiel; os leais desapareceram dentre os homens. Todos enganam o seu próximo; com os lábios bajulam, porém, no coração há engano.” Os profetas, por sua vez, manifestaram o pesar decorrente de suas dores pessoais (por exemplo, Jeremias 20:7–8 e Miquéias 7:1–2). Tais reclamações não eram consideradas pecaminosas, pois eram apresentadas a Deus em forma de oração por socorro.

Aqueles que ouviram o ensinamento de Jesus de que Ele era o pão da vida – vindo do céu – tiveram dificuldade em conciliar essa verdade com o conhecimento sobre sua criação e, por isso, resmungaram (João 6:41). Jesus os chamou a atenção, dizendo: “Deixem de resmungar entre vocês” (João 6:43). A palavra grega traduzida como “resmungar” indica que eles murmuravam e se queixavam silenciosamente, revelando um descontentamento latente.

Os crentes não devem abrigar um espírito de descontentamento. Eles não devem resmungar ou reclamar. Aquele que se recusa a reclamar se destaca em meio a um mundo repleto de reclamantes, tornando-se “irreprensível e puro, ‘filhos de Deus, sem culpa numa geração pervertida e corrompida.’ Assim, vocês brilharão entre eles como estrelas no céu” (Filipenses 2:14–15, fazendo referência a Deuteronômio 32:5). Além disso, as atitudes de bondade devem ser praticadas sem qualquer reclamação, como orienta: “Pratiquem a hospitalidade uns para com os outros, sem murmúrios” (1 Pedro 4:9).

Um espírito reclamante revela a falta de confiança em Deus. Se Deus supriu necessidades no passado, por que não agirá de maneira fiel no presente e no futuro? Podemos confiar que Ele conhece nossas necessidades e que nos proverá no Seu tempo? Por mais difíceis que sejam nossas circunstâncias, elas são conhecidas por Deus, que detém o controle absoluto sobre elas.

Quando sentirmos a tentação de reclamar, devemos buscar primeiro o Senhor. É importante lançar sobre Ele todas as nossas preocupações, sabendo que Ele cuida de nós (1 Pedro 5:7). Para superar o hábito de reclamar, devemos orar pedindo a ajuda de Deus, lembrar-nos de Sua bondade (Salmo 105:5), agradecer em todas as circunstâncias (1 Tessalonicenses 5:18) e regozijar-nos sempre (1 Tessalonicenses 5:16); afinal, é impossível reclamar enquanto se celebra a vida.

À medida que persistimos em estudar a Palavra de Deus, orar e desfrutar da comunhão com outros crentes, nossas queixas e resmungos diminuirão gradualmente. Permitiremos que as dificuldades se transformem, fazendo com que o lamento se dissipe e produzindo em nosso interior uma nova atitude que transforma as provações em perseverança, conforme ensina Tiago 1:2–3.

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