Por que Deus não cura amputados?

Por que Deus não cura amputados?

Alguns utilizam essa pergunta na tentativa de “desprovar” a existência de Deus. De fato, há um site popular, de caráter anti-cristão, dedicado ao argumento “Por que Deus não cura amputados?”. Se Deus é todo-poderoso e se Jesus prometeu fazer qualquer coisa que pedíssemos (ou assim se argumenta), por que Deus jamais curaria amputados quando oramos em favor deles? Por que Ele cura, por exemplo, vítimas de câncer e diabetes, mas nunca faz com que um membro amputado seja regenerado? Para alguns, o fato de um amputado continuar assim seria uma “prova” de que Deus não existe, de que a oração é inútil, de que as chamadas curas são mera coincidência e de que a religião é um mito.

Esse argumento é geralmente apresentado de forma cuidadosa e bem fundamentada, com uma pitada liberal de citações das Escrituras para torná-lo ainda mais legítimo. No entanto, ele se baseia em uma visão equivocada de Deus e numa má interpretação da Bíblia. A linha de raciocínio frequentemente utilizada nessa abordagem assume, pelo menos, sete pressupostos falsos:

Suposição 1: Deus nunca curou um amputado.

Quem pode afirmar que, na história do mundo, Deus jamais fez um membro se regenerar? Dizer “não tenho evidência empírica de que membros possam regenerar; portanto, nenhum amputado jamais foi curado” é equivalente a afirmar “não tenho evidência empírica de que coelhos vivam no meu quintal; portanto, nenhum coelho jamais viveu aqui”. É uma conclusão que simplesmente não se pode tirar. Além disso, temos o registro histórico dos relatos de Jesus curando leprosos, alguns dos quais podem ter perdido dígitos ou características faciais. Em cada caso, os leprosos foram restaurados por completo. Há também o caso do homem com a mão atrofiada e a restauração da orelha cortada de Malco, sem mencionar o fato de que Jesus ressuscitou mortos – o que seria, sem dúvida, ainda mais desafiador do que curar um amputado.

Suposição 2: A bondade e o amor de Deus exigem que Ele cure todos.

A doença, o sofrimento e a dor são o resultado de vivermos em um mundo amaldiçoado – amaldiçoado por causa do nosso pecado. A bondade e o amor de Deus se manifestaram ao fornecer um Salvador para nos redimir da maldição, mas nossa redenção definitiva só se realizará quando Deus acabar com o pecado de forma definitiva. Se o amor de Deus exigisse que Ele curasse todas as enfermidades, ninguém jamais morreria – pois esse “amor” manteria todos em perfeita saúde. A definição bíblica de amor é “buscar de forma sacrificial o que é melhor para quem se ama”. Nem sempre o que é melhor para nós é a integridade física. O apóstolo Paulo orou para que seu “espinho na carne” fosse removido, mas Deus disse “não”, pois quis que Paulo aprendesse que não precisava estar fisicamente inteiro para experimentar a graça sustentadora de Deus. Por meio dessa experiência, Paulo cresceu em humildade e na compreensão da misericórdia e do poder divino.

O testemunho de Joni Eareckson Tada traz um exemplo moderno do que Deus pode realizar por meio da tragédia física. Quando adolescente, Joni sofreu um acidente de mergulho que a deixou tetraplégica. Em seu livro, ela relata ter visitado curandeiros da fé diversas vezes e orado desesperadamente por uma cura que nunca veio. Finalmente, ela aceitou sua condição como a vontade de Deus, concluindo: “Quanto mais penso sobre isso, mais estou convencida de que Deus não deseja que todos fiquem saudáveis. Ele usa nossos problemas para a Sua glória e para o nosso bem”.

Suposição 3: Deus ainda realiza milagres hoje como fazia no passado.

Nos milhares de anos da história bíblica, encontramos apenas quatro períodos curtos nos quais os milagres eram amplamente realizados: o período do Êxodo, a época dos profetas Elias e Eliseu, o ministério de Jesus e o tempo dos apóstolos. Embora milagres tenham ocorrido em toda a Bíblia, foi somente durante esses quatro períodos que eles foram “comuns”.

O tempo dos apóstolos se encerrou com a escrita do Apocalipse e a morte de João. Isso significa que, nos dias atuais, os milagres são novamente raros. Qualquer ministério que afirme ser conduzido por uma nova geração de apóstolos ou que alegue possuir o dom de curar está enganando as pessoas. Os “curandeiros pela fé” apelam para as emoções e utilizam o poder da sugestão para produzir curas que não podem ser verificadas. Isso não quer dizer que Deus não cure pessoas hoje – acreditamos que sim – mas não na quantidade ou da maneira que alguns afirmam.

Novamente, recorremos à história de Joni Eareckson Tada, que em determinado momento buscou a ajuda de curandeiros da fé. Sobre os milagres nos dias atuais, ela observa que “a relação do homem com Deus, na nossa era e cultura, é baseada em Sua Palavra e não em ‘sinais e maravilhas’”. A graça d’Ele é suficiente, e Sua Palavra é segura.

Suposição 4: Deus é obrigado a dizer “sim” a qualquer oração oferecida com fé.

Jesus disse: “Eu estou indo para o Pai. E farei tudo o que vocês pedirem em meu nome, para que o Filho traga glória ao Pai. Peçam-me qualquer coisa em meu nome, e eu a farei.” Alguns tentaram interpretar essa passagem como se Jesus concordasse com qualquer pedido. Mas essa é uma leitura equivocada da intenção de Jesus. Em primeiro lugar, Ele está falando com os apóstolos, e a promessa é para eles. Após a ascensão de Jesus, os apóstolos receberam poder para realizar milagres enquanto espalhavam o evangelho. Em segundo lugar, Jesus utiliza, em duas ocasiões, a expressão “em Meu nome”, o que indica tanto a base das orações dos apóstolos quanto que o que for pedido deve estar em consonância com a vontade de Jesus. Uma oração egoísta ou motivada por ganância não pode ser considerada uma oração feita “em nome de Jesus”.

Oremos com fé, mas fé significa confiar em Deus, crendo que Ele sabe o que é melhor. Quando consideramos todo o ensinamento da Bíblia sobre a oração – não apenas a promessa feita aos apóstolos – aprendemos que Deus pode agir em resposta à nossa oração ou nos surpreender com um curso de ação diferente. Em Sua sabedoria, Ele sempre faz o que é melhor.

Suposição 5: A cura futura de Deus (na ressurreição) não pode compensar o sofrimento aqui na Terra.

A verdade é que “os sofrimentos atuais não se comparam com a glória que em nós será revelada”. Quando um crente perde um membro, ele tem a promessa divina de uma integridade futura, e a fé é “a certeza de coisas que se esperam, a convicção de fatos que se não veem”. Jesus disse: “É melhor para vocês entrarem na vida aleijados ou paralíticos do que terem duas mãos ou dois pés e serem lançados no fogo eterno.” Suas palavras confirmam a importância relativa de nossa condição física neste mundo se comparada ao nosso estado eterno. Entrar na vida com imperfeição (para depois ser restaurado) é infinitamente melhor do que entrar no inferno sendo inteiro, para sofrer eternamente.

Suposição 6: O plano de Deus depende da aprovação humana.

Um dos argumentos do “por que Deus não cura amputados” é que Deus simplesmente não seria “justo” com os amputados. Contudo, as Escrituras deixam claro que Deus é perfeitamente justo e, em Sua soberania, não presta contas a ninguém. Um crente deposita sua fé na bondade de Deus mesmo quando as circunstâncias parecem difíceis e a razão vacila.

Suposição 7: Deus não existe.

Esse é o pressuposto subjacente em todo o argumento “por que Deus não cura amputados”. Aqueles que defendem essa ideia partem do princípio de que Deus não existe e, a partir daí, constroem sua argumentação. Para eles, “a religião é um mito” é uma conclusão irrefutável, apresentada como uma dedução lógica, mas que, na realidade, é o fundamento do argumento.

De certa forma, a questão de por que Deus não cura amputados é uma pergunta capciosa, comparável a “Deus pode criar uma pedra tão grande que nem Ele consiga levantar?”, e foi formulada não para buscar a verdade, mas para desacreditar a fé. Em outro sentido, porém, pode ser uma pergunta válida com resposta bíblica. Em resumo, essa resposta seria algo como: “Deus pode curar amputados e curará cada um daqueles que confiarem em Cristo como Salvador. A cura virá, não como resultado de nossa exigência imediata, mas no tempo determinado por Deus – possivelmente nesta vida, mas certamente no céu. Até lá, vivemos pela fé, confiando naquele que nos redimiu em Cristo e prometeu a ressurreição do corpo.”

Testemunho pessoal

Meu primeiro filho nasceu sem alguns ossos nas pernas inferiores e nos pés, possuindo apenas dois dedos. Dois dias após o seu primeiro aniversário, ambos os seus pés foram amputados. Agora, estamos considerando adotar uma criança da China que precisará de uma cirurgia similar, pois apresenta problemas parecidos. Sinto que Deus me escolheu para ser uma mãe muito especial para essas crianças especiais, e só percebi essa vocação ao ver que o tema “por que Deus não cura amputados” era usado por algumas pessoas como razão para duvidar da existência de Deus. Como mãe de uma criança que nasceu sem pés e potencialmente de outra que também possa ter membros inferiores comprometidos, nunca enxerguei essa situação de forma negativa. Ao contrário, vejo isso como um chamado para ser uma mãe especial, de modo a ensinar aos outros as bênçãos de Deus. Sinto que Ele também está me chamando para dar a essas crianças a oportunidade de fazer parte de uma família cristã que as ensinará a amar o Senhor do seu jeito único e a compreender que, por meio de Cristo, podemos superar todas as adversidades.

Agradeço a Deus por ter enviado profissionais capazes de realizar as cirurgias necessárias e fabricar as próteses que permitam ao meu filho – e, quem sabe, ao nosso próximo filho – caminhar, correr, pular e viver para glorificar Deus em todas as coisas. Afinal, “sabemos que todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que foram chamados segundo o seu propósito”.

Deixe um comentário