O que é apostasia e como posso reconhecê-la?
Apostasia, derivada da palavra grega apostasia, significa “um abandono total ou deserção de uma fé, princípios ou partido”; na teologia, “um abandono total da fé cristã” (The Century Dictionary, vol. I, p. 265). É um afastamento de Deus, uma rejeição dos ensinamentos fundamentais e uma separação do povo de Deus. Os apóstolos já abordavam a apostasia na igreja primitiva, e a batalha contra ela continuou ao longo dos anos. Hoje, infelizmente, alguns ainda optam por abandonar totalmente sua fé cristã.

Apostasia aparece com frequência no Antigo Testamento. Sempre que Israel caiu na idolatria, isso foi um exemplo de apostasia (veja Juízes 2:11–13). No Novo Testamento, seguidores de Jesus em determinado momento se voltaram contra Ele (João 6:66). Demas, “por ter amado este mundo”, desertou de Paulo (2 Timóteo 4:10). A Bíblia frequentemente adverte contra a apostasia (por exemplo, 1 Timóteo 4:1; Hebreus 3:12; 10:35–38; e 2 Pedro 2:15).
Os cristãos devem aprender a reconhecer a apostasia e os mestres apóstatas, considerando os ensinos apóstatas como perigosos espiritualmente.
Reconhecendo a Apostasia
A apostasia se manifesta de duas formas. Uma delas é o afastamento dos ensinamentos bíblicos fundamentais em direção a doutrinas heréticas que afirmam ser a “verdadeira” doutrina cristã. A segunda forma é a renúncia total da fé cristã, levando ao abandono completo de Cristo.
A segunda forma geralmente tem início na primeira. Uma crença herética se estabelece e cresce até corromper todos os aspectos da fé de uma pessoa, podendo levar ao completo abandono do cristianismo.
Em 2010, Daniel Dennett e Linda LaScola publicaram um estudo intitulado “Pregadores que Não São Crentes”. O trabalho deles registrou cinco pregadores que, com o tempo, foram expostos a ensinamentos heréticos, os aceitaram e acabaram abandonando completamente a fé (Evolutionary Psychology, Vol. 8(1), 2010). Esses pastores acabaram se tornando, ou panteístas, ou ateus secretos. Um dos achados mais perturbadores do estudo é que esses pregadores mantiveram suas posições pastorais. Eles conduziam suas igrejas, mas suas congregações desconheciam o real estado espiritual do pregador no púlpito.
A.W. Tozer escreveu: “Tão habilidoso é o erro em imitar a verdade, que os dois estão constantemente sendo confundidos. Hoje em dia, é necessário um olhar atento para distinguir qual irmão é Caim e qual é Abel”. O crente discernente — e todos devemos ser discernentes — pode identificar doutrinas que se afastam da verdade.
Uma doutrina crucial que não pode ser comprometida diz respeito à pessoa e à obra de Jesus Cristo: “Quem é o mentiroso? Aquele que negar que Jesus é o Cristo. Essa pessoa é o anticristo — negando tanto o Pai quanto o Filho” (1 João 2:22). Em outras palavras, Jesus Cristo e Sua obra redentora são de suma importância; qualquer um que negue a divindade ou a humanidade de Jesus, ou que minimize Sua morte sacrificial, está ensinando uma falsidade.
A apostasia pode ser reconhecida como um afastamento dos ensinamentos claros de Jesus nos Evangelhos: “Quem quer que se desvie demasiado e não permaneça no ensino de Cristo, não possui Deus; mas aquele que permanece nesse ensino tem tanto o Pai quanto o Filho” (2 João 1:9).
Os elementos do evangelho também servem como uma prova para identificar a apostasia. Paulo define o evangelho como a boa notícia referente à morte de Jesus por nossos pecados e Sua ressurreição corporal (1 Coríntios 15:1–4). Por mais atrativas que possam parecer as declarações “Deus te ama”, “Deus quer que alimentemos os famintos” e “Deus quer que você seja rico”, elas não representam a mensagem completa do evangelho. Paulo adverte contra aqueles que “distorcem o evangelho de Cristo” ao adicionar a observância da lei como requisito (Gálatas 1:7). Ninguém, nem mesmo o maior dos pregadores, tem o direito de alterar a mensagem do evangelho. “Se alguém vos pregar um evangelho diferente daquele que vocês receberam, seja maldito!” (Gálatas 1:9).
Reconhecendo os Apóstatas
Judas, meio-irmão de Jesus e líder na igreja primitiva, em sua carta no Novo Testamento, expõe como reconhecer a apostasia e exorta fortemente os que estão no corpo de Cristo a “lutar arduamente pela fé” (Judas 1:3). O verbo grego traduzido como “lutar arduamente” é a origem de nossa palavra agonizar. Como está na forma infinitiva, isso indica que a luta será contínua. Portanto, devemos esperar que falsos mestres travem uma batalha constante contra a verdade, motivo pelo qual devemos levar isso a sério. Todo cristão é chamado a essa luta, e não apenas os líderes da igreja, razão pela qual todos os crentes devem aguçar seu discernimento para reconhecer e combater a apostasia entre eles.
Judas destaca a razão pela qual devemos lutar pela fé: “Pois certos indivíduos se infiltraram de maneira oculta, os quais já estavam destinados, há muito tempo, a sofrer desta condenação, homens ímpios que transformam a graça de nosso Deus em libertinagem e negam o único Soberano e Senhor, Jesus Cristo” (Judas 1:4). Neste versículo, Judas revela três características dos mestres apóstatas:
- Os apóstatas são discretos em sua abordagem. Eles se infiltram “secretamente” na igreja. A palavra grega significa literalmente “entraram sorrateiramente, de forma oculta”. Isso contrasta com a descrição de Paulo dos falsos apóstolos como homens “enganadores”, que “se disfarçam de servos da justiça” (2 Coríntios 11:13–15). Raramente a apostasia começa de modo ostensivo e facilmente detectável; ela inicia como uma pequena alteração aparentemente insignificante da verdade.
- Os apóstatas são ímpios em suas ações. Eles se entregam à imoralidade e a justificam afirmando estarem sob a graça de Deus. Judas evidencia que isto é uma perversão da graça; nenhum cristão tem licença para pecar. Além da imoralidade, os apóstatas são culpados de rebelião (verso 8), reclamação e crítica (verso 16), egoísmo, arrogância e bajulação (verso 16), além de serem divisivos e coniventes com o mundo (verso 19).
- Os apóstatas são heréticos em sua teologia. Eles “negam Jesus Cristo, nosso único Soberano e Senhor.” Seja no que dizem ou no que fazem, os apóstatas rejeitam Cristo. Eles podem negar Sua divindade, Sua humanidade ou Sua filiação eterna. Podem se opor ao ensinamento de que Jesus é o Messias ou o único Salvador. Podem minimizar a eficácia do sacrifício de Jesus ou negar a necessidade dele.
Uma pessoa que se afasta da verdade da Palavra de Deus e de Sua justiça eventualmente revelará suas verdadeiras cores. Os apóstatas sabem bem como mascarar a verdade e apresentar uma fachada enganosa, mas não conseguem sustentar essa farsa para sempre. O apóstolo João afirma a respeito dos apóstatas: “Essas pessoas deixaram as nossas igrejas, mas, na verdade, nunca pertenceram a nós; caso contrário, teriam continuado conosco. O fato de terem partido prova que não eram nossos” (1 João 2:19).
Consequências da Apostasia
Todos os livros do Novo Testamento, com exceção de Filemom, contêm advertências contra os ensinamentos falsos. Deus não deseja que o Seu povo seja enganado. Ele quer que sejamos “cheios do fruto da justiça que vem por meio de Jesus Cristo” (Filipenses 1:11).
As ideias têm consequências. Satanás não se aproximou do primeiro casal no jardim com uma arma visível; ao invés disso, aproximou-se com uma ideia. Essa ideia, abraçada por Adão e Eva, levou a uma ação que os condenou, assim como condenou toda a humanidade. Temos o mandamento de nos proteger contra ideias falsas: “Cuidado para que ninguém os rapte por meio de filosofias e vãs enganações, baseadas na tradição humana e nos princípios elementares deste mundo, e e não em Cristo” (Colossenses 2:8).
Os apóstatas enfrentarão condenação, de acordo com Judas 1:4. “Eles trarão sobre si mesmos de súbito uma destruição”, conforme 2 Pedro 2:1. A grande tragédia é que “muitos seguirão os seus caminhos depravados” (2 Pedro 2:2). O mestre apóstata condena os seus seguidores. Jesus chamou os falsos mestres de “guias cegos” e advertiu que “quando os cegos conduzem os cegos, ambos cairão em uma vala” (Mateus 15:14). Como expressou o filósofo cristão Søren Kierkegaard: “Nunca falhou que um tolo, ao se desviar, leva vários outros consigo” (Philosophical Fragments, tradução de Swenson, D., Princeton University Press, cap. 1, § A, “A Project of Thought”, 1936).
Conclusão
No ano 325 d.C., o Concílio de Niceia foi convocado, em sua maioria, para tratar da heresia de Ário. Para desgosto de Ário, o desfecho foi sua excomunhão e a inclusão, no Credo Niceno, de uma declaração que afirma a divindade de Cristo: “Cremos em um só Deus, Pai Todo-Poderoso, criador de todas as coisas visíveis e invisíveis; e em um só Senhor Jesus Cristo, Filho unigênito de seu Pai, nascido da essência do Pai, Deus de Deus, Luz da Luz, verdadeiro Deus de verdadeiro Deus, gerado, não criado, consubstancial ao Pai.”
Ário pode ter morrido há séculos, mas Seus descendentes espirituais ainda existem na forma de grupos que negam a verdadeira essência e pessoa de Cristo. Até a volta de Cristo, haverá joio misturado ao trigo (Mateus 13:24–30). De fato, a Escritura diz que a apostasia se intensificará à medida que se aproxima a volta de Cristo: “Muitos se afastarão da fé” (Mateus 24:10; cf. 2 Timóteo 3:1–2, 5).
Agora, mais do que nunca, cada crente deve orar por discernimento e lutar pela fé que, uma vez, foi confiada aos santos de Deus.






