O que é Lectio Divina?

Lectio divina é uma expressão em latim que significa “leitura divina”, “leitura espiritual” ou “leitura sagrada”. De acordo com a autora e diretora espiritual Becky Eldredge, trata-se de “uma leitura e oração lenta e ritmada de uma passagem das Escrituras”. A intenção dessa prática monástica tradicional é promover a comunhão com Deus e proporcionar uma percepção espiritual especial. Os princípios da lectio divina foram primeiro expressos por volta do ano 220 e, posteriormente, praticados por monges católicos, especialmente seguindo as regras monásticas de Santos Pachomius, Agostinho, Basílio e Bento. A prática foi revivida em 1965 com a publicação do documento Dei Verbum pelo Concílio Vaticano II.

Uma prática relacionada é a visio divina, que consiste em orar enquanto se contempla ícones, ilustrações ou outras imagens visuais. Além disso, diversos mestres católicos estimulam o uso de musica ou audio divina (usando a música como meio de abrir os “ouvidos do coração”) e da walking divina (participar de procissões, como a do Corpus Christi ou do rosário, visitar as Estaçõs da Cruz ou percorrer o Caminho).

A prática da lectio divina é popular entre os católicos e vem ganhando aceitação também na igreja evangélica, especialmente entre os envolvidos no movimento de formação espiritual. O Papa Bento XVI incentivou a prática, afirmando em um discurso, em 2005, que “a leitura diligente das Sagradas Escrituras, acompanhada pela oração, promove aquele diálogo íntimo em que a pessoa que lê ouve Deus que fala e, ao orar, responde com uma abertura confiante do coração. Se efetivamente promovida, essa prática trará à Igreja – estou convencido disso – uma nova primavera espiritual”.

A lectio divina pode ser facilmente adaptada para a leitura de outros textos sagrados de diferentes tradições. Segundo o psicólogo John Uebersax, os passos da lectio divina “correspondem de maneira razoável às quatro funções cognitivas primárias postuladas pelo psicólogo Carl Jung: sensação, pensamento, sentimento e intuição”.

A prática tem início com um momento de relaxamento, preparando o ambiente, deixando o corpo confortável e a mente livre de pensamentos e preocupações mundanas. Alguns praticantes acham útil concentrar-se iniciando com respirações profundas e repetindo uma palavra ou frase escolhida diversas vezes, para ajudar a libertar a mente. Em seguida, seguem quatro passos:

  • Lectio – Leitura lenta e repetida da passagem bíblica. O foco não está tanto no conteúdo em si, mas em saborear cada parte da leitura, atentando para aquela “voz suave e intimista” que transmite uma palavra ou frase que toca o coração do praticante.
  • Meditatio – Reflexão sobre a passagem, ponderando sobre como ela se aplica à vida pessoal. Nesta etapa, o praticante dá atenção especial aos sentimentos que surgem e à maneira como Deus se comunica.
  • Oratio – Resposta à passagem por meio da oração, abrindo o coração a Deus. Essa etapa é vista como o início de uma conversa com Deus; alguns praticantes registram suas orações e as mensagens que sentem receber em um diário.
  • Contemplatio – Contemplação de tudo o que foi aprendido, envolvendo um momento de silêncio, descanso na presença de Deus e experiência de união com Cristo.

Algumas versões das instruções para a lectio divina incluem ainda um quinto passo: Actio, ou ação. Recebido o amor de Deus, o praticante deve passar a servir o próximo com amor.

Embora a leitura devocional da Bíblia, a oração sem pressa e a meditação sobre a Palavra escrita sejam práticas importantes e edificantes, há algumas ressalvas quanto à lectio divina:

  1. Origem questionável: Por ter se originado dentre a tradição monástica, sendo praticada por místicos, recomendada por papas e ensinada por mestres católicos, essa prática pode despertar desconfiança. É necessário cautela ao se identificar um exercício como uma prática tradicional monástica.
  2. Enfoque subjetivo: Ao enfatizar a experiência pessoal, a lectio divina pode reduzir a importância de um estudo bíblico objetivo e metódico. Seus defensores reconhecem que essa prática “não trata as Escrituras como textos a serem estudados… Na Lectio Divina, abandonamos uma leitura mais intelectual ou estudiosa das Escrituras… Apesar de envolver a leitura, é, em essência, uma prática de escutar a mensagem interior da Escritura transmitida pelo Espírito Santo. Não se busca, na Lectio Divina, obter informações ou motivação.” Uma leitura devocional da Escritura não deve substituir o estudo “intelectual e estudioso”, mas complementá-lo. O estudo sério da Bíblia naturalmente conduz à comunhão e adoração a Deus.

Os crentes têm a responsabilidade de manusear corretamente a Palavra da Verdade, sendo trabalhadores que não precisam se envergonhar diante de Deus. A abordagem correta da Bíblia parte do conhecimento sólido e de uma fé genuína, onde a experiência pessoal de paz e contentamento surge como subproduto do verdadeiro relacionamento e comunhão com Deus.

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