Quando a música pode ser considerada “música cristã”?

Quando a música pode ser considerada “música cristã”?

Infelizmente, não existe uma definição universal sobre quais qualidades uma canção deve ter para ser considerada “cristã”. Algumas opiniões defendem que:

  • A letra deve refletir a verdade bíblica;
  • A letra deve louvar diretamente Deus/Jesus;
  • A canção deve mencionar Deus/Jesus;
  • A música precisa ser escrita para cristãos e não como ferramenta evangélica;
  • A letra deve se dirigir diretamente a Deus, e não a outras pessoas;
  • A canção deve ser totalmente original, e não uma regravação de uma música secular;
  • A música é feita para ser tocada na igreja e não fora dela;
  • A melodia deve ser predominante, enquanto o ritmo fica em segundo plano;
  • A canção deve ser escrita e interpretada somente por cristãos maduros;
  • Os homens que cantam devem ter cabelo curto e as mulheres, cabelo longo.

Vários aspectos de uma canção podem influenciar a sua categorização como “música cristã”, mas esses critérios trazem tantos problemas quanto soluções, focando em tudo, exceto na mensagem da música.

Música Cristã – Os Compositores/Intérpretes

Muitos consideram uma canção “cristã” somente se for interpretada por um artista da indústria da música cristã e tocada em rádios desse segmento. Porém, se a letra de uma canção, escrita e interpretada por cristãos para um público cristão, interpreta as Escrituras de forma equivocada, ela ainda pode ser considerada “música cristã”? E uma versão levemente modificada de uma canção secular, gravada por um artista cristão para um público cristão, ainda seria “música cristã”? Exemplos como a interpretação de “Carry on Wayward Son” e a versão de “I Shall Believe” levantam essas questões.

O mesmo ocorre com canções que expressam verdades espirituais, mas que não foram escritas especificamente para a comunidade cristã. Muitas vezes, as músicas são interpretadas por pessoas familiarizadas com o Cristianismo que estão em busca de respostas. Houve um tempo em que surgiram dúvidas sobre a banda Creed, já que suas letras traziam verdades espirituais mesmo não tendo uma identificação explícita como “cristã”. Atualmente, a atenção se volta para bandas que exploram temas cristãos sem, contudo, se declarar abertamente “cristãs”. Se a mensagem da música transmite a verdade espiritual, importa a origem do compositor?

Também existem bandas que, apesar de uma carreira no mercado secular, contam com membros que afirmam ter uma relação pessoal com Jesus, como Lifehouse, U2 e Evanescence. Embora os integrantes afirmem que a banda não é “cristã”, a sua fé aparece naturalmente em suas letras. Pode-se questionar: uma canção que incorpora referências bíblicas, mesmo que interpretada por músicos de sucesso no mercado secular, ainda pode ser considerada “música cristã”?

Entre esses extremos há as bandas que transitam do mercado cristão para o secular sem comprometer a sua fé, mantendo letras que podem ser ouvidas em estações de ambos os mercados. Se todos os integrantes são cristãos, mesmo apreciando a designação de “banda de fé”, o sucesso no mercado secular diminui a legitimidade espiritual de sua música? Em última análise, o estilo de vida e a postura dos compositores e intérpretes não determinam necessariamente se uma canção é “cristã”.

Música Cristã – A Batida

Há um ensinamento que afirma que certos ritmos podem atrair a carne e até mesmo convidar a atividade demoníaca. Alguns defensores dessa ideia afirmam que conjuntos de bateria com vários tambores e pratos não deveriam ser permitidos na igreja. Entre os exemplos de batidas “maléficas” estão:

  • Sincope: quando há ênfase inesperada no ritmo, de maneira contínua ou ocasional. Esse recurso tem sido usado na música europeia desde a Idade Média e é comum em diversos estilos, do ragtime ao rock.
  • Pulsação: quando o ritmo principal é composto por semicolcheias ou notas ainda mais rápidas, característica comum na música techno.
  • Polirrítmica: quando o ritmo incorpora dois tempos diferentes simultaneamente, como 2/4 e 6/8. Essa técnica pode ser encontrada em obras clássicas e também é bastante utilizada no jazz e na música subsaariana.

É fato que ritmos de bateria foram empregados em cerimônias pagãs por milênios, mas também existem registros do seu uso em celebrações judaicas, como na referência ao “pandeiro” em passagens do Antigo Testamento. O que realmente chama a atenção não é a batida em si, mas a intenção daqueles que a produzem. Curiosamente, batidas mais lentas e constantes podem fazer com que o ouvinte relaxe e entre em um estado quase hipnótico. Embora os técnicos de som enfrentem desafios para equilibrar o volume dos tambores nas igrejas, a Bíblia nunca adverte especificamente contra os ritmos de bateria.

Música Cristã – Os Instrumentos

Algumas denominações religiosas não permitem o uso de instrumentos musicais nos serviços, alegando que eles não são mencionados no Novo Testamento, um argumento que se baseia em omissões. No contexto dos diversos instrumentos mencionados no Antigo Testamento, fica claro que Deus aprova o uso desses dispositivos na produção musical. Além disso, a passagem que fala em “fazer melodias” em Efésios 5:19 faz referência literal ao ato de dedilhar as cordas de um instrumento, como uma harpa. Assim, a Bíblia deixa os cristãos livres para escolherem os instrumentos que preferirem.

Música Cristã – As Letras

Se a Bíblia permite o uso de instrumentos e ritmos conforme a preferência pessoal, e se o autor ou intérprete não é um critério determinante para definir “música cristã”, resta-nos analisar a letra. As palavras têm o poder de expressar a verdade espiritual, como instruem passagens que falam sobre conversas cheias de graça e sal ou palavras edificantes que fortalecem os outros.

No entanto, dizer que uma letra é “cristã” não é tecnicamente correto, pois o termo “cristão” se refere a uma pessoa, e não a uma canção, livro ou empresa. Assim, é mais adequado afirmar que a letra de uma canção é “baseada na Escritura” ou “edificante do ponto de vista bíblico”.

Mesmo que o compositor ou intérprete não seja um modelo perfeito, o importante é que a mensagem não distraia o ouvinte do ensinamento espiritual contido na música. Se o ritmo ou a batida forem perturbadores para alguém, é possível optar por versões sem instrumentos. Afinal, o louvor pode ser tão profundo em uma canção a capella quanto em uma acompanhada por instrumentos. Deus nos presenteou com a música para que desfrutássemos e fôssemos edificados, assim como diz o Salmo 40:3: “Ele me colocou num novo cântico, um hino de louvor ao nosso Deus. Muitos verão e se encantarão, e confiarão no Senhor.”

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