Quais são algumas palavras em inglês que mudaram de significado desde a tradução da KJV?

Quais são algumas palavras em inglês que mudaram de significado desde a tradução da KJV?

A Versão King James da Bíblia tem sido uma grande bênção para milhões de pessoas. Sua publicação, em 1611, representou um marco, permitindo que os anglófonos em todo o mundo lessem as Escrituras por si mesmos e compreendessem o que estavam lendo. Hoje, algumas igrejas afirmam que a Versão Autorizada, ou Versão King James (KJV), é a única Bíblia em inglês autêntica. Embora respeitemos a decisão de usarem a KJV, não concordamos que ela seja a única — ou mesmo a melhor — tradução disponível. O vocabulário utilizado na KJV é do século XVII, e algumas palavras podem confundir os leitores modernos.

A Versão King James é uma obra elegante da literatura; porém, uma de suas dificuldades reside no fato de que o significado de muitas palavras mudou nos quatrocentos anos desde sua primeira publicação. Isso não é culpa da tradução, mas simplesmente o reflexo de que as línguas evoluem com o tempo. Algumas palavras da KJV já não têm o mesmo significado de outrora e outras caíram em desuso completamente.

A linguagem da KJV é o Inglês Moderno Inicial — a mesma utilizada nas peças de Shakespeare. Ainda que seja legível nos dias de hoje, ela difere do inglês contemporâneo. Muitas das peculiaridades da KJV encantam alguns leitores, como o uso de thee e thou (formas singulares de ye e you, que eram sempre plurais no Inglês Moderno Inicial). Outras palavras e expressões, porém, parecem meramente pitorescas — por exemplo, será que Números 23:22 realmente faz referência a um “unicórnio”?

Contudo, há termos na KJV que podem trazer problemas mais sérios para os crentes na leitura do texto. A seguir, algumas explicações sobre determinadas palavras da KJV:

Replenish. Em Gênesis 1:28, Deus instrui Adão e Eva a “replenish” a terra. Muitos leitores se confundem com esse termo, interpretando-o como se significasse que a terra já fora habitada, e que os descendentes de Adão e Eva iriam substituir uma raça humana original e extinta. Na realidade, a palavra hebraica male significava “encher completamente”, e não “reabastecer”.

Em 1611, o significado em inglês — agora arcaico — de replenish era “suprir completamente”. O prefixo re- não indicava “novamente”, como poderíamos pensar, mas sim atuava como um intensificador, conferindo um sentido de urgência ao verbo. Assim, o termo replenish na KJV pode ser definido como “encher com urgência e entusiasmo”.

Closet. Em Mateus 6:6, encontra-se outra palavra da KJV que merece esclarecimento. Jesus fala sobre entrar em seu “closet” para orar, e é comum hoje em dia ouvir referências a um “closet de oração”. Isso não significa que é necessário orar em um armário de roupas ou em um guarda-roupa. O termo grego tameion significava “um compartimento interno, uma sala secreta ou uma despensa”, podendo inclusive referir-se a um quarto.

O nosso termo closet deriva do francês clos, que significava simplesmente “um cômodo privado” — uma sala que se encontrava “fechada”. Portanto, não há necessidade de se ajoelhar em meio a sapatos extras e calças penduradas para orar; qualquer espaço reservado serve.

Compel. Em Atos 26:11, Paulo admite que, antes de sua conversão, ele “compeliu” os crentes a blasfemar contra Jesus Cristo. Para os leitores contemporâneos, essa palavra pode sugerir que ele os convenceu, fazendo com que cedessem. Contudo, o grego anagkazo não possui essa força. O termo compelled indica apenas que ele “ameaçou, implorou e pressionou” os crentes a blasfemarem, sem, contudo, implicar que obteve sucesso. Os primeiros cristãos eram mais firmes do que isso.

A definição de 1611 para compelled baseava-se no latim e no francês originais, em que “compel” significava “juntar força” ou “impulsionar”. Assim, Paulo exercia pressão sobre os primeiros cristãos, tentando “guiá-los” em direção ao seu objetivo. A associação de compel com uma “força irresistível” só se tornou comum no início do século XX — cerca de 300 anos depois da escolha dos termos pelos tradutores a mando do Rei Jaime.

Conversation. Atualmente, a palavra conversation da KJV é quase automaticamente associada ao ato de “conversar”. Entretanto, nem o hebraico derek em Salmo 37:14 nem o grego anastrophe em Efésios 4:22 se referem à comunicação verbal. A palavra hebraica significa, na verdade, “um caminho”, e ambos os termos — hebraico e grego — fazem alusão à maneira de viver ou ao caráter evidenciado pelas atitudes.

A definição obsoleta de conversation era “conduta ou comportamento”, que era a ideia que os tradutores da KJV tinham em mente. Tanto o francês conversation quanto o latim conversationem sempre se referiram à forma como alguém convive com os outros.

Cousin. Em Lucas 1:36, a redação da KJV refere-se a Isabel como “cousin” de Maria, o que há muito gera questionamentos sobre o grau de parentesco entre elas. O grego suggenes significa “parente” ou, possivelmente, “alguém da mesma região ou país”.

Ao interpretar o termo cousin nos dias atuais, muitos entendem que significa que Maria e Isabel eram filhas de irmãos. Contudo, esse não era o sentido original da palavra. No Inglês Moderno Inicial, cousin tinha um significado bem mais amplo do que apenas “filha de um tio ou tia”. De fato, um “cousin” poderia ser qualquer pessoa fora do círculo familiar imediato. Em As You Like It, de Shakespeare, o Duque Frederick se refere a Rosalind como “cousin”, mesmo sendo, na verdade, sua sobrinha. Portanto, não se sabe ao certo qual era a relação familiar exata entre Maria e Isabel.

Outros exemplos elucidam ainda mais como certos termos da KJV tiveram seus significados alterados ao longo dos anos. Assim, quando Jesus estava entre “doctors” em Lucas 2:46, entende-se que Ele se encontrava entre “mestres”. O termo “bewitchment” em Gálatas 3:1 denota o ato de “desviar” ou “induzir ao erro”. As “carriages” mencionadas em Atos 21:15 seriam, em nosso vocabulário atual, chamadas de “bagagem”. Quando a multidão é descrita como “instant” em Lucas 23:23, o sentido é de que ela agia de forma “urgente” ou “insistente”. Aqueles que falam “leasing” em Salmo 5:6, na verdade, referem-se ao “engano” ou à “falsidade”. E quando Jesus emprega o termo “meet” em Marcos 7:27, Ele quer dizer o que é “apropriado” ou “adequado”.

Utilizar a Versão King James da Bíblia é perfeitamente aceitável, desde que os leitores se atentem para o vocabulário empregado. É necessário um estudo mais aprofundado para compreender os significados arcaicos, obsoletos e hoje defuntos de muitas palavras na KJV. O estudo indutivo aliado a um bom dicionário ajuda a evitar mal-entendidos na interpretação das Escrituras.

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